O que é a Gnose?

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Lobo ovelha

Sempre achei engraçado a postura anticristã de certos grupos de Metal. Ou de certos subgêneros do estilo. Eles sempre alegam que, em razão de sua debilidade ou de sua tirania, o Deus cristão é um deus detestável. Em que pese a flagrante contradição, acaba atiçando a nossa curiosidade a respeito da alternativa apresentada, quer se trate de politeísmo neo-pagão ou de ateísmo antropocêntrico. A julgar pelas letras desses grupos, não me parecem deuses dignos de voto (julgando delirantemente que estejamos falando de um cargo eletivo). Ademais, criaturas sobrenaturais candidatas a deuses que praticam ou apregoam mutilações, estupros, abortos, assassinatos de grávidas, genocídios, guerras injustas e destruições de sonhos carecem, para dizer o mínimo, de um bom departamento de marketing.

O pior dos usurpadores do divino trono, porém, sabe ser flexível e convincente ao público-alvo. Lúcifer sempre foi muito hábil na arte de desvirtuar, dando ares de veracidade a seu discurso, a natureza íntima das coisas. À guisa de realce, cumpre relembrar que o grau de dignidade conferido ao homem foi o gatilho de sua revolta contra Deus. Ora, se há imperfeição na obra de Deus, há maldade na criação. Se há erro na criação, há imperfeição no Ser perfeito. Se há imperfeição em Deus, Ele não pode ser Deus. O que é um absurdo. Mas Satanás sabia muito bem que não é muito esperto confrontar alguém mais poderoso. Nem lutar contra a lógica. Desse modo, em vez de agredir a Deus, ele opta por corromper Sua criação, à qual ele mesmo considera corrupta. Lúcifer quer fazer emergir do caos uma nova ordem da qual ele seja o criador e soberano absoluto.

É precisamente na Gnose que os conceitos se invertem: o mal é o bom, e o bom é o mal. Antimetafísica e satânica por sua própria natureza, essa religião proteiforme só não vai variar no dado essencial. Existiram muitas gnoses, desde o catarismo até o marxismo, mas todos os gnósticos de todos os tempos creem na premissa fundamental de que a realidade objetiva é má e precisa ser substituída por outras realidades, sejam subjetivas, projetivas e/ou superlativas -porque é no interior do homem que vive Deus, revelando-se em sincronia com o “progresso” humano. Isso se traduz em solipsismo sociopático ou milenarismo revolucionário, com diferentes expressões ao longo da História -Revolução Francesa, Nazismo, Comunismo, Maçonaria, Nova Ordem Mundial etc.. No fundo, trata-se de uma revolta tipicamente satânica, porque é hierárquica e vaidosa ao extremo.

Evidente que o plano de substituir a ordem divina, o ser, pela desordem satânica, o nada, não é um projeto muito fácil de ser implementado; sem máscara, seria prontamente rechaçado pela humanidade. É preciso tática. Demagogia. Quando se quer vulgarizar o valor da vida, não se afirma categoricamente que a vida não vale nada; não se defende abertamente o assassinato de nascituros, mas o enfoque recai sobretudo no “direito da mulher”. Quanto à proibição divina de consulta a adivinhos e necromantes, não se toca na desnecessidade de se conhecer pela via do oculto, mas no “direito à liberdade”.

Propor a troca do bem pelo mal não é plataforma de campanha. Mas subverter o bem por parasitagem interna é um método de guerra muito mais eficiente, se a tática for bem aplicada. Um bem menor é alicerçado à condição de bem absoluto, produzindo a desordem, que é um mal. É assim que se alimentam narcisos e se detrona Deus, engolido pelo dilúvio de egos. Um exemplo bem conhecido: a defesa das prostitutas. É claro que uma prostituta merece respeito como ser humano, mas não merece ser respeitada pela atividade torpe que exerce. São duas coisas completamente diferentes. E, aliás, quem respeita a mulher não pode, por óbvio, respeitar a prostituição, que rebaixa aquela. Porque a dignidade do corpo sempre vai ser um bem muito maior do que o bem representado por um mero pedaço de papel colorido, tenha o valor e a quantidade que tiver.

O fim da Gnose, com efeito, consiste em subverter a ordem conhecida e acusar o “demiurgo criador” pelo estrago causado. Afinal, o Deus criador é um tirano que deseja apenas exercer poder… e o “deus misterioso” é o verdadeiro salvador… Será que é assim mesmo? Pois é precisamente por ter forma que existe tudo aquilo que tem a qualidade da existência; se fosse informe, não precisava ser delimitado, seja por quem for. Se criou, conhece intimamente e exerce legislação. E é justo que o faça. De modo semelhante, tudo aquilo que vive oculto e aquém a toda regra, como todo bandido que tapa a cara ao chegar numa delegacia, tem todas as sórdidas razões para o fazer.

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