Nerávia – Capítulo 2

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Neve na tundra

 

OBS: capítulo 1 AQUI.

A nevasca havia se intensificado inesperadamente, e eles não sabiam se restava, no lampião, querosene o suficiente para prosseguir a viagem. Estavam abrigados dentro de uma espécie de caverna havia preocupantes trinta minutos. Anoitecia. Por um momento, Hitreu se arrependeu por não ter permanecido em Maribor e negociado por mais tempo com Orcoler, a fim de garantir a estadia na vila por pelo menos uma noite… Fosse apenas ele a escalar o Kroldan, seria uma coisa, mas Vindgaard e Helga o acompanhavam. Uma criança ferida e uma senhora idosa. Por que diabos Helga insistira em acompanhá-los!? O ultimato do Ferreiro havia sido claramente direcionado a Hitreu e ao filho; Helga poderia retornar a sua choupana, se quisesse. Mas não. Agora representava um peso a mais. De qualquer modo, porém, pode ser que ele tivesse tomado a decisão correta, uma vez que Mávia não tinha todo tempo do mundo…

-Está contemplativo, Hitreu… Mas você sabe que aquele velho ranzinza não nos daria guarida. Não fique se remoendo devido ao inevitável. – Disse Helga.

Mas como ela podia ser tão perspicaz assim? De vez em quando ele realmente acreditava que a mulher fosse uma bruxa.

Junto a ela (e do lado oposto a Hitreu), estava Vindgaard; encolhido diante da fogueira, contemplativo, tremendo de frio e de dor, sofrendo mais do que deveria para alguém de sua idade. Mais do que a vista podia alcançar. Hitreu sentiu remorso por ter deixado o rapaz acompanhá-lo; sentiu remorso por nunca lhe ter dito nada. Todas aquelas experiências dolorosas, somadas ao flagelo corporal, pesando sobre as suas costas frágeis…  havia o risco de desabar. Mas como poderia evitar o sofrimento, se não havia, em verdade, outra direção a seguir? Como diziam os ancestrais, refletindo sobre a condição humana, todos os caminhos são de sofrimento e morte. “A vida é mesmo muito injusta”, pensou, e foi mais uma funda pontada no coração devotíssimo de Hitreu, adorador de Lord Hilnar, o deus da Justiça.

Foi então que Vindgaard, fazendo um colossal esforço para se levantar e outro maior ainda para caminhar, juntou-se ao pai. E o abraçou.

-Não desanime, pai. Os deuses nos têm favorecido até agora; não nos faltarão no restante da jornada. É preciso ter fé.

Hitreu olhou para o rapaz, surpreso com sua firmeza, e seus olhos marejados reluziram de uma alegria inesperada. Ele sorriu.

-Você sempre foi a minha fé, meu filho! Não é por acaso que é filho de quem é!

-Mas eu sou… –Vindgaard não encontrou palavras para responder-lhe. Confuso, parecia um pouco transtornado, sem saber o que dizer nem para onde olhar. Havia algum tempo ele se questionava a respeito de sua origem, apesar de nunca ter dito palavra. Sempre que Hitreu o levava à vila, ocasião que se tornara cada vez mais rara, ouvia comentários maliciosos e sofria uma hostilidade injustificada. Tinha 12 anos já e era mais forte; no entanto, seu pai passara a recusar a sua ajuda no transporte de madeira a Maribor –muito embora nunca tivesse dispensado seus braços para cortar a lenha. Nada disso lhe passava despercebido e uma duvida havia se instalado na cabeça de Vindgaard, nos anos recentes. E, depois do que havia presenciado há pouco, esta dúvida ganhava um novo vulto, uma sombra imensa que agora ele não conseguia ignorar… Ele seria mesmo filho de Hitreu?

-Eu sou seu filho… Não sou? –Voltou à carga Vindgaard, sem nenhuma convicção, depois de uma pausa reveladora.

Hitreu balançou a cabeça desalentado, em sinal de negação.

-Eu esperava que você tivesse mais idade para…

-Quem é meu pai? Por que tudo isso!?

-Acalme-se, Vindgaard… –Interveio Helga – Acho que seu pai tem uma história longa a lhe contar. Enquanto isso, se vocês me permitem, vou cochilar um pouco; estou velha e cansada demais para ficar acordada a esta hora…

Helga deitou-se sobre a esteira, recobrindo-se com as peles que haviam trazido. Ficou de lado, com as costas viradas para a fogueira e para seus dois acompanhantes. Não era tão tarde assim como dizia, mas o verdadeiro propósito consistia em deixar Hitreu e Vindgaard conversarem a sós, sem que a presença de terceiros influenciasse nas reações de pai e filho.

Hitreu sabia que não precisava moderar o tom de voz; Helga, assim como todos os moradores de Maribor, conhecia a história com riqueza de detalhes. Mas era uma conversa íntima de qualquer forma, e ele entendeu as intenções da mulher. Voltou a cabeça para Vindgaard, com serenidade:

-Sua mãe era duqueza na corte de Osgund, antes de você nascer. E havia o príncipe Huttor, filho do rei e meu melhor amigo, para o qual Mávia havia sido prometida em casamento.  Você não sabe, Vindgaard, mas é comum que famílias nobres estabeleçam parcerias entre si, para acumular riqueza e fortalecer dinastias…

-A “parceria” a que você se refere seria a união entre minha mãe e esse tal de Huttor?

-Exatamente.

-E qual seria o seu papel na história? Estava interessado em minha mãe, é isso?

-Não. Eu era de família nobre também, mas não tinha interesse em Mávia.

-Então?

-Depois que, inesperadamente, Jowan faleceu em batalha, Huttor ascendeu ao trono. Estávamos em guerra e não havia tempo para que o novo rei desposasse sua rainha; Huttor e Mávia se tornaram noivos numa cerimônia realizada às pressas, e ele me incumbiu da tarefa de zelar por sua mulher, até seu regresso. Eu era o novo conselheiro real, um cargo que só perdia em importância para o de próprio rei; Huttor confiava muito em mim. Eu sabia o quanto Mávia representava para ele, por isso me empenhei em garantir sua segurança; designei guardas para protegê-la e amas para me manter informado. Eu era novo na administração dos recursos que tinha à disposição e me parecia que ela não estava tão certa da decisão que havia tomado; quis me aproximar.

-Se apaixonaram, eu vejo.

-É bom que saiba: Mávia sempre amou Huttor, apesar de tudo. Mesmo que eu quisesse cortejá-la, não penso que lograria sucesso.

-Mas se aproximaram…

-Nos aproximamos naturalmente. Ela era religiosa como eu; frequentávamos o Templo de Hilnar, guardião de Osgund. Éramos ambos circunspectos e, às vezes, passeávamos juntos pelos jardins do castelo quando nos sentíamos entediados de toda badalação da corte. Foi então que começaram os boatos.

-De que estavam juntos…

-Sim, traindo ao rei… Magoa-me muito, já que sempre fui fiel a Huttor. Entretanto, pior do que tudo era observar Mávia sendo vítima de comentários maliciosos, conversas pelos cantos. Vou dizer uma coisa sobre sua mãe, Vindgaard: nunca conheci mulher tão virtuosa. Mávia não seria capaz de fazer mal a uma mosca.

-Eu sei…

-Não sei como dizê-lo, Aesterlore… Mas me deixei inflamar por sua mãe. Houve uma vez inclusive… Quero dizer, naquela época ela era uma jovem muito bonita, bem tratada e tinha a sua disposição todos os recursos que realçavam sua beleza natural. Nenhum homem ficava indiferente por muito tempo. E eu ficava muito tempo a seu lado, como sabe.

Vindgaard franziu o cenho, se antecipando.

-E?…

Hitreu se recurvou junto à fogueira minguante e, com a expressão condoída, suspirou profundamente.

-E eu tentei embriagá-la, a fim de forçá-la a deitar-se comigo. Ela não me queria! Quase cheguei a consumar o crime, mas recobrei a consciência a tempo. No entanto, a paixão não me deixava mais enxergar com nitidez. Dei ordens para que os guardas não permitissem que Mávia saísse de seu quarto. Ou que qualquer pessoa, exceto suas amas, entrassem e saíssem de lá. Chantageei sua mãe! Disse que, se ela não fugisse comigo (porque era a minha única alternativa), eu a violaria e diria a Huttor que ela havia se entregado a outro homem. Huttor confiava em mim mais do que em sua própria consciência e, conquanto eu sofresse alguma punição por negligência, era certo que Mávia seria condenada à morte por motivo de alta traição.

Nesse momento eles ouviram um espirro e perceberam que Helga já não dormia. Embora permanecesse deitada, havia se voltado para eles e prestava atenção na conversa, visivelmente entristecida. Ao notar que todos os dois a olhavam, Helga ergueu o tronco, apenas com a parte abaixo da cintura enfiada debaixo das cobertas. Vindgaard, desorientado e furioso, fez menção de perguntar àquela senhora se ela sabia daquela história, se todos sabiam, mas logo percebeu, pela expressão igualmente perplexa da mulher, que eram desconhecidos ao menos os detalhes do segredo que “seu pai” hora lhe revelava. Os detalhes sórdidos, evidentemente.

Hitreu prosseguiu:

-Uma dia Huttor retornou. Deixou-se contaminar por maledicências e me chamou a seus aposentos, perguntando-me sobre Mávia. Ele insinuou, e eu neguei que tivesse tido qualquer envolvimento com sua noiva; então ele relutou muito antes de acatar minhas palavras. No entanto, na convivência diária já não éramos mais tão próximos e Huttor também tomou precauções para que Mávia me evitasse. Eu já estava na expectativa de que ele me nomeasse cônsul de algum reino distante, talvez fora de Nerávia; se ainda não o havia feito, era para não dar na vista, não deixar que outros pensassem que eu havia mesmo tido um caso com Mávia. Às vésperas do casório, porém, Huttor fez questão de oferecer uma grande festa em honra a sua noiva; nobres de toda parte do reino compareceram, mas um em especial monopolizou a atenção das gentes: um rapaz muito bem apessoado, instruído, com porte monárquico. Eu olhava para Mávia e percebia o fascínio que aquele homem lhe exercia. E era recíproco. Huttor nada notava, como sempre distraído e boêmio, a entreter os convidados. Em dado momento, Mávia e o homem misterioso se ausentaram da festa, ela primeiro e ele em seguida, para não levantar suspeitas. Eu segui em seu encalço, mas parece que Huttor havia dado ordens expressas a seus guardas para que eu não tivesse acesso a certos aposentos do castelo. Os guardas me vigiavam tanto que nem reparavam no restante das pessoas. Idiotas.

-Quer dizer que minha mãe teve um caso com um homem estranho às vésperas de contrair matrimônio!? Pare de mentir, Hitreu! –retrucou Vindgaard.

-Acalme-se. Não tire conclusões precipitadas. Seu pai ainda não terminou o relato… –interrompeu Helga.

-Ele não é meu pai!! –gritou o menino, com lágrimas nos olhos.

Hitreu fez silêncio por um instante e abaixou a cabeça. Após uma pausa, continuou:

-Bem, como fica fácil de deduzir, eu não consegui acompanhar Mávia nem aquele homem. O que seria surpreendente dizer é que os dois não retornaram à festa, que se estendeu até altas horas da noite. Como seria possível que ambos fossem tão tolos? E mais surpreendentemente ainda: embora eu procurasse lembrar aos demais da ausência do chamativo rapaz, ninguém parecia se dar conta de quem eu falava. Sim, eu tinha a intenção de que flagrassem Mávia com outro! Antes do incidente, acreditava que sua fidelidade era fruto de sua honestidade, não de indiferença em relação a mim; de repente eu me sentia preterido, envolto em ciúmes e raiva.

-Então o rapaz de quem fala teve a audácia de dormir com a noiva do Rei, em seu quarto? –indagou Helga.

-Foi nisso que eu pensei também, apesar de estranho. Logo bem cedo, de manhãzinha, eu esperava surpreendê-los no quarto. Aproveitei a distração da guarda e desci o lance de escadas que dava para os aposentos de Mávia. Cheguei-me à porta, encostei o ouvido e escutei-a chorando! Entrei e a vi sentada na cama, sozinha, com o lençol entre as mãos, manchado de sangue. O desgraçado, como eu supunha, havia deflorado Mávia; mas já não se encontrava mais no quarto. Perguntei o que havia acontecido, e ela me disse que o homem com quem havia estado chamava-se “Hilnar”. Eu me irritei com a resposta e a esbofeteei.

– Não havia nenhum nobre chamado Hilnar entre os convidados? – interrompeu Helga.

– Isso, não havia nenhum aristocrata com esse nome. No momento eu fiquei atordoado, como vocês estão agora. Mal pude reagir: dei alguns passos para trás, querendo digerir a situação; mas os homens de Huttor arrombaram a porta. Huttor estava com eles. Ao me ver ali, junto com Mávia e o lençol ensanguentado, ele perdeu a compostura; sem nada dizer, surrou-me até que Mávia o convencesse a não bater-me mais. Fui levado às Masmorras de Krasnod, nas Terras Longínquas; como sabem, é para lá onde levam os condenados à morte sempre que os eminentes algozes não desejam esperar por uma sentença judicial. Em Krasnod, se você não morre pela boca dos lobos, sucumbe à fúria da neve.

– Ninguém escapa das Masmorras de Krasnod…

– Parece que andou estudando um bocado sobre nossas terras, não é verdade?

– Não vim para Osgund desprevenida, Hitreu. Alguém como eu não pode se aventurar sem saber onde pisa.

– Ah, sei-o bem!

– Prossiga. Mais do que eu, o menino deseja ouvir.

Hitreu olhou para o cabisbaixo Vindgaard, que respondeu:

– O que quero ouvir ainda não foi dito. Apenas tolices.

– Tenha paciência, Asterlore. Seu sobrenome, como deve presumir, não é o meu. Nem de ninguém que um caçador de recompensas pudesse reconhecer à época. Como deve ter percebido, as circunstâncias são muitíssimo relevantes. Preciso que me deixe terminar.

– O que está esperando? – Retrucou o rapaz.

– Pois bem! Como eu disse, as Masmorras de Krasnod são uma sentença de morte em si. Os prisioneiros são colocados para trabalhar sem qualquer tipo de algema; os guardas ficam distantes de nós, quase alheios em suas torres de observação, enquanto cortamos madeira.

– Foi assim que aprendeu o ofício que exerce? –Perguntou-lhe Helga.

– Sim. Antes de Krasnod, nunca fiz qualquer serviço braçal. Depois que fugi de lá… digamos que foi de muitíssima utilidade que uma vez eu tenha estado naquele lugar. Irônico.

– Não me parece ser tão difícil escapar dessa prisão. Andamos em territórios de lobos muitas vezes, sob temperaturas baixíssimas. –Questionou Vindgaard.

– Ignora que eu estivesse acostumado ao luxo da vida na corte, rapaz? Ademais, você nunca esteve nas Terras Longínquas, Aesterlore. Você não sabe o que é o verdadeiro Inverno até que tenha estado nele! A fauna é tão diminuta que os lobos daquelas terras haviam se especializado em caçar e devorar prisioneiros de Krasnod; comida farta e fácil para os lupinos, sobretudo durante as estações mais geladas. Para finalizar, ninguém consegue se deslocar pela neve densa e ao mesmo tempo ser mais veloz que os guardas, com suas bestas envenenadas e os seus cães.

– Então como conseguiu fugir?

– Foi três meses após eu ter chegado lá, Aesterlore. Estávamos na floresta, cortando a lenha que havia de ser usada na caldeira que mantinha a prisão razoavelmente aquecida. Apesar do pouco tempo em Krasnod, eu havia aprendido algumas coisas. Se tivéssemos ouvido uivos na noite anterior, sabíamos que haveria mortes no dia seguinte. Eu também já sabia que não podia me manter muito distante dos demais na floresta; quem não seguia a regra se tornava uma presa fácil para alcateias famintas. Vi muita gente morrer assim.

– E os guardas?

– Pouco se importavam. No mais das vezes, desciam das torres, verificavam o corpo e mandavam algum prisioneiro enterrar ali mesmo. Mas uma vez ocorreu uma coisa curiosa…

– O quê?

– Eu estava cortando a lenha e não percebi a aproximação de um dos lobos. Quando vi, ele estava a cinco metros de distância de mim. Me encarando. Tentei me afastar sem lhe dar as costas; porque esse tipo de movimento é convidativo à caça, desperta os instintos do predador.

– E então?

– E então nada! O animal não avançou contra mim. E os demais lobos da alcateia se juntaram a ele. Todos ao meu redor. Todos me encarando e nenhum deles dando um passo sequer em minha direção. Era como se estivessem me contemplando ou tentando se comunicar. Os prisioneiros ficaram assustados, e um deles foi ter com os guardas.

– Os lobos já haviam se comportado assim anteriormente?

– Não que eu saiba.

– E o que fizeram os guardas?

– O de sempre: nada. Era um show para eles. Esperavam que a alcateia me despedaçasse. Assim que notaram haver algo de incomum, disparam flechas contra os lobos, atirando do alto da torre.

– Foi nesse momento que vocês aproveitaram a confusão e fugiram?

– Não havia como fugir. Assim que um dos lobos foi ferido por uma flecha, alguns dentre eles correram em direção à torre. Visavam os guardas. Os demais atacaram os prisioneiros. Foi uma carnificina. Um massacre.

– Como escapou!? O que fez?

– Eu não fiz nada. Absolutamente nada. Fiquei estático. Os lobos passavam por mim como se eu não existisse. Assim que tudo acabou, à exceção de mim não havia homens vivos naquele lugar; alguns fugiram, e a maioria morreu. Então o que restava da alcateia se reuniu em torno de mim. E uivou. Anoitecia, e os últimos raios de sol se refletiam nas poças de sangue. Eu estava apavorado.

Vindgaard e Helga se entreolharam, surpresos. A velha fechou os olhos, abaixou a cabeça e comentou sorrindo:

– Agora vejo… Lord Hilnar lutava a seu favor…

– Naquele momento eu tive também essa firme impressão. De repente tudo parecia fazer sentido: nenhum dos convidados da festa recordar do homem que eu e Mávia lembrávamos. Do homem que Mávia havia denominado de “Hilnar”…

O jovem Vindgaard se sentiu deslocado, sem nada compreender daquela conversa. Confuso, questionou a ambos:

– Sobre o que vocês estão falando!?

Helga olhou para Hitreu, que meneou a cabeça positivamente. Então ela respondeu ao menino:

– Lord Hilnar, o deus da Justiça, é conhecido pelo epíteto de “Senhor dos Lobos”. É dito que os lobos caminham por Nerávia como se caminhassem sobre seu quintal. E que, às vezes, eles executam ordens de seu dono.

– Seria esse o caso?

– Parece muito peculiar para que os animais tenham agido apenas por instinto, não é verdade? – Riu Helga.

Hitreu lançou para Vindgaard um olhar compassivo.

– Aesterlore, eu nem sempre fui o homem devoto que conheceu desde a infância. Aconteceram coisas em minha vida que me tornaram fiel. Aconteceu você, de cujos cuidados os deuses me encarregaram.

– O que está dizendo!? –Os olhos do rapaz tremeluziam.

– Estou dizendo que os lobos foram enviados às Masmorras de Krasnod para me resgatar, sem dúvida. Assim que o percebi, olhei para a linha do horizonte crepuscular: o líder da alcateia contrastava com ela e trazia Mávia deitada em seu dorso. Então um dos lobos ofereceu-se como montaria e os animais nos levaram até o Monte Kroldan, onde havia uma cabana abandonada. Depois de alguns meses, sua mãe deu à luz um menino, ao qual chamamos Aesterlore. Aesterlore Vindgaard, filho de Lord Hilnar, o deus da Justiça.

 

 

Aesterlore seguia à frente da nevasca, caminhando imprudente pela precária trilha contígua ao íngreme despenhadeiro. Hitreu tentava chamar-lhe a atenção, mas o jovem parecia indiferente ao pai de criação. “O baque foi tremedo”, dizia-lhe Helga; “deixe o menino absorver melhor o que você lhe disse”. Hitreu aceitou as palavras da velha, mas sabia que algo havia mudado. Não agora exatamente: há muito mais tempo. Pensava nas palavras que Orcoler lhe dirigira. De fato, Huttor acreditava que ele, Hitreu, arquitetara a própria fuga e o rapto de Mávia, que aliás nunca se recordou de como houvera terminado nas costas de um lobo.

Hitreu se sentia cansado. Não como sempre se sentia, após um longo dia de trabalho. Sentia-se indisposto e sofria com os fantasmas que o atormentavam algumas vezes. Sentia-se muito cansado, enfim. Desde que chegaram a Kroldan, há 12 anos, ele havia se comprometido a cuidar de Mávia, a mulher que amava, e do pequeno Vindgaard, ao qual havia aprendido a amar desde muito pequeno. Era uma responsabilidade que os deuses haviam lhe confiado, ele tinha certeza. Depois de tudo, como poderia não ter certeza? Tinha que expiar o crime de ter tentado violentar Mávia, acima de tudo! E, ademais… como poderia voltar à civilização? Os reinos de Nerávia tinham uma relação muito estreita e era muito provável que ele fosse capturado mesmo em outra Capital. Havia anos que se mantivera fiel à promessa que fizera a si e aos deuses. E mesmo a Mávia. Mas havia poucos anos também que começara a se questionar se valia a pena. Se ainda valia a pena. Ou se não havia feito muito mais do que um homem comum seria capaz de fazer, se não havia pagado um preço mais do que razoável. De vez em quando esses pensamentos o assombravam, e ele procurava inutilmente afastá-los, como quem quisesse livrar-se de uma mosca impertinente apenas fazendo uso dos reflexos apurados. Quer dizer, passara anos sustentando uma família que, a rigor, nem sequer era sua; anos enfrentando invernos rigorosos, animais selvagens e outras adversidades, em nome do amor por uma mulher que se tornara indiferente à própria aparência, que perdia sua formosura a olhos vistos e junto a um jovem bastardo que, com muita sorte, chegaria à idade adulta. Será que ainda valia a pena!? Na corte, mesmo um subalterno tinha vida mais digna. Quem sabe se até um prisioneiro.

Mas em que estava pensando!? Hitreu caminhava vagarosamente, e mesmo a velha conseguira ultrapassá-lo. Apesar da distância, Aesterlore seguia à frente de todos como se estivesse só. Ignorava-o. Hitreu parou de caminhar, transpirante, e sentou-se na neve. Apesar de fraqueza na voz, conseguiu emitir algo próximo a um grito:

– Chega! Vou descansar…

O vento soprava forte demais, mas Aesterlore tinha uma audição de morcego. Parou a caminhada por um instante, sem olhar para trás. Passados poucos segundos, voltou ao ritmo normal das passadas, sempre à frente. Helga estava muito mais próxima de Hitreu, de modo que pôde ouvi-lo perfeitamente e, assim, correr em seu auxílio.

Helga segurou o homem pela cintura e fez com que ele passasse o braço em volta de seu pescoço. A velha bruxa notou, pelas passadas, que os pés do lenhador estavam com a circulação comprometida. Prosseguiram com dificuldade por alguns metros, antes de desabarem.

– Ainda estamos longe, Hitreu?

– Apesar da melhora, o clima continua muito ruim. Vê? Quase não se enxerga o que há a nossa frente. De modo que, se estivermos longe, não sobreviveremos. Nunca vi nada igual a isso durante o tempo em que estive aqui!

Mas Hitreu logo conseguiu visualizar uma fumaça que se erguia a vinte metros de onde se encontravam. Sabendo o que significava, eles prosseguiram até chegar à cabana onde ele e Vindgaard haviam deixado Mávia. O garoto, bem a propósito, estava próximo à lareira, depositando o resto de lenha que ainda restava a ser consumido pelo fogo. Mávia estava acamada e parecia muito febril.

– Trouxe o Sopro Alvo? –perguntou Aesterlore, sem no entanto interromper seu mister e nem sequer olhar de soslaio.

– Eu preciso fervê-lo…

– A cozinha fica à sua esquerda. Há água nos jarros.

Enquanto Helga preparava o chá, Hitreu permanecia na sala, que também era um quarto, no qual Mávia se encontrava dormindo. Ele retirou as botas desgastadas, com cuidado, e as meias umedecidas; mexeu os dedos, percebendo que sua sensibilidade já estava comprometida; os pés, azulados, anunciavam um princípio de putrefação. Como é que pode!? Hitreu, outrora um palaciano acostumado aos luxos da corte, passara meses o suficiente na inóspita Krasnod para se acostumar aos rigores do inverno osgundiano. Mas agora, somente agora pudera conhecer a fúria verdadeira do Ciclo de Nergal.

Chegou-se à lareira, que ficava próxima à cama, e perguntou ao filho:

– Deixe-me chegar próximo ao fogo… Meus pés estão congelando. Como estão os seus?

Vindgaard, entretanto, permanecia indiferente à presença do padrasto. Continuava a ajeitar a lenha na lareira com uma tenaz velha.

– E sua mãe?

Foi então que o menino pôs os olhos em Hitreu, com aquela expressão fulminante.

– Não viu quando entrou?!

Hitreu girou a cabeça para trás e viu Mávia deitada na cama. A princípio, do ângulo de visão da porta, as coisas não pareciam muito graves, apesar da expectativa. Mas agora ele a via de frente e se preocupava. O rosto embebido em suor da mulher, a expressão dolorida. Mávia sucumbia à febre.

Então ele se levantou e foi se sentar junto à esposa, numa cadeira velha de palha aos pés da cama. Ficou observando ela dormir por alguns instantes, naquela agonia. De vez em quando sua expressão se fechava, fazendo supor que a afligia alguma espécie de dor física ou sonho ruim. Provavelmente ambos. Aflito, sem saber o que fazer, Hitreu levantou a mão espalmada e titubeou, com lágrimas nos olhos, antes de deslizá-la suavemente pelo corpo de Mávia, como numa espécie de carícia de cura. Não queria que ela se assustasse. Vindgaard observava a cena de seu canto, sentado ao chão; lágrimas lhe brotaram dos olhos quando pôde ouvir do padastro as palavras que disse aos ouvidos de sua mãe, embora não pudesse compreendê-las de todo: “Estamos bem… Tudo vai ficar bem… Se não ficar, espero que me perdoe!”

Helga retornava, vinda da cozinha, trazendo um jarro com um líquido escuro e fumegante dentro. Encheu um copo grande, pegou este com uma mão e fez um gesto com a outra a Hitreu, para que levantasse Mávia e a deixasse sentada sobre a cama. Ele assim o fez, mantendo-a entre seus braços, pois estava muito fraca para não cair. Semiconsciente, Mávia todavia teve força o bastante para, não obstante seu estado de debilidade, abrir os lábios e engolir a poção que Helga lhe derramava sobre a boca.

A velha disse que o remédio deveria fazer efeito em horas, então eles ficaram esperando. Hitreu e Aesterlore, inquietos, permaneceram próximos a Mávia, enquanto Helga se manteve num canto mais afastado, serena, observando os movimentos; apenas de vez em quando, conforme Mávia se mostrava mais agitada na cama, a velha chegava mais junto aos três e, com um pano, limpava o suor da paciente e verificava sua temperatura. Apesar da calma que ela demonstrava, Hitreu não pôde deixar de notar em seu rosto uma certa amargura e preocupação; no entanto, como achasse que podia estar exagerando e como quem, no fundo, não quisesse receber uma resposta desencorajadora, ele teve receio de perguntar à velha o que se passava pela cabeça dela… Mas por que afinal se extrairia um líquido tão escuro de uma flor tão alva? E se passavam horas sem que Mávia demonstrasse qualquer sinal de convalescência. Não podia ignorar nada daquilo.

– Helga, o que está acontecendo? Por que Mávia não está melhorando?!

Helga estava sentada e, com a cabeça levemente inclinada em direção aos joelhos, trazia o rosto tapado com a palma de uma das mãos. Assim que mostrou a face e olhou para Hitreu, cansada e com olheiras fundas, balbuciou:

-Eu pensei que fosse dar certo…

– Você o quê?!! – Respondeu de imediato Hitreu, com o espanto estampado no rosto. Olhou para trás para ver se o filho havia entendido o mesmo. A expressão de pasmo de Vindgaard também não deixava dúvidas. Helga pôs-se a chorar.

Hitreu andou em direção à cabisbaixa velha e, tomando seu queixo com a mão, levantou sua cabeça e repetiu-lhe a pergunta:

– Você o quê?!!

– Desculpe…

– Do que você está falando!? Você deu o sumo do Sopro Alvo a Mávia, não deu!!?

Helga balançou a cabeça negativamente. Hitreu, atônito, demorou para assimilar o gesto. Assim que o fez, esbofeteou Helga com força duas vezes.

– Velha desgraçada! Onde está aquela flor?!

Helga não parava de chorar.

– Me desculpe… Eu não queria…

– Para de se desculpar ou eu vou…

– O Sopro Alvo está com Verfas… Conversando, acabamos por nos convencer de que vender a flor seria a melhor alternativa para nós! A esta altura, Verfas já deve ter negociado o preço com algum mercador abastado de Osgund… Eu pensava que… esperava que, mesmo sem o Sopro Alvo, eu poderia cuidar de Mávia; mas foi só chegar aqui para perceber que a situação era bem pior do que eu esperava. Queria consertar as coisas e… Eu trouxe algumas boas ervas, mas… o panorama não se alterou! Me PERDOEM!… Vocês não sabem o que é viver em Maribor da forma que vivemos!…

Dessa vez, o tapa que lhe deu Hitreu derrubou Helga da cadeira em que ela estava. Em seguida, ele respondeu:

– E você acha que vivemos bem aqui?! Dê uma bela olhada a sua volta, velha gatuna!

Vindgaard, que acompanhava tudo junto ao leito da mãe, estava arrasado e confuso demais para reagir. Apenas segurou a mão de Mávia entre as suas e beijou a progenitora na testa ensopada de suor. Sem se virar para Helga, quis saber da curandeira se o remédio que ela dera a Mávia tinha, ainda que remotamente, chance de fazer ceder os sintomas. Helga garantiu que as ervas eram fortes o suficiente e que sua esperança consistia em manter sua mãe viva até o alvorecer do novo dia; então eles teriam que levá-la até a corte de Osgund, onde ela poderia ter o tratamento adequado.

– E quem poderia pagar por médicos de Osgund, se não temos mais o Sopro Alvo conosco?! – questionou um irritado Hitreu. –Quero aquela flor! Ou o dinheiro que nos é devido pelo seu valor!

Neste momento, Mávia se sacudiu na cama e emitiu uma série de gemidos, acompanhados de esgares próprios de pesadelo. Tiveram até mesmo que segurá-la no leito. Após a acalmarem, Aesterlore fechou os olhos e deu um longo suspiro. Um momento de escuridão se impôs: era a luz que arrefecia faminta na lareira sem madeira por queimar. Assim que um facho de fogo reapareceu iluminando, Helga se assustou com os olhos de Vindgaard, que a encaravam de perto. Estava apenas por colocar mais lenha, ele disse. E complementou:

– A senhora sabe que, se minha mãe não sobreviver, não há maneira com que possa sair viva daqui?

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