Ganbaru

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Wagakki Band

Ganbaru, sem nenhuma surpresa para quem conhece o caráter desse povo, é um verbo japonês largamente utilizado na Terra do Sol Nascente. Numa tradução livre para o português, significa algo como resiliência para nós. Para quem não conhece nem a palavra em vernáculo, trata-se da capacidade de lidar com adversidades. Mas o verbo japonês abrange um conteúdo semântico maior. Ganbaru, mais do que resiliência, consiste na aptidão para, exercendo uma atividade individual, dar tudo de si a fim de que seu potencial recrudesça o valor do todo.

Uma nação que cresceu em meio ao antagonismo das forças naturais, país onde tsunamis, terremotos e a escassez de recursos nunca foram meramente esporádicos. Uma civilização que nunca sucumbiu à barbárie das inúmeras guerras civis que assolaram sua sociedade e conseguiu sobreviver a séculos de atraso tecnológico em relação ao Ocidente, durante o período de Restauração Meiji. Uma ex-potência do Eixo que, perdida a Guerra, viu-se estraçalhada sob o impacto eterno de duas bombas atômicas. Afinal, qual é o segredo do Japão?

Em virtude de sua proximidade com a Rússia comunista, sei bem que os japoneses receberam muito feedback cultural e financeiro do Ocidente liberal. Contudo, esse elemento não basta como razão única de sua ascenção. Se o único parâmetro para medir o sucesso de uma comunidade consistisse em mensurar a qualidade de seus meios naturais para alcançá-lo, então o Brasil seria a superpotência mundial e a Espanha da era Moderna teria superado a Inglaterra na corrida para a industrialização.

Aquilo que os ocidentais não compreendem, ou se recusam a compreender, é o senso de unidade cósmica que precede moralmente qualquer atividade entre os japoneses. Harmonia é mais do que um contrato social. E a coesão, mais do que uma lei física. A força das águas de um rio não se mede por seu tamanho e sua capacidade destrutiva; sua pureza e maleabilidade são os pré-requisitos de sua fluidez inexorável. Inclusive da perspectiva temporal. Impressiona, de fato, observar a capacidade líquida que o povo japonês tem de se reconstruir e reinventar. Prosperar. O Ocidente tenta conter nas suas mãos diminutas, mas escapa por entre as frestas dos dedos. Por isso o prognóstico é quase sempre equivocado a esse respeito. Dizem que o Japão alcançou um complexo patamar civilizacional apesar de recém-egresso de uma sociedade feudal e aristocrática. Quanto a mim, eu não usaria uma locução concessiva para ligar os pontos; acho que cairia melhor uma explicativa.

Ocorre que a Europa pós-romântica e iluminista passou por um processo gradual de hipertrofiamento do indivíduo e ao mesmo tempo, ironicamente, de desubstancialização do mesmo. Encheu-se o balão vazio de matéria pouco densa, até que ele perdesse “conteúdo”. O resultado foi a leviana criação de um Frankenstein pós-moderno, um indivíduo fragmentário constituído pelas engrenagens tortas da “ciência” dos oitocentos; um ser radicalmente hedonista; uma quimera mecânica a experimentar uma relação quase sempre antagônica com o meio circundante. Ao mesmo tempo, considerou-se que a humanidade se libertou dos grilhões que a continham, com o advento da Idade Contemporânea.

Samurai Champloo

Como elucida parcialmente Ortega y Gasset, na Rebelião das Massas: “Segundo eu disse, o essencial para que exista ‘plenitude dos tempos’ é que um desejo antigo, o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos, por fim um dia fica satisfeito. E, com efeito, esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos; às vezes, como no século XIX, arquissatisfeitos. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos, tão fruídos, estão mortos por dentro. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação, na posse, na chegada. Já dizia Cervantes que ‘o caminho é sempre melhor que a pousada’. Um tempo que satisfez seu desejo, seu ideal, é que já não deseja nada mais, que se lhe secou a fonte do desejar. Isto é, que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação, como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial.”

Eu não diria que o Ocidente perdeu vitalidade em virtude da auto-saciedade; porque se encontra com plena energia todo aquele que está verdadeiramente saciado. Em verdade, não faltava horizonte ao homem contemporâneo: falta uma perspectiva adequada. Uma vez alcançada a ilusão da auto-satisfação intelectual, em função de uma relação equivocada com o progresso material, a transformação utópica não-verificada engendrou, na sociedade, a criação ociosa e inconsciente de um labirinto entrópico. Ao progresso técnico deveria corresponder o progresso intelectual e espiritual… senão, algo deveria haver de errado… com o mundo. Pouco a pouco, essa visão cega foi se degenerando em alucinação política, de cuja raiz brotou, como erva daninha, o comunismo, o fascismo, o nazismo e, mais recentemente, o famigerado progressismo.

Então, a saúde peculiar da sociedade japonesa não decorre de sua rápida modernização, mas sim como reflexo de sua recente desfeudalização. Como um ancião revitalizado e de hábitos salutares. Muito embora a “descoberta” e o aprofundamento da individualidade, no povo japonês, venha se dando através de um processo vertiginoso e, por isso mesmo, muitas vezes artificioso e caricatural, a seiva forte de suas raízes históricas alimenta seu senso de continuidade e afasta a dialética da ruptura, uma síndrome tipicamente ocidental. Não se trata de uma crise de individualismo, com efeito. Ao mesmo tempo em que ocorrem fenômenos estranhos no âmbito da individualidade, a sociedade nipônica como um todo permanece conscientemente vinculada à tradição. Se a vida de um indivíduo japonês pode chegar a chocar um ocidental, por sua excentricidade, a realidade social, ainda que transformada, surpreende por sua rigidez inabalável: por exemplo, menos de 1% dos nascituros japoneses são filhos de pais solteiros.

Ou seja, enquanto o processo de estetização do comportamento atua, nas sociedades ocidentais, como vetor de uma necessidade neurótica de ruptura com a realidade histórica e social, na sociedade japonesa nada disso ganha configuração ética ou política. Nem sequer induz a uma crise de identidade. Longe disso: é puro exercício esteticista e ritual. Reificação da sacralidade do real, no que ele tem de presença e continuidade, ganhando força de mito e individualidade. É o fascínio do virtual que dá o tom, na mesma exata medida em que, paradoxalmente, o confronto de valores, quando existe, ressalta a solidez única de sua cosmovisão conservadora. Não sei se me faço compreender: um fenômeno bizarro e que só se verifica no Japão, como um “Punk-Samurai”, só existe na medida em que dilui a essência do “punk” em estereótipo justamente para acentuar a figura do guerreiro japonês. Nada tem substância real se não adquire relevância para o eu e (sua) História.

Um verbo como ganbaru sintetiza o espírito aristocrático remanescente que uma vez impregnou toda mentalidade medieval e que vai se infiltrando por todas as frestas sociais e preenchendo todos os seus poros. A mendacidade moderna, em seu vazio alucinatório, quer insinuar, em qualquer demonstração de superioridade, o gérmen da opressão; mas a verdade é que o homem de valor, conscientemente cultivado durante o período medieval, é aquele que se empenha por se tornar a melhor versão de si mesmo, em qualquer circunstância. Um samurai é um líder militar implacável e goza de privilégios, mas isso implica também numa atitude servil e humilde. De modo que os desígnios do imperador Meiji foram respeitados, no entanto a assimilação da cultura ocidental significa no fim uma submissão da mesma ao vigor impressionante de sua cultura milenar.

Japão

O Japão permanece essencialmente o que é e, todavia, se torna aquilo que de melhor o Ocidente pode oferecer. Antes de ser uma diferença linguística e de dicionário, ganbaru representa uma distância de mundos entre o abismado olhar alienígena e a cosmovisão japonesa. “Não jogar lixo na rua” é muito mais do que etiqueta, assim como o significado de honra vai muito além do mesquinho orgulho em que o conceito se degenerou nas sociedades ocidentais. O fulgor do indivíduo se realiza na capacidade de serviço, e o brilho da existência só ganha fulgor através do lastro cintilante de uma civilização.

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