A Casa de Cera

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Ken Humano

Sexta-feira última eu voltei da missa de Corpus Christi e foram logo me contando o que parecia ser a notícia do século, dada a euforia. O retorno de Jesus!? Não, o “Ken humano” havia falecido… Eu perdi o “babado”, que pecado! Preferi escutar a homilia de um bispo.

Quanto à criatura eminente, não quero fazer críticas pessoais ao pobre diabo, recém-falecido; vamos nos ater aos fatos. Parece que o sujeito havia contraído melanoma em razão das inúmeras cirurgias estéticas que fizera. Pois bem, o que me admira não é saber que cirurgias feitas sem critério causam câncer; qualquer um com bom senso sabe disso. O que me admira é imaginar o estado de sua bunda, depois de tantos procedimentos.

E o estado das pregas da humanidade?

Depois desse acontecimento sem dúvida extraordinário, eu tive a curiosidade de investigar sobre a existência de outros bonecos de carne e osso. Para o meu (não tão grande) espanto, descobri que havia mais de um “Ken humano” vagando pelos mundos do aquém-plástico. Descobri até que havia “Barbies humanas”, veja só!

Eu me senti como se estivesse nos anos 50, desbravando a Área 51. Onde é que eu estava esse tempo todo que perdi as novidades!? De repente eu descubro que o alienígena sou eu, porque “viagem no tempo” é pura sandice de gente que acredita em teoria conspiratória, crê que a humanidade está entrando em um colapso planejado. Ou que não existe um progresso. Nada a ver. Não existe viagem para o passado, qualquer físico sabe disso.

No que se refere aos aliens, gosto muito da perspectiva famosa de Arthur C. Clarke, segundo o qual “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Imagine um homenzinho muito inteligente ensinando deficientes mentais sobre lógica elementar? Propagando o pensamento religioso? Conheço épocas em que isso seria tido como “pensamento mágico”, “crença supersticiosa”…

Doutor Cornelius

Aliás, os idosos de hoje sempre nos dizem que eles não estão em outra época, mas na sua própria época; é sua justificativa para macaquear adolescentes. A mídia é igualzinha. Não sei o que eles entendem com isso, senão o óbvio: que os auditórios sempre aplaudem a mando do apresentador, geralmente quando um animal exótico consegue ser adestrado para fazer uns truques bem afins àqueles que conseguimos reproduzir desde tempos imemoriais. Nesse sentido, eu penso que coube aos macacos redescobrir a roda. Ken, o Doutor Cornelius revival, suspeita que a Barbie não tem personalidade; já a Barbie parece desconfiar que seu “namorado” não é lá muito inteligente. Seriam alminhas gêmeas?

Talvez eles prefiram viver num mundo “sem afetos tristes“, como dão a entender. Seria tão fácil e banal quanto reformar a cara para se adequar a padrões estéticos avançados. Ou talvez eles se tornem um casal comum, inclusive na excentricidade, sem merecimento sequer de uma nota de rodapé de jornal.

Para mim, de qualquer modo, eles têm mais chance de dar certo do que certos “casais” modernos que tenho visto. Como aqueles “casais” que, sem afetos tristes, vivem felizes para sempre, pelos próximos 3 anos, nos clubes de swing da vida. Ou aqueles outros “casais” que acreditam ser possível parir por lugares impossíveis. Ou ainda aqueles “casais” que creem ser o casamento uma data.

O irônico é que, por esses dias, o professor Orlando Fedeli completava cinco anos de passamento. Dessa notícia eu soubera muito por acaso, sem estardalhaço nenhum. Não deu tempo. Não. O “Ken humano” morrera! Apaguem as luzes, acendam as velas e esperem pelo pronunciamento do Paulo Henrique Amorim. Depois os bonecos podem retornar à programação habitual.

Quando a virtude se transforma em vício, e vice-versa, civilização é apenas um nome. Só o que nos resta são os velórios.

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