Villa e a Confusão Demoníaca

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Marco Antonio Villa

Tenho visto muito esquerdista confuso (desculpem o pleonasmo) a respeito da mais recente treta na Direita, envolvendo o Olavo e o Marco Antônio Villa. Na verdade não chega a ser um choque, visto que a chamada “Direita”, na sua acepção mais ordinária e esteriotipada, é um nome genérico utilizado para vilipendiar (e acuar) um samba do crioulo doido de cidadãos intelectual e politicamente engajados no combate a linhas de pensamento que se articulam mais ou menos com o projeto reformista de todo e qualquer esquerdista. A bem da verdade, os esquerdosos ignoram que o antagonismo dentro das direitas por vezes chega a ser ainda mais extremado do que em relação a eles. Sobretudo porque há, no caso, muita infiltração desorientação. Não conheço muito bem o senhor Villa, mas percebo com clareza, pelo seu discurso, ao menos isto: que a criatura não entende lá muita coisa… ou, quem sabe, entende muito e não nos dá a entender nada disso.

À parte as acusações de lado a lado, é preciso deixar bem claro que julgamentos morais não são uma questão de pontos cardeais. Se assim o fosse, seria muito simples inclusive para os juízes: em vez de analisar a Lei, os fatos e os depoimentos a fim elaborar uma sentença, bastaria requisitar a carteirinha de partido do réu. Essa redução do espectro moral ao unidimensionalismo é, no mínimo, um embrutecimento da inteligência. A princípio, ninguém é mais ético do que ninguém, na cartografia política, apenas porque se encontra em determinada latitude e longitude. Ademais, querer imputar ao outro a pecha de “Extrema-Direita”, a pretexto de classificá-lo como “fascista”, é demonstração inequívoca de ignorância política e severo analfabetismo funcional.

Quer ver? Tente julgar o Partido Nazista da Alemanha em função de seus discursos políticos. Ou tente fazer o mesmo em relação aos partidos esquerdistas (ou ditos “progressistas”), dando crédito total a sua auto-atribuição de agentes únicos da “justiça social”. Se o mundo fosse sempre visto às avessas e de uma perspectiva limitada, bússola e mapa não serviriam para porra nenhuma.

Marco Antônio Villa, o anacrônico navegador com labirintite do século XVI, diz que os ignorantes têm que consultar o dicionário político antes de oferecer orientações por escrito. Eu diria que ele tem que consultar a realidade antes de recorrer a um dicionário com o propósito de validar sua desorientação como verdadeiro parâmetro.

Certos bobocas acham que sempre devem dar um passinho de balé à esquerda ou ao centro, quem sabe se para evitar cair nas garras de monstros marítimos do fim do mundo plano e maniqueu. Assim, os iluministas e seus filhos bastardos chegaram à conclusão de que monarquistas, clérigos e burgueses são todos defensores do status quo porque sobrevivem de oprimir os indivíduos e as minorias.  Mas, se é assim, hoje o status quo e seus defensores vivem de quê? De apontar para espelhos como esquizofrênicos paranóicos? Perceba que definições não nascem de dicionários, assim como a realidade não foi brilhantemente concebida pela mente de Theodor Adorno; para chegarmos à verdade semântica das palavras, não à circularidade da novilíngua, devemos antes analisar o contexto em que elas estão inseridas. Do contrário, seremos como monoglotas durante uma convenção internacional. Ou repetidores de cacarecos.

Na América do Norte, por exemplo, a orientação política de uma pessoa é definida com base em sua inclinação pela defesa de ideias estatistas/coletivistas ou individualistas, grosso modo. São de direita todos aqueles que se aproximam de uma concepção anárquica de sociedade; esquerdistas, por seu turno, são classificados como aqueles que lutam pela onipotência estatal, a fim de coibir abusos individuais. No Brasil, até pouco tempo atrás, os direitistas eram tidos por defensores de latifundiários e empresários; e os esquerdistas representavam, no imaginário popular (acadêmico e midiático também), os mártires da justiça social, os heróis que propugnavam pelo bem comum. Tudo isso em tese, no papel. Na prática, a Extrema-Direita americana, a saber, os libertários, têm uma plataforma política muito semelhante à agenda da Esquerda Internacional. E é uma fina ironia que o Instituto Von Mises Brasil tenha convidado, como palestrante, um Ron Paul que foi entusiasticamente entrevistado pelo site Opera Mundi, aquele mesmo do Breno Altman. A famigerada Jandira Feghali é abortista tanto quanto o liberalíssimo Rodrigo Constantino.

O genial Marco Antônio Villa tem zurrado bem alto, via Jovem Pan e veja.com, que o comunismo se define pela estatização dos meios de produção; que o PT é um partido de caudilhos, não de comunistas; que o muro de Berlim caiu junto com a ideologia vermelha; e que o PT não tem interesse em desapropriar os cidadãos brasileiros, apenas em parasitar o patrimônio público. Ora, senhor Villa… para começar, existem muitos meios de desapropriar o cidadão e sufocar a iniciativa privada, a começar pelo inchaço fiscal, passando por parcerias escusas com empresas monopolistas e terminando com a anuência e o fomento a uma reforma agrária completamente inconstitucional. Aliás, a ênfase exclusivista do ilustre historiador (ou seria paleontólogo?) na definição econômica do marxismo denota que seu dicionário de sebo, do qual ele retira seus infalíveis presságios acadêmicos, não recebe uma nova edição desde pelo menos 1910.

Mas a ignorância, se esse for realmente o caso, não é o problema. Não chega a ser o problema. O que pesa mesmo na balança das discussões políticas é a burrice invencível. Nesse caso, desafiando as leis da Física, um quilo de merda brasileira pesa mais do que uma tonelada de chumbo universal. Tem se tornado quase impossível demonstrar a um histérico analfabeto a necessidade de se raciocinar segundo a lógica mais elementar. Por isso é difícil fazer um idiota compreender que não é a mesma coisa que defender a Ditadura o simples fato de se cogitar o fim da Democracia nacional em razão da falência das instituições que garantiriam sua existência. Qualquer néscio com mais de dois neurônios sabe que as liberdades democráticas não estão asseguradas única e exclusivamente pelo acesso universal ao sufrágio; se o Judiciário estiver aparelhado, o Legislativo, manietado, e se resulta inócuo o direito de impetrar um simples mandado de segurança, então tudo nos autorizaria a acreditar que só existe como publicidade o regime em que acreditamos viver.

De modo que as divergências políticas, no caso do Brasil dos tupiniquins, na maioria das vezes são fundamentadas em “reflexões” que não ultrapassam em relevância os bordões de um quadro de humor barato que satirizasse as universidades. Há exceções, é verdade. Mas também há o Marco Antônio Villa.

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