A Ancestralidade do Novo

Padrão

M. Duchamp, por D. Hirst

Uma impressão que sempre tive dos outros é que alguns deles sempre quiseram saber de mim como consigo ser tão original. Nunca me disseram, é verdade, mas sempre tentaram afetar excentricidade para me chamar a atenção. Bem, eu não sabia que eu era “original”. Desconfio que sei. Mas me parece que há uma certa convicção disso entre aqueles que juram ter visto o que nunca viram antes… Eu diria que são criaturas peculiares… assim como nossa época de instantâneos.

A resposta que eu lhes dou é a seguinte: basta não fazer força.

Marcel Duchamp fez tanta força para excluir tudo, num esforço asséptico de egolatria, que acabou por não incluir nem a si mesmo no processo. É como o jogador que quer “causar” batendo o escanteio e cabeceando a bola. Evidente que ele vai entrar para a História… Era isso o que ele queria? Sempre que eu olhar para um recipiente rabiscado e sujo de urina, eu vou me recordar do ilustre dadaísta. Com efeito, certas coisas fazem mais sentido do que uma simples foto quatro por quatro. Não resta dúvida.

Tem gente que é igual a umas velhas fofoqueiras que eu conheço: ávidas por novidades! Mas não dá para colocar a carroça na frente dos bois. Primeiro vão os bois, a passo lento, depois segue a carroça, rodas sobre a estrada de terra batida da História, onde passaram pés e vigas. Eu não tenho pressa. Logo, não me faço de montaria, como aquilo que se deixa conduzir, nem imito certos ruminantes ridiculamente apressados. Vou contemplando a paisagem e açoitando quem queima a largada.

Não existe nada de mais atual e inovador do que uma pessoa qualquer, independente de sua idade. Sempre que eu me deparo com o insigne Senhor Qualquer, percebo que eu nunca o havia visto antes! Eu também tomo aulas de lições há muito aprendidas, como se fosse um repetente. Como se fosse a humanidade. Você sabia que não há quem, no mundo, tenha a mesma fisionomia que você? Nem no tempo nem no espaço. Você é único. Mesmo a sua impressão digital é irrepetível.

O problema com as pessoas é que elas nunca pensam que são suficientemente grandes, até que descobrem não haver nada maior do que ser do próprio tamanho. Eu descobri a dimensão de “ser escritor” quando eu tinha 15 anos, porque tinha uma imaginação prodigiosa e vivia ganhando concursos de redação criativa. Na época, eu fiquei admirado comigo mesmo, porque, da minha perspectiva, ser escritor era uma coisa de outro mundo; eu estudava essa gente nos meus livros didáticos e, de repente, fazia parte do time que me promovia a uma espécie de casta superior. Anos depois, quando eu pude ver, de fato, o escritor refletido no espelho, caí do Olimpo à terra firme; não porque eu fosse menor do que me supunha, mas porque não me sentia mais um liliputeano. Havia crescido.

Voltando ao problema do “urinol”: sem dúvida eu acho mais original e arrojado um faxineiro limpar o “R. Mutt” da peça do que ter essa estrovenga impassível no museu, Vênus de Milo com dois braços e feia pra caralho. Pra vocês verem que alguém tedioso também pode ser catalisador de novas originalidades.

 

 

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