Os Limpinhos Estão Chegando

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Tudo Puta e Viado

Lispector, Clarice

 

Artigo sensacional de Luiz Felipe Pondé:

O mundo contemporâneo é um parque temático de egos. Com a melhoria das condições materiais de vida, as pessoas ficaram cada vez mais bobas.

Quando uma universidade dá a bênção, então, ninguém segura o desfile de bobagens. Basta alguém escrever uma tese qualquer que o tema vira “científico”.

Agora é a vez da “afetividade múltipla sem baixaria”, conhecida como “poliamor” (mais uma modinha de comportamento típica de gente bem de vida), abençoada pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e a indústria dos colóquios.

Só quem não é do ramo ainda leva as ciências humanas 100% a sério. E, pelo jeito, nem a biologia vai resistir à fúria da vontade humana de que tudo seja do jeito que queremos: você sabia que nem a biologia sabe mais o que é uma mulher? Coitadinha da biologia…

A humanidade sempre teve problemas com o afeto. Aliás, daí o nome: “afeto”, descendente do latino “affectio”, análogo ao grego “pathos”. Todos significando afeto, paixão, doença (afecção cardíaca), desordem, sofrimento.

Temos medo da desordem que eles nos causam, porém, ao mesmo tempo, sem vínculos afetivos somos um zero à esquerda na vida.

Uma das coisas que o narcisismo (grande epidemia contemporânea) destrói é a capacidade de termos afetos verdadeiros com o mundo.

Pra ter afeto verdadeiro se faz necessária a energia pra investir no mundo, coisa difícil no mundo de narciso em que vivemos. Uma saída típica do narcisista é dizer que não padece de afetos tristes, só “sente” os afetos legais porque os tristes são coisa de gente insegura e eles são super bem resolvidos.

Os poliamoristas só tem afetos construtivos, ou seja, de plástico. Mostre-me uma pessoa que não tem ciúmes e te mostro um covarde. Mas, no parque temático em que vivemos, em que o Pateta é um gênio, a covardia assume ares de “evolução nos comportamentos”.

A psicologia evolucionista (o darwinismo e não o oba-oba de pessoas que “superaram os afetos tristes”), –que muitos detestam porque se sentem tolhidos nos seus delírios de poder por conta dos limites que o darwinismo coloca na farra da “construção social de tudo” (hoje você é samambaia, amanhã girassol, basta “querer” e ninguém te “oprimir”)– se refere a um dos centros da vida moral como “emotional bonds” (laços emocionais).

Sem eles, não ascendemos à vida moral porque não sofremos com nada. John Stuart Mill, utilitarista no início do século 19, também falava de “moral affection”. Antes dele, Adam Smith, no século 18, falava de “moral sentiments”.

Não é tão difícil deixar de sofrer na vida, pelo menos em parte. Basta não ligar pra ninguém e dar ares de publicidade dessas que juntam criança, parque, bike e banco pro seu “foda-se”.

Tudo bem ligar o “foda-se”, mas essa moçada quer ligá-lo e posar de “limpinha”. O poliamor é o “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley, transformado em game.

É claro que muita gente sempre gostou de “amar” muitos ao mesmo tempo. E que outras tantas inventaram relacionamentos abertos.

Os hippies, esses coitados que erraram porque não entenderam que a função deles era apenas criar um estilo de calça jeans, também tentaram criar suas formas de amor anti-sistema.

Em meio a isso, muitas mulheres apanharam, muitos se decepcionaram, muitos filhos se ferraram por serem vítimas da “experimentação nos afetos” de seus pais muito loucos.

Mas, pelo que andei ouvindo por ai, os poliamoristas estão distante dessa cambada de coitados ciumentos que os precederam na crítica da vida monogâmica.

Os novos defensores da vida “não monogâmica” (a moçadinha recusa o termo “poligamia”, engraçado, né? Já digo o que penso disso) acham que estão adiante dessa cambada de ancestrais porque, além de serem “ciúmesfree”, vivem o amor múltiplo sem incorrer no “pecado” da promiscuidade (por isso a recusa do termo “poligamia”).

E então fica ainda mais clara a farsa: o ódio à promiscuidade sempre foi signo de nojo pelo que há de sombrio no ser humano. O poliamor é mais uma modinha pra gente mimadinha que quer transar limpinho por aí dizendo que tá tudo bem, viu?

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