O Complexo Mecanismo do Simples

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Matrix - Arquiteto É normal que pessoas de minha convivência achem que eu sou uma pessoa bastante “simples”. De outro modo, elas sequer conviveriam comigo. Ou não? Afinal, ninguém passa horas conversando com alguém com quem ache difícil de lidar. De alguma forma nada que seja prazeroso implica a sensação de perda de tempo.

Por outro lado, há pessoas que me acham muito “difícil”, sem dúvida. Há pessoas que acham você “difícil” também, eu tenho certeza. E não chega a ser uma surpresa espantosa que, no fantástico Reino de Banânia, debruçando-se calculadamente sobre nós, tenhamos macunaímas que detestam ciências exatas e, por isso mesmo, ignoram o que há de humano em qualquer ciência. Essa gente me acha difícil; eu discordo. Não é que eu seja difícil: para elas eu não posso ser nada além de impossível. Continue lendo

“Se um viajante numa noite de inverno”

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Escrevendo

Trecho do romance de Ítalo Calvino:

“Às vezes sou tomado por um desejo absurdo: que a frase que estou a ponto de escrever seja a mesma que a mulher está lendo naquele exato momento. A ideia tanto me sugestiona que chego a convencer-me de que é verdadeira; escrevo a frase rapidamente, levanto-me, vou à janela, aponto a luneta para controlar o efeito de minha frase em seu olhar, na dobra de seus lábios, no cigarro que ela acende, nos movimentos de seu corpo na espreguiçadeira, nas pernas que se cruzam ou se distendem.

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Be patient, but not stupid.

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Uma vez, ao saber que eu escrevia poemas e contos, uma pessoa me disse que isso era bom, para eu liberar meus “sentimentos”. Nunca pensei em ser elogiado e chamado de retardado numa mesma frase -realmente, uma façanha. Mas, hmmm, a modéstia (para não dizer outra coisa) me fez discordar dela… Hospícios estão cheios de “aberrações” precisando liberar sentimentos; isso os mantêm calmos e na linha. Eu escrevo porque gosto e sobretudo porque sou bom no que faço; se precisasse de um psiquiatra, procuraria um psiquiatra, não usaria a literatura como muleta.

Já devem ter percebido que eu fiquei uma arara, não é verdade? Mas não só por ter minha dignidade pessoal manchada; dizer que a literatura era importante para liberar “sentimentos” é coisa que desonra mais a ela do que a mim. Literatura não é um remédio para os deprimidos: é um veneno para os sãos. Por isso se espantam quando leem algo além de Contigo ou das previsões astrológicas para o ano seguinte. Logo tentam encontrar uma maneira de afastar aquilo que lhes incomoda, achando uma “utilidade” para a literatura, que é mais um libelo de libertação do que uma forma de amordaçamento social, de “sadia” catarse.

Mas eu estive pensando: quem neste mundo não é um retardado num hospício? Este mundo é louco e inclui as pessoas em seus delírios.  É claro que estou aumentando a escala em zilhões de vezes. A própria mulher que me ofendeu talvez não tivesse essa intenção, talvez tudo tenha passado de um mal entendido -fruto de minha confessada neurose. Talvez ela simplesmente, por não ser uma entendida no assunto, estivesse dando as interpretações dela, com as boas intenções de que o inferno já está cheio. As pessoas reproduzem discursos que não lhes são próprios, às vezes por ingenuidade; manter gente “calma e na linha”, manter gente produtiva e adestrada, se não é coisa da literatura (aliás, muito pelo contrário…), ao menos é o que desejaria esta sociedade.

Estou cansado, mas não estou morto. Vejo que muito do que fiz foi exagerado, inconsequente, mais fruto de traumas do que eu poderia imaginar. Não quero dizer que não esteja certo nas coisas que digo: apenas que eu deveria ter paciência na mesma proporção que muitos tiveram comigo. Hoje já não luto pela profissionalização dos escritores, porque percebo que esse conceito de “profissionalização” é algo mecânico que só beneficia a eles; somente a esta sociedade interessa afastar as pessoas da literatura ou usá-la, caso seja inevitável, ao seu favor. Os livros de auto-ajuda estão aí, bombando nas livrarias, para comprovar.

Quando alguém, hoje, vem me mostrar algum poema que tenha escrito, mesmo que seja uma bela porcaria (como, na maior parte da vezes, é…), eu apenas sorrio e recomendo meus escritores favoritos. Eu me resigno. Além do mais, afinal, não é fácil nem mesmo para mim, o supremo “entendido” que sempre me julguei, me livrar, também, do fermento dos fariseus…

Literatura infantil = leitores infantis?

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Quando entrei na faculdade de Letras e soube que teria que estudar literatura infantil, tive calafrios. Para mim, um calouro ignorante e presunçoso, “literatura infantil” era uma palavra que servia para caracterizar uma categoria pedagógica de textos que se reduziam a um agregado de histórias fantasiosas, feitas para entreter e educar crianças. Não estava errado em tudo, enfim; de fato, fiquei encantado e aprendi muito nos dois períodos em que tive a oportunidade de desbravar esse mundo…

Os adultos sofrem da mesma doença que, em escala menor, se observa nas crianças. Crianças se recusam a tomar banho porque isso consumiria um tempo em que elas poderiam estar se divertindo; adultos se recusam a aceitar o novo porque isso demandaria uma higienização no entulho de arquivos mentais com um sem-número de informações mal selecionadas. Por isso ambos podem se servir, talvez com igual proveito, de literatura infantil.

Contos como o de Andersen e poemas como os de Cecília Meireles, por exemplo, podem ser uma porta de entrada de fácil acesso para um mundo onde só se tem a ganhar. A linguagem fluida e fácil da literatura infantil seduz por si mesma. Crianças, sempre precipitadas e egocêntricas, ganham um fôlego extra para melhor absorver, ao folhear as páginas de um livro, o fascínio de um mundo que não é o seu; adultos de repente redescobrem a beleza de uma vida além da burocratização.

Há também, é claro, o lado pedagógico da literatura infantil. Fica mais fácil se digerir lições primordiais sobre a vida quando se enxerga de longe o desenrolar de seus acontecimentos, embebidos do rico e exuberante néctar da imaginação transfiguradora desse semideus que é o homem. Aliás, sob esse aspecto, a literatura  não cumpre apenas uma função pedagógica quando infantil; é um contínuo ritual de passagem também para o homem já adulto, que, se já trilhou boa parte do caminho que uma criança ainda inicia, possui a “desvantagem” de intuir uma estrada não-percorrida ainda longa e cheia de encruzilhadas.

Por isso, seja “infantil” ou “adulta”, a literatura é uma obra aberta em essência -como a vida. Nenhuma obra de arte escrita, portanto, pode ganhar pechas simplificadoras, negando o abismo de individualidade -de um povo ou de um autor específico -que se projetou no que fez. Logo, leitores simplórios, infantis, se não sabem reconhecer a literatura no mais simples, muito menos saberão interpretar o complexo, o “adulto”, tirando de suas leituras levianas muito mais a bílis de  suas frustrações intelectuais do que o sumo de uma compreensão verdadeira, sempre longa e livre de premeditações.

Com seu pinóquio, por exemplo, Corradi quis ensinar às crianças o quão é feio mentir. Uma lição que muitos adultos ainda se recusam a aprender. Tudo isso justifica o fascínio que o personagem exerce sobre todas as faixas etárias.

Com seu Pinóquio, por exemplo, Corradi quis ensinar às crianças o quão é feio mentir. Uma lição que muitos adultos ainda se recusam a aprender. Tudo isso justifica o fascínio que o personagem exerce, sobre todas as faixas etárias.

Revisando um espólio “inexistente”…

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Não porque eu queira, mas as preocupações mundanas têm tomado emprestado todo o meu tempo, e isso dificulta que eu procure “dar à luz” minhas obras já concluídas. Quem já tentou um contato com uma editora sabe como é. Para ver um livro seu publicado em condições minimamente favoráveis, o esforço é hercúleo.

Recentemente revisitei meu livro de poesias de estreia -já todo devidamente organizado -e já não o enxergo com o mesmo entusiasmo. Não que seja ruim, apenas não me parece bom o suficiente. Existem, é claro, poemas de alta qualidade, mas existe também muito exibicionismo e muita perda de foco; alguns poemas ficam até pálidos com a quantidade exorbitante de referências espúrias. Nunca duvidei que fosse a estética simbolista o meu real caminho, porém o arsenal de experiências insólitas com a linguagem (especialmente no que diz respeito a aproximações léxicas mirabolantes),  pode diluir o núcleo pulsante de uma cosmovisão mística que sempre foi a minha.

Estou escrevendo para mim mesmo, já que nem sequer publiquei alguma obra. Talvez eu queira digerir o passado para me aprimorar como artista. De qualquer forma, não penso que seja necessário.

Isso porque um segundo livro de poesias deve estar pronto até o fim do ano. Não tenho as soluções e a verve de quando iniciei, mas os poemas talvez estejam livres daquela busca por sintetizar minhas influências culturais e literárias. Eu falo mais sobre minhas experiências de vida e menos sobre arte, e também não há a tentativa ( inconscientede outrora) de impressionar o leitor e sobretudo a mim mesmo; nada, portanto, de metáforas cabulosas e Simbolismo carnavalesco.

Como é o processo de composição? Mais dedicado e menos eufórico. Antes, quando escrevia, os versos vinham como uma enxurrada; hoje, escrevo pausadamente e sou mais criterioso na escolha de palavras e soluções poéticas -mais chato, resumidamente. Mas a diferença que me tem mais saltado aos olhos está relacionada à minha relação com o que escrevo; antes, eu achava fantástico tudo quanto eu punha no papel; hoje, fico irritado com 99% do que escrevo. Só espero que isso não queira dizer que meus poemas atuais são uma bosta (rs rs rs…); afinal, nem sempre escrevi poesia (daí o fôlego e a veneração do princípio), mas sempre fui perfeccionista (daí a dedicação aprimorada e a lentidão de hoje).

O novo livro se chamará, pelo visto, “Solipsismo”. Digo “pelo visto” por causa do rumo das composições. Mas não são egoístas, apesar de egocêntricas. Tenho notado que o vocabulário  é o mesmo, embora com menor variação do que em “As Fosflorescências da Dor”. Os títulos dos poemas, já pela simplicidade, dão uma ideia da distância dessa obra da minha inaugural, cujos títulos dos poemas eram sempre pomposos; alguns dos novos:

“Assombrações”, “Narciso”, “Malogro” e “O Forasteiro”, entre outros.