4 dicas para não falar merda sobre a Inquisição

Padrão

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1. Palavras devem corresponder exatamente às ideias às quais se referem

BLASFÊMIA é uma ofensa feita diretamente contra Deus. Bandas satanistas muitas vezes escrevem letras blasfemas, mas o mesmo não ocorre necessariamente com uma denominação religiosa que, só porque não é a sua, você acusa de blasfemar, sem nem ao menos conhecer o significado do verbo.

HERESIA ocorre quando uma pessoa, sendo cristã, professa uma doutrina contrária à ortodoxia da religião que ela diz praticar ou em nome da qual ela se diz representante. É basicamente uma forma de hipocrisia e, muitas vezes, de má-fé. Leonardo Boff e Frei Beto são dois hereges, mas o conceito não se aplica a Karl Marx ou Adolf Hitler, por exemplo.

PROFANAR é a palavra usada de maneira mais equivocada que eu já vi. “Profano” é tudo aquilo que não tem caráter religioso, mas que não é, necessariamente, anti-religioso. Uma festa de aniversário comum, por exemplo, é uma festa tão profana quanto o Carnaval. Um show de Rock costuma ser tão profano quanto um conserto da Orquestra Filarmônica.

SACRILÉGIO consiste no uso profano ou blasfemo de um objeto consagrado a certo uso religioso. Transar em cima de uma tumba é sacrilégio, assim como comer hóstia para matar a fome. Desfiles carnavalescos, embora não sejam blasfemos, são sacrílegos. Um exemplo de sacrilégio premeditado é o que ocorre na Marcha das Vadias.

APOSTASIA ocorre quando um cristão renuncia a sua fé.

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inquisição

2. A Inquisição só processava hereges

Agora que separamos alhos de bugalhos, dá para identificar quem os inquisidores processavam. Quando alguém lhe diz que a Inquisição perseguia quem pensava diferente da Igreja Católica, saiba logo de cara que você está discutindo com um analfabeto funcional ou um ignorante que só fala do que ouviu por aí. Só para ficar na ponta do iceberg: havia inquisição protestante.

É bom lembrar que a Inquisição foi criada justamente para garantir o direito ao devido processo legal, não para lançar bruxas na fogueira. Antigamente, logo no início da Idade Média, era costume entre povos bárbaros recém-convertidos a crença de que catástrofes naturais ocorriam por obra de bruxaria; muitas mulheres foram linchadas e mortas em fogueiras por causa de uma crença popular arraigada que somente de maneira secundária tinha relação com o cristianismo. A Igreja condenava tais atos (existem documentos), atribuía alegações do tipo a simples superstição popular e considerava supostos atos de bruxaria resquícios de paganismo e nada mais. Como eu venho reiterando, ainda que houvesse bruxas nessa época, elas não seriam de confissão cristã; logo, não poderiam ser consideradas hereges, mas criminosas comuns no máximo.

Os primeiros tribunais eclesiásticos foram criados para combater a heresia cátara, na Alta Idade Média. O maior foco de difusão desse “cristianismo” heterodoxo, descendente direto dos bogomilas do império bizantino, foram as cidades de Albi e Toulouse, na França. O catarismo era considerada uma heresia perigosa porque, dizendo-se católicos, os cátaros (“puros” em grego) subvertiam a população semi-alfabetizada (maioria) com uma doutrina que nada tinha a ver com a católica e que, uma vez difundida, ameaçava a própria existência humana. Pois os cátaros consideravam a vida material ruim em sua essência; eram contrários à reprodução e ao desenvolvimento material; por isso assassinavam mulheres grávidas e repudiavam o casamento, entre outras aberrações gnósticas. A propagação da seita cátara era um verdadeiro risco de genocídio silencioso.

Muitas outras seitas heréticas foram debeladas pela Inquisição durante a Idade Média, mas de menor envergadura do que o catarismo. Cultivavam, no entanto, um ascetismo similar em sua radicalidade, embora não nos mesmos moldes que os cátaros.

Mais tarde, já na Idade Moderna, os inquisidores passaram a processar protestantes e, agora sim, “bruxos” e “feiticeiros”. Não porque estes últimos fossem bruxos de verdade, mas porque se diziam cristãos e praticavam alquimia, astrologia e sobretudo misturavam ideias esotéricas com a doutrina católica, confundindo as pessoas. Giordano Bruno e Galileu Galilei foram dois casos clássicos.

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Joana D'Arc

3. A Igreja Católica matou Galileu porque a ideia de que a Terra não era o centro do universo desafiava o poderio Igreja, cuja doutrina dependia do homem como Centro da criação e da história salvífica. Matou Joana d’Arc porque sempre foi uma instituição a serviço do machismo e do patriarcado.

Como começaremos a desmascarar o festival de ignorância esquerdista típica de quem está acostumado a se achar uma guerreiro da justiça social contra a opressão, depois de ler meia dúzia de livros didáticos do Méqui?

Primeiramente, cumpre dizer que Galileu não foi processado por defender o heliocentrismo e tampouco foi morto pela Inquisição. Aliás, o heliocentrismo sequer era uma novidade chocante. Cerca de 100 anos antes, um frei polonês conhecido como Nicolau Copérnico já defendia a tese heliocêntrica num livro que fora publicado com autorização da Inquisição, contando inclusive com uma dedicatória ao Papa da época. Um detalhe ainda mais curioso: grande parte do prelado católico em Roma, à época de Galileu, tinha o astrólogo/astrônomo como mestre, além de ser adepta do heliocentrismo.

Galileu se opunha à tese da transubstanciação de Cristo na Eucaristia e defendia uma interpretação esotérica das Sagradas Escrituras. Por isso foi condenado pela Inquisição, antes de ter se arrependido, segundo se alega. Ele passou pouco tempo numa prisão comum e todo o resto de seu processo “encarcerado” em prisão domiciliar, a saber: a residência oficial do bispo de Florença, que era seu discípulo. Um período muito difícil, sem dúvida…

Quanto a Joana D’Arc, ela foi morta pela Inquisição, sim. Mas não porque o machismo da época não admitia que uma mulher servisse ao Exército ou qualquer ignorância do tipo, vomitada por qualquer esquerdista. O processo foi viciado desde o início, porque a condenação da Virgem de Orleans tinha a finalidade de manipular a religião para fins políticos. Explico. Joana lutava ao lado da França, contra a Inglaterra, e alegava fazê-lo em nome de Deus. Obteve inúmeros sucessos espantosos, comandando tropas do Exército francês, mas acabou sendo presa pelos borgonheses, aliados dos ingleses. A Inglaterra, à época, era um país nominalmente católico… Não é preciso explicar muito.

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Ordem dos Templários

4. A Inquisição foi um instrumento meramente político para manutenção do poder da Igreja.

Como uma instituição influente na época, é claro que a Igreja Católica passou por turbulências, internas e externas, sacudida por atitudes que visavam fins mesquinhos ou nem tão nobres quanto o cristianismo faria supor. As eleições para Papa e a alta cúpula eclesiástica, assim como o poder secular, em todas as épocas, sempre fervilharam em golpes, assassinatos, mentiras, conspirações e outras baixezas semelhantes ou piores. Mas dizer que toda história do cristianismo e da Igreja se resume a isso é agir de má-fé ou enxergando tudo de maneira muito simplória.

O Papa chegou a recriminar os reis da Espanha pela maneira como conduziam a Inquisição em seu país no século XVI (era um aparelho do Estado absoluto mais do que um tribunal eclesiástico), mas voltou atrás após ameaça de cisma da parte dos monarcas. Seria um baque significativo para a Igreja perder uma das maiores nações católicas da Europa, depois de perder a Inglaterra. Como se vê, nem toda atitude da Igreja foi auto-centrada, muito embora buscasse preservar seu raio de influência negociando saídas que nem sempre foram boas para todas as partes -inclusive para a parte dos processados pela Inquisição. Ocorre que nem mesmo os reis da Espanha, apesar do autoritarismo, deixavam de ter suas boas razões; os mouros e marranos, que não eram cristãos, buscavam muitas vezes, na condição de “cristãos novos”, corroer a estrutura cristã por dentro.

Mas existiu o caso aparentemente vergonhoso da Ordem dos Templários. Trata-se de uma Ordem religiosa de cavaleiros-monges criada durante a Idade Média com o objetivo de proteger os europeus que peregrinavam até a Terra Santa. Com o passar do tempo, eles foram se tornando muito ricos e influentes, uma vez que controlavam, na prática, a rota comercial entre a Europa e o Oriente. Tinham sua sede na França, mas era no Chipre onde se concentravam suas atividades lucrativas. Felipe IV, Rei da França, passou a persegui-los sob acusação de heresia e exigiu do Papa Clemente V a abertura de um processo inquisitorial a fim de, secretamente, segundo dizem, expoliá-los. O Papa da época era francês, vivia em Avignon e era uma espécie de marionete do soberano local. Apesar da falta de provas contra eles, a Ordem do Templo foi extinta e seus cavaleiros, desde que não se confessassem hereges, foram mortos. Diz a lenda que alguns cavaleiros escaparam do furor de Felipe IV e fundaram, na Escócia, a chamada Maçonaria, uma sociedade secreta que reproduziria os ritos de sodomia e adoração a Baphomet que os templários teriam copiado da Cabala judaica, à qual teriam tido acesso durante incursões à Terra Santa.

Mas casos de abusos foram relativamente raros durante séculos de existência da Inquisição. E seria bastante inocente acreditar que, durante todos esses anos, não teriam ocorrido excessos e crimes. Assim como é fruto de malícia torpe crer que a Igreja sempre foi movida por ambição e ganância. De fato, existem manchas negras no passado inquisitorial, mas ela foi uma instituição responsável muitas vezes pela preservação da civilização, como a conhecemos, e de avanços consideráveis no aperfeiçoamento do Processo Penal (foi o primeiro Tribunal a abolir o uso de tortura para obter confissões).

 

 

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