O Complexo Mecanismo do Simples

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Matrix - Arquiteto É normal que pessoas de minha convivência achem que eu sou uma pessoa bastante “simples”. De outro modo, elas sequer conviveriam comigo. Ou não? Afinal, ninguém passa horas conversando com alguém com quem ache difícil de lidar. De alguma forma nada que seja prazeroso implica a sensação de perda de tempo.

Por outro lado, há pessoas que me acham muito “difícil”, sem dúvida. Há pessoas que acham você “difícil” também, eu tenho certeza. E não chega a ser uma surpresa espantosa que, no fantástico Reino de Banânia, debruçando-se calculadamente sobre nós, tenhamos macunaímas que detestam ciências exatas e, por isso mesmo, ignoram o que há de humano em qualquer ciência. Essa gente me acha difícil; eu discordo. Não é que eu seja difícil: para elas eu não posso ser nada além de impossível.

Falando sério: o curioso seria haver no mundo quem fosse “fácil” ou “difícil” assim, preto no branco, como gostam de alardear por aí meia dúzia de bocós. Se todo mundo dispusesse de uma régua social aprovada pelo INMETRO e uma espécie de Escala Richter para identificar sinais “císmicos” e inequívocos de gente cataclísmica, não haveria divórcios nem intrigas. Nem escombros civilizacionais.

Vamos ser um pouco mais controversos e sinceros: não haveria nem deslumbramentos (em meio a ruínas).

Apreciar gente comum a gente aprecia, por causa daquelas qualidades genéricas que são válidas como predicados universais de qualquer alma superior. Mas todo mundo foge do standard. Estima e entusiasmo são despertados por forças que deslocam o nosso eixo gravitacional em vez de girar em torno dele; desde que tudo permaneça dentro do mesmo universo de afinidades, claro. Parece divino, mas pode ser demoníaco. Um negro afro-americano discriminado e um alemão faminto e desempregado estão mais propensos a se encantar com Luther King e Adolf Hitler do que com qualquer outra pessoa. O foco excessivo muitas vezes transtorna o nosso foco, embaça a nitidez.

É por isso que a gente tem que tomar o cuidado de administrar bem as nossas relações, sendo seletivos ou condescendentes conforme o caso. Muitas vezes uma pessoa de reputação ilibada não tem aquele tipo de personalidade que faria dela uma amizade próxima em nosso círculo social; na contramão disso, às vezes uma criatura sob muitos aspectos desprezível acaba se tornando imprescindível para nós. O ser humano tem dessas contradições. Mas ao mesmo tempo as circunstâncias nos obrigam a tomar atitudes que, de outra forma, optaríamos por evitar… como não cortar vínculo com aquele amigo de infância que vive pedindo dinheiro emprestado e, semana sim, semana não, termina um embriagado sábado num hospital, de madrugada, tomando glicose na veia (e você é a única pessoa próxima a quem podem recorrer)?

Não obstante, para não dizerem que somos amigos apenas de quem nos convêm, também acabamos nos tornando reféns de nossos cálculos. Costuma ser muito mais flexível para as pessoas a quem amamos a margem de tolerância que negamos a estranhos e desafetos. E mais: às vezes gostamos mais de quem nos despreza e temos em pouca conta aqueles que nos admiram.

A vida em sociedade é naturalmente labiríntica. Nesse caso, desde que sua estrutura remeta a uma saída, eu pouco me importo com sua complexidade; vou andando e apreciando a vista, porque meu itinerário é simples como o das andorinhas de verão. Mas existem aqueles que cooperam com a confusão e, em vez de se tornarem colaboradores de ícaros, terminam por emular a engenharia da discórdia. São esses que geralmente nos dizem: “Não verão a cor do Sol!”, ao que nós sequer respondemos, com nossas silhuetas em destaque, à luz e ao fulgor do astro-rei.

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