Os Haters da Folia

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Carnaval

Eu me acostumei a ver gente achando que seu ano foi ruim porque não usou branco no Reveillon. Exagero? Se exagero, por que diabos, ano após ano, milhões de pessoas ao redor do mundo se emperiquitam todas de vestes alvas para aguardar a passagem do ano? Não é por outro motivo que os horóscopos no Brasil estão sempre em alta; muita gente parece acreditar que suas vidas vão melhorar se Júpiter estiver em alinhamento com Saturno. Mas eu não acho que acreditem verdadeiramente nisso. É como jogar na loteria. Ou, no mínimo, é como se elas apenas estivessem inventando um espantalho a fim de criar um foco e reprogramar a mente (neste caso, não seria melhor procurar um amigo ao invés de uma cigana?)

E, muitas vezes, as superstições brotam de onde menos se espera. É fácil perceber que um pé de coelho não possui nenhuma propriedade mágica. Por outro lado, não é nada fácil perceber, aos quinze anos de idade, que acusar a burguesia de ser o grande mal do mundo não vai eliminar a injustiça do mesmo. Nem a malícia comunista. Ainda que o comunista em questão, como num passe de mágica dialético, deixe de ser um burguês de universidade por um ato de piedosa autobeatificação.

Meus amigos, paremos de dar voltas e alfinetadas entretanto. Tenho ouvido muitas bobagens repetidas, infelizmente. Algumas como uma vitrola enguiçada, outras somente de tempos em tempos. Quanto às abobrinhas da safra de fevereiro, previsíveis, eu não entendo como todos os males do Brasil ou das almas tupiniquins podem ser debelados ao se combater o Carnaval.

Para início de conversa, não se pode dizer que um povo é vagabundo apenas porque seu calendário possui muitos feriados. O povo brasileiro tem muitíssimos e graves defeitos, eu sei, mas não se pode dizer que não seja batalhador. Pode ser que muita gente não entenda que o Brasil “pare” logo ao início do ano. Afinal, elas não podem sair com seus carros confortáveis pelas ruas, trabalhar seis horas por dia em seus escritórios com ar condicionado, almoçar em restaurantes e fechar grandes negócios; tempo é dinheiro para eles. Eu sinceramente os compreendo. Mas um grupo significativo de pessoas gosta de Carnaval. E normalmente são gente que acorda às cinco da manhã (senão antes), espera 2 horas no ponto para enfrentar ônibus lotados, fica 10h enfrentando serviço pesado e está doida para chegar o fim de semana, porque afinal, para elas ao menos, tempo representa mais suor e sacrifício do que dinheiro. E eu as compreendo igualmente.

Se o Carnaval mais prejudicasse a economia do que a erguesse, eu entenderia a necessidade de suprimir o evento do calendário. Mas não. Se o dinheiro sai por um lado, volta pelo outro; numa relação diretamente proporcional com a quantidade (e qualidade) dos empregos. E não apenas em fevereiro ou março. O Carnaval é uma festa famosa no mundo todo. E, como sabemos, uma marca registrada do Brasil. Muitos turistas viajam para cá só por causa do Carnaval. Segundo a ABAV (Associação Brasileira de Agências de Viagem), o Carnaval só perde para o Reveillon em número de turistas. E é responsável pelo preenchimento de mais de 80% de vagas de hotéis em todas as regiões do Brasil. Todas.

Outros gostam de apresentar razões morais ou estéticas para justificar seu repúdio à festa. É justificável se for uma regra ou preferência pessoal, não coletiva. Talvez o Carnaval não seja apropriado a uma pessoa com forte inclinação à embriaguez – mas desde que esta seja uma disciplina que ela mesma queira se impôr. Se for do desejo de um roqueiro ou de uma pessoa idosa, eles não precisam sair às ruas para ouvir as percussões e outros sons que desprezam. Podem viajar. Ficar em casa. De qualquer modo, se é verdade que o Carnaval dá ensejo aos vícios da carne e, na bagagem, a certas injustiças, é igualmente verdadeiro que muitos pais de família veem no Carnaval a oportunidade, talvez única, de encontrar tempo para passear com a esposa e os filhos, a fim de se divertirem juntos. Liberdade significa encontrar os limites da Natureza e/ou da consciência, não ficar inventando regras estúpidas, inclusive miudezas de calendário, para alimentar um senso artificial de moralidade. Devassos não precisam do Carnaval para dar vazão a suas paixões -nem gente decente ou hipócrita, devo dizer.

Enfim, como dizia o grande sábio Chorão, que não tinha nada de chorão nem de sábio, “quem é de ficar vai ficar, quem é de correr vai correr”. Bullseye! O mal do Brasil não é o Carnaval. Não é ter sido colonizado por portugueses em vez de holandeses. Não é ter uma raça mestiça. Não é o problema do alinhamento planetário. Não é o mau augúrio dos búzios. O grande mal do Brasil é a mania escrota de criar problemas menores para questões irrelevantes, ao mesmo tempo em que inventa soluções simplórias para problemas gigantescos. E, nesse caso, eu concordo: se não fizer direito, não tem samba-enredo que dê jeito.

 

 

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