Píndaro

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Píndaro

“A nobre percepção da areté está para Píndaro intimamente ligada aos feitos dos antepassados famosos. É sempre à luz das orgulhosas tradições de estirpe que ele contempla o vencedor, o qual honra os antepassados e participa do seu fulgor. Nessa alusão não há nenhuma diminuição do que se deve aos atuais representantes de tal herança. A areté só é divina porque um deus ou um herói foi antepassado da família que a possui. Dimana dele a força da areté, a qual se renova sem cessar nos indivíduos que constituem a série de gerações. Não se pode pois encará-la de um ponto de vista meramente individual, pois é o sangue divino que realiza tudo o que é grande. Assim, toda glorificação de um herói desemboca rapidamente em Píndaro no elogio do seu sangue, dos seus antepassados. O elogio tem um lugar firme nos epinícios. É pelo ingresso neste coro que o vencedor se situa ao lado dos deuses e dos heróis. A que deus, a que herói, a que homem celebrarei? -começa o segundo poema olímpico. Ao lado de Zeus, para quem Olímpia é sagrada, ao lado de Héracles, fundador das Olimpíadas, coloca ele Terão, senhor de Agrigento, vencedor da corrida de cavalos de quatro cavalos, mantenedor da glória da raça de seu pai e da nobre ressonância do seu nome. Naturalmente, nem sempre é possível proclamar os bens e a fortuna da estirpe do herói. É quando, sobre as altas virtudes dos homens, cai a sombra das desgraças enviadas pelos deuses, que a liberdade humana e a profundidade religiosa do poeta surgem em todo seu esplendor. Quem vive e age tem que sofrer. Tal é a crença de Píndaro, e tal é, de modo geral, a crença grega. A ação, nesse sentido, está reservada aos grandes. Só deles se pode dizer, em sentido pleno, que verdadeiramente sofrem. Assim, o Aion concedeu à família de Terão e de seu pai, como prêmio de sua autêntica virtude, Pluto e Cáris. Mas cercou-os também de culpa e de aflições. O tempo não pode desfazer o que está feito; mas pode, em parte, sobrevir com o esquecimento, Latha, quando um homem daímon intervém no seu destino. Apesar da sua tenaz repugnância, a aflição morre dominada pela nobre alegria, quando a moira de Deus concede a rica prosperidade de uma ventura superior.

(…)

“Mas a nossa força é muito diferente da força deles (deuses). A raça dos mortais nada é. O céu, onde reinam os deuses, é um lugar imperturbável. Sem embargo, parecemo-nos com os deuses pelo nosso espírito e pela nossa natureza, apesar da insegurança do nosso destino. Assim hoje, Alcímidas, vencedor nas competições juvenis, prova que no seu sangue palpita uma força análoga à dos deuses. Parece desaparecer no seu pai, mas reaparece no pai do seu pai, Praxídamas, grande vencedor em Olímpia, no Istmo e em Nemeia. Com as suas vitórias acabou com o obscuro esquecimento de seu pai Socleides, filho sem glória de um pai glorioso. Acontece o mesmo que com os campos, os quais ora dão aos homens o pão de cada dia, ora lhe recusam. É certo que a ordem aristocrática se baseia na descendência de representantes eminentes. Para o pensamento grego, é evidente que com o aumento das gerações de uma casa pode aparecer uma colheita má, uma aphoría, ideia que voltamos a encontrar em tempos pós-cristãos, quando o autor do estudo De sublime investiga as causas do desaparecimento dos grandes espíritos criadores, na época dos epígonos.

(…)

“É no filirida Quíron, o sábio centauro mestre dos heróis, que a consciência educativa de Píndaro encontra o seu modelo. Vemo-lo também no terceiro poema nemeu, rico de exemplos míticos. Também nele, Peleu, Télamon e Aquiles são modelos dos antepassados do vencedor. O espírito do poeta evoca o último na gruta de Quíron, onde foi educado. Mas será possível educar, com a convicção de que é no sangue que se encontra a areté? Píndaro tomou várias vezes posição em face deste problema. Na realidade o problema já fora levantado por Homero, no canto da Ilíada em que Aquiles é posto em face do educador Fênix, no momento decisivo, e a admoestação deste se mostra ineficaz ante o endurecido coração do herói. No entanto, ali se trata do problema da possibilidade de moldar o caráter inato, ao passo que em Píndaro surge a moderna questão de saber se a verdadeira virtude pode ser ensinada ou se reside no sangue. Não esqueçamos que em Platão surge constantemente uma questão análoga. É a primeira vez que se formula a luta entre a velha concepção da nobreza e o novo espírito racional. (…)

“Aquiles deixa Quíron estupefato ao evidenciar, desde garoto, o seu espírito nobre, sem que jamais tivesse nenhum mestre. Assim o proclama o poema. Aquele que, segundo Píndaro, tudo sabe deu também àquela pergunta a resposta justa. A educação só é possível quando existe a areté, como sucede nos preclaros discípulos de Quíron: Aquiles, Jasão e Asclépio, aos quais o bom centauro ‘se aplicou a dar tudo quanto era útil e proveitoso’. Na plenitude de cada uma dessas palavras encerra-se o fruto de um vasto conhecimento do problema. Manifesta-se nelas a atitude consciente e resoluta com que a nobreza defendia a sua posição, naquele tempo de crise.”

(“Paideia”, de Werner Jaeger. Páginas 260 a 264. Editora Martins Fontes)

OBS: a compreensão grega a respeito da areté, sobretudo enquanto virtude para governar, vai aparecer completamente desenvolvida na Política de Aristóteles. Nela, a areté não é proveniente apenas do sangue “divino” ou da boa educação, mas da elevação do espírito em virtude de uso adequado das faculdades cognitivas -esta, por sua vez, precede e configura aquelas outras qualidades. O universo é um todo harmônico. Apesar de seus equívocos e dificuldades (há a defesa da escravidão, por exemplo), é claramente já uma consciência pré-cristã a propósito do bom ordenamento social.

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