O Complexo Mecanismo do Simples

Padrão

Matrix - Arquiteto É normal que pessoas de minha convivência achem que eu sou uma pessoa bastante “simples”. De outro modo, elas sequer conviveriam comigo. Ou não? Afinal, ninguém passa horas conversando com alguém com quem ache difícil de lidar. De alguma forma nada que seja prazeroso implica a sensação de perda de tempo.

Por outro lado, há pessoas que me acham muito “difícil”, sem dúvida. Há pessoas que acham você “difícil” também, eu tenho certeza. E não chega a ser uma surpresa espantosa que, no fantástico Reino de Banânia, debruçando-se calculadamente sobre nós, tenhamos macunaímas que detestam ciências exatas e, por isso mesmo, ignoram o que há de humano em qualquer ciência. Essa gente me acha difícil; eu discordo. Não é que eu seja difícil: para elas eu não posso ser nada além de impossível. Continue lendo

Os Nômades

Padrão

O texto que se segue data de 2009 ou 2010, provavelmente, e pertence a uma coletânea de contos a que denominei “Freak Show”. Na época, eu lia muita “literatura marginal”, sobretudo Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca. Os personagens principais da obra são sempre drogados, prostitutas, nazistas, coveiros, malucos, psicóticos, cegos, doentes, arruaceiros, pugilistas etc. Só não escrevi sobre ex-presidiário. Como o conto era curto, decidi publicar aqui como brinde, já que estou me dedicando a “Nerávia” hoje em dia, cujo gênero sempre foi mais popular e, consequentemente, mais rentável.

Praia

Continue lendo

Dobrada à Moda do Porto

Padrão

Pessoas andando

Um dia desses eu andava taciturno pelas ruas do Centro e passei por uma velhinha que sorria para mim. Não tenho o costume de retribuir esse tipo de afeto inusitado, quero dizer, não sou permissivo assim em relação a pessoas que não conheço. Passado algum tempo é que fui perceber que a velhinha em questão era minha antiga professora de alemão. Estava esquálida, irreconhecível a coitada. Havia vendido propriedades por valores irrisórios, há anos atrás, e embarcado nas falsas promessas de um místico goiano. Vai saber o quanto ela precisava de um sorriso naquele momento… Pensei nisso durante um bom tempo.

Continue lendo

Divagações de um Alucinado

Padrão

Almas de inverno possuem florações raras e inesperadas. E excepcionalmente belas. Das criaturas primaveris que conheço, quase todas petúnias desbotadas, crestadas pelo sol e levadas ao sabor insípido do vento, observa-se uma sensibilidade espantosamente senil e, como tal, repugnante. Ama-se viajar para a capital francesa das exterioridades, mas nunca para a capital do Sonho. A singularidade pode estar em qualquer lugar, desde que você também lá esteja.

As mulheres são seres singulares por sua própria constituição -algumas o são mais do que as demais. Certa vez, num baile, conheci uma cujos movimentos das carnes de ópio lembravam-me uma certa espiritualidade, ainda que contorcida. A maioria delas são todas mentirosas contumazes, mas a intensidade do seu desejo se insinua nas entrelinhas justamente na medida em que nos nega a única mentira com que nos poderia privar de seu corpo. Bacante e retórica, sabia deslizar como se estivesse sempre a me dizer um “talvez”: adorava-me e temia-me como ao vinho.

Revisando um espólio “inexistente”…

Padrão

Não porque eu queira, mas as preocupações mundanas têm tomado emprestado todo o meu tempo, e isso dificulta que eu procure “dar à luz” minhas obras já concluídas. Quem já tentou um contato com uma editora sabe como é. Para ver um livro seu publicado em condições minimamente favoráveis, o esforço é hercúleo.

Recentemente revisitei meu livro de poesias de estreia -já todo devidamente organizado -e já não o enxergo com o mesmo entusiasmo. Não que seja ruim, apenas não me parece bom o suficiente. Existem, é claro, poemas de alta qualidade, mas existe também muito exibicionismo e muita perda de foco; alguns poemas ficam até pálidos com a quantidade exorbitante de referências espúrias. Nunca duvidei que fosse a estética simbolista o meu real caminho, porém o arsenal de experiências insólitas com a linguagem (especialmente no que diz respeito a aproximações léxicas mirabolantes),  pode diluir o núcleo pulsante de uma cosmovisão mística que sempre foi a minha.

Estou escrevendo para mim mesmo, já que nem sequer publiquei alguma obra. Talvez eu queira digerir o passado para me aprimorar como artista. De qualquer forma, não penso que seja necessário.

Isso porque um segundo livro de poesias deve estar pronto até o fim do ano. Não tenho as soluções e a verve de quando iniciei, mas os poemas talvez estejam livres daquela busca por sintetizar minhas influências culturais e literárias. Eu falo mais sobre minhas experiências de vida e menos sobre arte, e também não há a tentativa ( inconscientede outrora) de impressionar o leitor e sobretudo a mim mesmo; nada, portanto, de metáforas cabulosas e Simbolismo carnavalesco.

Como é o processo de composição? Mais dedicado e menos eufórico. Antes, quando escrevia, os versos vinham como uma enxurrada; hoje, escrevo pausadamente e sou mais criterioso na escolha de palavras e soluções poéticas -mais chato, resumidamente. Mas a diferença que me tem mais saltado aos olhos está relacionada à minha relação com o que escrevo; antes, eu achava fantástico tudo quanto eu punha no papel; hoje, fico irritado com 99% do que escrevo. Só espero que isso não queira dizer que meus poemas atuais são uma bosta (rs rs rs…); afinal, nem sempre escrevi poesia (daí o fôlego e a veneração do princípio), mas sempre fui perfeccionista (daí a dedicação aprimorada e a lentidão de hoje).

O novo livro se chamará, pelo visto, “Solipsismo”. Digo “pelo visto” por causa do rumo das composições. Mas não são egoístas, apesar de egocêntricas. Tenho notado que o vocabulário  é o mesmo, embora com menor variação do que em “As Fosflorescências da Dor”. Os títulos dos poemas, já pela simplicidade, dão uma ideia da distância dessa obra da minha inaugural, cujos títulos dos poemas eram sempre pomposos; alguns dos novos:

“Assombrações”, “Narciso”, “Malogro” e “O Forasteiro”, entre outros.