Soma Zero de Schrödinger

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Vampira

No antigo Egito, a deusa Bastet, antes de ter se transformado em bebedora de leite, era a deusa-leoa Sekhmet, que havia dizimado parte da humanidade. Por ironia, Bastet era considerada a representante divina do Sol, o astro que aquece e dá vida. O mais curioso ainda é constatar que os egípcios a consideravam também a guardiã dos mundos do pós-vida. Em suma, qual é a gata que havia na cesta? Lembra por demais a lenda de Pandora, a qual, por seu turno, é uma metáfora de uma humanidade devotada ao Tédio e à Destruição, e sequiosa de Vitae como um carniçal tenebroso.

“Se alguma coisa tem chance de dar errado, ela vai dar errado, da pior maneira possível e de maneira que cause o maior dano possível”. A famosa assertiva, batizada de Lei de Murphy, foi proferida por um engenheiro americano homônimo da década de 1940, depois de uma demonstração fracassada sobre o efeito da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves. Segundo a lenda, Edward Murphy estava prestes a apresentar o resultado de suas pesquisas, mas os aparelhos responsáveis pelo registro falharam exatamente na hora em que ele o faria.

Segundo a ciência, uma lei da natureza se torna efetivamente uma lei para nós quando sua eficácia se comprova por experimentação. O chamado juízo sintético a priori retrata, contraditoriamente, regras que descrevem o comportamento de um objeto sob determinadas circunstâncias, mas que podem ser aplicadas a N objetos sob as mesmas circunstâncias. Assim, se você acha uma nota de 10 na rua, depois da meia-noite, vai creditar aquilo à sorte e não ao “design” do universo; porém, se você acha um peixe morto fora d’água, sabe logo que todos os peixes morrem fora d’água, porque seus pulmões, chamados “guelras”, foram feitos para respirar debaixo de água. Todos os peixes possuem guelras, mas nem todas as pessoas perdem 10 reais toda meia-noite.

Mas e se todas as pessoas perdessem 10 reais todas as noites? Se todas as nuvens negras se acumulassem sobre sua existência? Se houvesse uma confluência de dados aparentemente contraditórios, degenerescentes e senis? Se a vida fosse um deja vu constante e imperceptível, um aprisionamento límbico, uma imitação da morte? É sempre a consciência da perda e a perda da consciência. Sonhamos. Sonhávamos com o quê? Ruínas. Somos construtores de ruínas.

As leis da ciência estão mais próximas da matemática do que do acaso, por óbvio. Mas alguns acasos são mais científicos do que a gravidade, por exemplo, muito embora não tenham, como esta tem, nenhuma explicação plausível. Isso devido ao fato de que a probabilidade é uma disciplina matemática, e o dado científico muitas vezes só se revela como substrato da repetição, aquilo que permanece. Se uma coisa acontece com alguma frequência, crê-se que com alguma razão acontece. Qual razão? Esse é o ponto. Num jogo simultâneo de dois dados, recomenda-se apostar no sete; não por verificação derivada de faculdades precognitivas, mas por cálculo puro e simples: há maior quantidade de números somando e resultando sete. Mas, num jogo de baralho, você não vai tirar um ás do montante de cartas na primeira rodada apenas porque isso lhe aconteceu antes.

O que eu quero dizer é que o universo não conspira contra você ou ao contrário, mas apesar de você, num processo dinâmico que, apesar de tudo, harmoniza. No fundo, não é uma forma de pessimismo, se você for reparar bem. Se você for parar para pensar, mais perdemos dinheiro do que achamos, mais sofremos do que nos alegramos, mais perdemos do que ganhamos; a soma total é sempre um número negativo. Por quê? Não estaria completamente errado alguém que, observando tudo isso, dissesse que não existem razões para aspirar a coisa alguma. Mas eis que faz um cálculo restritivo. Na verdade não é a repetição de padrões que fundamenta a realidade, mas a razão mais cientificamente exata consiste em crer que, justamente por ser perda, por conter o gérmen de seu nêmesis, a vida ganha um valor monstruoso e definitivo.

Saberia valorizar o dia alguém que, porventura, vivesse mil anos de noite. E saberia porque alguma vez viu o dia. Tudo é uma ironia do Resplendor. As coisas não se sucedem umas às outras por indiferença e desprezo, mas justamente pelo contrário: toda nossa vida, em cada mínimo detalhe, sem que haja destino, é raison d’être. E a razão de ser do vampiro é a vida, mais do que qualquer outra (e todos nós somos vampiros).

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