Pílulas Crônicas 5.0

Padrão

Roceiros

* Soube recentemente que o Boko Haram quer converter todo mundo ao Islamismo dizimando 2000 pessoas na Nigéria e explodindo garotinhas indefesas em prédios. Uau! E eu que pensava que religião tinha que ser aquela coisa chata de ir a uma igreja se confessar e ficar rezando; pelo visto existe um culto mais descolado que segue as últimas tendências do nosso frenético mundo contemporâneo.

* Quando eu jogava GTA San Andreas e matava todo mundo que não fazia minha vontade, mal podia adivinhar que estava mais próximo de Deus. Claro. Apenas uma mente iluminada alcançaria tal revelação.

* Toda religião oferece paz de espírito e proteção contra o mal. Algumas são mais “adaptadas” do que outras, como diria Darwin. O Islã, uma religião moderna assim como a ONU ou o marxismo, é tão de vanguarda que efetivamente cria o próprio mal do qual se resguarda. Pela módica quantia da sua alma eterna, você fica protegido. Do Islã.

* O princípio maior de toda religião chata e desorganizada é acusar o infiel de ser pecador, idiota ou alienado. Acusar apenas. E condenar em seguida. Como o islamismo, o marxismo, o feminismo, o darwinismo (o ateísmo militante), o freudismo, o nietzschismo e as Testemunhas de Jeová. Enquanto outras religiões se erigem em mármore de Carrara pela ideia de aperfeiçoamento mútuo (sem deixar de dar pontapés em castelos de areia), os malas sem alça sobrevivem das cinzas ou da merda.

* Não digo que não haja nada de verdadeiro em nada do que esses caras vomitam por aí. Mas mesmo para vomitar você precisa digerir bons alimentos. Como dizia o saudoso Orlando Fedeli, não engana ninguém uma cadeira com três pernas; mas pode nos ludibriar um móvel assim com um defeito recôndito ou estrutural e, à primeira vista, imperceptível.

* Marx fez a incrível descoberta (e a pôs em prática) de que o Poder pode ser usado para sufocar os outros, seja material ou espiritual. Nietzsche, idem. A diferença essencial aqui é que, enquanto este foi um cínico e um cético, aquele estava mais para um jacobino e idealista. Dois ídolos de barro. Quanto a Freud, o foco incidiu mais na originalíssima noção, mais nova do que andar pra frente, de que as pessoas muitas vezes se inter-relacionam por motivos escusos e inconfessáveis; o motivo escuso e inconfessável de Freud, por exemplo, foi a tentativa de macaquear a magia cabalística em linguagem pseudo-científica.

* As pessoas no Brasil procuram igrejas (e causas) pela mesma razão que frequentam universidades: querem um título para esfregar na cara dos outros quem elas são; não corroborados pela realidade, mas por um grupo de pertencimento, reduzem o universo a um todo coeso e provinciano, a uma dimensão segura. É o veritas engolindo a aletheia. É próprio do ser humano, constitui sua natureza o procurar integrar-se. Mas desde que isso represente uma visão cósmica e totalizante, não meramente tribal; os gregos tinham uma noção muito trabalhada disso.

* Não sou um competidor, sou um militar. Sou um sniper, não brinco de paintball. A diferença, que parece inexistente aos olhos de um néscio pós-moderno, na verdade chega a ser abissal. Quero dizer que não luto para provar que eu (ou a minha causa) sou mais inteligente ou espiritualmente mais elevado do que meu adversário. Isso é irrelevante. A raiz da palavra areté não quer dizer simplesmente virtude ou coragem, mas excelência e integração cósmica. Sou um com minha missão. Um tolo quer tornar o seu eu maior, hipertrofiá-lo; mas o sábio percebe que não há nada maior do que aquilo que é do seu próprio tamanho, inclusive o gigantesco.

* Nada é mais alheio ao espírito aristocrático do que a mentalidade das massas. Os antigos cristãos, inclusive os pagãos mais primitivos e sofisticados, tinham a perfeita ciência de que não se vive por acaso. Nem se morre por acaso. Mas os moderninhos não compreendem as guerras. Não compreendem a pena de morte. Nem o martírio. E, naturalmente, acham a Ilíada um exagero, uma besteira.

* Igrejas vêm se tornando gradualmente clubes sociais, onde as pessoas se reúnem para não morrer de tédio e também para afugentar o medo da morte. Porque é uma religião tradicional e solene, a classe média e a alta preferem se reunir nas igrejas católicas. No caso das pessoas de renda mais baixa, vê-se uma clara preferência por frequentar cultos protestantes, onde se promete prosperidade. No primeiro caso, a religião empresta uma aura de profundidade e prestígio. No segundo caso, uma alternativa à vida rasteira e uma esperança de “subir na vida”. Em ambos os casos, porém, predomina uma necessidade que é muito mais social do que espiritual. Espiritualidade hoje em dia não é para qualquer um.

* Não digo que não haja muita gente comprometida dentro das igrejas, com muito mais fé e serviço do que eu. Com muito mais dignidade. Mas tem se abatido sobre tudo uma verdadeira epidemia de antropocentrismo e impiedade. É assustadora a quantidade de pessoas que vivem como que em realidades paralelas, pulando de momento em momento, entre nuvens, como se o mundo exterior fosse apenas um invólucro descartável. Eu chamo de “Síndrome do Midas Feliz”. São ídolos solitários esses super-homens. Com efeito, religião, filhos, casamento, profissão e até suas próprias ideias, elementos constituintes de nossa vida, têm se tornado meros signos exteriores de um culto que o indivíduo espera que os outros prestem a ele mesmo. Fazem de tudo para ser deuses e esperam ser recompensados afinal.

* Você sabia que o samurai considerava a katana uma extensão de sua alma? Interessantíssimo.

* Tudo isso me faz lembrar de uma cena icônica de Karatê Kid. Daniel Larusso pergunta ao senhor Myiagi se ele é capaz de quebrar um pedaço de madeira de lei com um soco. O velho japonês responde que não sabe; afinal, nunca havia sido atacado por uma árvore antes.

* Aliás, enquanto os sábios do mundo agem como tolos, Deus faz florescer a sabedoria de onde menos se espera. O solo pode ser duro e estéril, se a alma é fecunda. Conheço uma senhora da roça que me surpreende toda vez que ouço o que ela tem a dizer. Ou a suas histórias. Um dia, questionando-se a respeito da quantidade de divórcios no mundo atual, ela fez a seguinte pergunta retórica a meu irmão: se for para se casar e viver como solteiro, então por que alguém se casa? Eu ri quando soube do caso, que intrigou e fascinou meu irmão. Tantos bobalhões escrevendo páginas lisérgicas de lixo acadêmico e uma matuta roceira e semianalfabeta tira uma perola do solo firme onde pisa.

* O Islã é uma religião de paz? Pergunte a si mesmo. Ou a eles. Tenho 33 anos, não nasci ontem. Acredito na realidade, não em dogmas furados de tolerância aos quais prestam devoção as alminhas sebosas e fúteis que querem fazer bonito em “jantares elegantes”, brincando de budismo. Conhece o conceito de guerra assimétrica? Pesquise.


 

PS1: quando falo em “religiões desorganizadas”, refiro-me àquelas que mudam de dogmas conforme a conveniência. Elas adaptam a realidade às ideias, não o contrário. De todas as que citei no quarto tópico, apenas o Islã foge um pouco dessa característica. São crenças fanáticas por origem; isto é, nascem com vício inato, mas não perdem a convicção.

PS2: aos amigos católicos que se sentiram ofendidos com minhas “observações”, eu peço perdão. Pode ser que eu tenha sido um pouco leviano, mas não foi por maldade. Apenas quis traçar, ainda que superficialmente, um perfil sociológico e psicológico do exercício da fé no Brasil contemporâneo, tal qual eu o tenho percebido. Já fiz isso outras vezes. Não custa lembrar que existem muitas pessoas com fé verdadeira, de todas as classes sociais, em qualquer denominação cristã -não tenho dúvida nenhuma disso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s