Olavo de Carvalho e a Gnose

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Olavo Astrólogo

Uma das ideias mais defendidas por Olavo de Carvalho, a qual faço forte oposição, é a falsa noção de que a experiência original da realidade não pode ser transposta em conceitos, não pode ser intelectualizada com precisão. Sempre se vai perder algo daquilo que se conheceu por contato direto, porque a capacidade humana de compreender é constitutivamente falha. Logo, existiria um abismo intransponível, sem pontes, entre o ser humano e a realidade em si -em última análise, entre ele e si mesmo.

Ora, em outras palavras, isso quer dizer que a razão humana não pode entender a realidade. Transposta ao plano teológico, tal conclusão se opõe ao realismo moderado (inclusive ao aristotélico), que afirma ser possível ao homem, pela análise do mundo natural, chegar ao conhecimento de Deus. Dessas duas premissas seguem três conclusões inevitáveis: a) a realidade só pode ser conhecida por Revelação, b) existe um mal congênito no homem e, c) Deus não pode ser objeto de ciência. Tudo puro ceticismo. Relativismo mitigado.

Segue-se daí que tudo aquilo que o homem percebe por si mesmo é falso se não for auxiliado por uma força superior incognoscível. A realidade nos engana. Os sentidos nos enganam. A razão é fonte de falsas certezas. Toda forma de conhecimento verdadeiro seria, portanto, uma forma de misticismo. Toda fé é cega e toda verdadeira ciência deve estar ancorada na fé. Não é por outra razão que Olavo tem defendido, até hoje, o “conteúdo essencial” da sua amada Astrologia.

O problema da verdade

Um filósofo judeu já disse, acertadamente, há muito tempo atrás, que a verdade consiste na correspondência exata entre o objeto do conhecimento e a ideia que dele se faz no sujeito cognoscente. Inclusive Deus. Seria uma relação bilateral e harmônica. Até porque, se não fosse efetivamente harmônica, não teria sido uma verdadeira relação, para início de conversa. De qualquer forma, como num quebra-cabeças gigante, a constituição do homem estaria pré-moldada a fim de reconhecer e assimilar o mundo que o cerca. E parte daquele que o transcende.

Olavo de Carvalho, por seu turno, negando que o discurso possa corresponder à realidade, nega igualmente que haja um congraçamento natural entre os entes. Haveria, em verdade, um antagonismo no ser contingente, reflexo de Deus; a integração ocorreria apenas no plano do Absoluto. Um dualismo teológico que compromete seriamente a sua metafísica. Seu tão difundido “retorno às coisas” não se daria por meio de raciocínio, mas através de uma “intuição originária”, protoexistencial, cuja legitimidade epistemológica estaria garantida pela confiança na existência de um deus “oculto” que se vai revelando gradativamente através da História individual e coletiva (ou seja, que não tem, de maneira predeterminada, contornos doutrinários, racionais, objetivos -é um deus antes de mais nada subjetivo e tribal).

O que Olavo defende, com meias palavras e meias verdades, é simplesmente uma forma de irracionalismo místico. O fato de alguém me dissuadir, por meio do discurso, acerca do conhecimento real do objeto em análise, não se daria pelo reconhecimento de que seu discurso traça melhor os contornos do mesmo: antes, seria meramente um ponto de vista destinado a despertar a “consciência interior”, que seria a verdadeira Consciência. Então há o retorno e o acerto. Primeiramente a queda, depois a ascensão. Ou seja, a realidade em si não pode ser assimilada por via relacional, horizontal, mas tão somente por introspecção, verticalidade interior; a realidade em si seria assim fragmentária, constituída por cacos de divindades que coexistem. No princípio, haveria o Eu -ao fim, o Nós.

Olavo vai dizer, falsamente, que a gnose consiste em tratar a Deus como se fosse objeto do conhecimento. Como se fosse algo “distante”. Segundo Olavo, o homem que reconhece a Deus como objeto assim o faz por reconhecer-se fora d’Ele. Falso. Jogo de cena. Retórica incriminatória. Na verdade a gnose crê que Deus é sujeito no homem. Em todo homem e em todas as coisas existentes. Deus não seria transcendente, mas imanente ao ser contingente, confundido com a própria criação. Ora, se é verdade que o real faz parte da natureza divina, também é verdade que ao Ser Perfeito só podem corresponder exatamente os aspectos atemporais de seu reflexo no mundo -a noção de bem, beleza e outras qualidades em grau máximo. E é evidente que, para conhecermos o que quer que seja, é necessário reconhecer seus contornos (ou seus indícios) e abstraí-los, a fim de criar uma definição; não há conhecimento que não se dê assim, “a distância”. Quem quer que negue esse método, ou o contraponha à teologia, estabelece, quer esteja consciente disso ou não, um conflito inerente à própria realidade.

Ecumenismo

É natural que alguém que defenda essas ideias de “imersão” seja ecumênico. Para Olavo, cada povo divisa uma parte do deus revelado. Nenhum compreende esse deus em sua totalidade, pois a cada qual ele se mostra de um modo. O deus “oculto” emerge somente da integração dos pontos de vista, que se dá por um processo lento, do interior para o exterior do ser, e do exterior para o interior. Esse tipo de delírio é muito comum na Maçonaria, por exemplo, que deseja uma Religião Universal. E tem fortes paralelos com Hegel, outro gnóstico.

Um absurdo. Se alguém diz que Deus é bom e outro afirma que Ele é justo, temos dois pontos de vista sobre duas características que podem perfeitamente coexistir na mesma pessoa. Há pessoas boas e justas. Mas não há pessoas más e justas. Nem boas e injustas. Curioso, não? Digamos que eu saia por aí como um pregador, dizendo que as inclinações da carne afastam a alma do Espírito. Então um grupo de pessoas passa a cortar clitóris de mulheres e assassinar grávidas; outro grupo, por sua vez, pratica uma espécie de ascese conhecida como “endura”, ou suicídio. Se eu for preso, evidente que não posso ser acusado de coisa alguma, porque eu poderia apenas estar querendo dizer que, por motivo de sensatez, deve-se valorizar antes as coisas imperecíveis, como a Beleza, o Bem, a Justiça, do que bens materiais, como carros, dinheiro, comida etc. Pois, se eu pratico ou ordeno o mal, não estou de forma alguma elevando-me ao Espírito.

Deus tem uma cara só. Se tivesse dois ou mais discursos sobre um mesmo assunto, Ele só poderia ser chamado de louco ou mentiroso. Ora, se Ele é, por definição, aquele que É, então não pode estar alheado da realidade (porque não pode estar fora de si, sendo tudo) nem tampouco pode dizer de si aquilo que Ele não É (pois, sendo tudo, nada sobra como objeto de conhecimento). Por isso dizemos que Deus não conhece o mal, já que o Mal corresponde àquilo que Deus não é -e o que não é ser naturalmente não é objeto de conhecimento. De modo que, se duas religiões afirmam que ambas são legítimas representantes de Deus, não obstante seus discursos opostos e contraditórios, teremos que ambas mentem descaradamente e, naturalmente, não conhecem a Deus -ou, ao menos, seus líderes mentem a sua representação.

Ninguém pode se dizer servidor de Deus, Alah, Vishnu e Ogun. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Nem a três ou quatro.

Olavo, o Gnóstico. Olavo, o Herético?

Concílios já definiram que estavam anatematizados todos aqueles que acreditassem em Astrologia. E também os agnósticos. Os modernistas, idem.

Se não pudéssemos reconhecer características do autor pela análise da obra, de modo algum poderia haver crítica literária, por exemplo. Evidente que a análise da criação não comporta integralmente aquilo que o autor quer ou tem a exprimir sobre si ou sobre o mundo -especialmente em se tratando de Deus. De modo que, muito embora Olavo se revele gnóstico, por causa de seu modo de pensar, quero crer que tal se deu por ignorância ou imprecisão de raciocínio. Aprendi muito com ele e continuo aprendendo, conforme pode reconhecer qualquer um que tenha acesso a meus escritos e aos escritos dele. Não me parece homem de má vontade e rogo a Deus para que endireite suas veredas. No entanto, é preciso deixar bem claro que suas ideias sobre religião não correspondem à doutrina tradicional da Igreja Católica.

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