Pessoas Novas & Velhas

Padrão

jantar em família

Uma das atividades humanas mais cafonas que a modernidade inventou é o famoso “sair para conhecer pessoas novas“. Sim, porque, de certo modo, pessoas nunca envelhecem. Estão sempre surpreendendo e ao mesmo tempo sendo incrivelmente monótonas. Não importa o tamanho, o sexo ou a cor da criança que você vê no supermercado, por exemplo; quase todas são sempre birrentas. E às vezes você é pego de surpresa na rua com um sorriso inesperado.

Eu fico com sono sempre que sou convidado a “conhecer pessoas novas”. Digo que prefiro “as velhas”. E é verdade! O problema com as “pessoas novas” é que elas automaticamente exigem de você que finja um nível de interesse por sua vida que, em verdade, nem um fofoqueiro fanático tem: qual o seu nome, onde mora, quais os seus interesses e outras idiotices. É o tipo de situação clichê que você armazena no arsenal mental de discursos “pré-renderizados” que se usa quando o clima fica chato.

Não que eu seja contra querer saber mais sobre uma pessoa… desde que você queira realmente conhecê-la. Mas conhecer alguém nunca é uma das nossas metas ao acordar de manhã. As pessoas passeiam no parque, vão à praia, ao restaurante, ao trabalho ou ao cinema. Nenhuma delas vai chegar na praça de alimentação e perguntar ao garçom: “Neste cardápio existe a opção de conhecer alguém?”

Conhecer alguém é o que de mais ocasional e definitivo a gente faz enquanto está ocupado o suficiente na seriedade de não fazer porcaria nenhuma. A gente estabelece alguma meta a esmo e, no trânsito, acaba conhecendo alguém que vale a pena conhecer. Você sai de férias, viaja para Cabo Frio, curte um domingo de sol na Praia do Forte e, de repente, conhece a incrível e curvilínea Mirela, naquele quiosque legal que só gente legal frequenta. Você troca de emprego, se resigna, conhece o novo colega de trabalho, descobre que ele também curte histórias em quadrinhos e, de repente, vocês têm muito o que conversar um com o outro.

É assim. Para ser mais elegante, eu poderia dizer que o ato de verdadeiramente conhecer alguém implica na transição de um estado mental ao outro. Não tem nada a ver com programas ou oportunidades. Organogramas. Você está sentado em sua mesa num restaurante, muito bem vestido. Ao fundo tocam o piano de leve, e a suava sensação musical aromatiza as impressões subjetivas do vinho. A noite está morna e você se sente bem, muito bem. O estabelecimento vai se esvaziando, mas uma bela mulher continua sentada a dois lances de mesas. Pelas suas mesmas razões, você presume: ela se sente bem. Também degusta um vinho e, quando já não há mais outros olhares, para de fingir que, para ela, só não importavam os seus, sequiosos. Então você se senta junto dela e diz alguma coisa insólita, mas nada chocante. Afinal, nenhum de vocês deseja estragar o espetáculo com uma vulgaridade qualquer.

Eu sempre acreditei que viver requer de nós alguma dose de requinte, ainda o mais banal. Ainda uma “obra menor”. Então, para certa categoria de pessoas, conhecer “gente nova” equivale a frequentar liquidações de seres humanos em boates, megashows, festas ou o que for. Para mim, consiste em reconhecer aquelas pessoas que a vida, em algum ponto, vai demonstrar que não podem ser substituídas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s