Sem Limites

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Sem Limites

Ontem eu voltei a assistir a “Limitless“, um filme com Bradley Cooper interpretando um escritor que consegue acessar mais do que os habituais dez por cento de capacidade cerebral -o limite do ser humano comum. Seus processos cognitivos se tornam mais intensificados, diversificados e ágeis. Eddie Morra, o protagonista, se torna um gênio das finanças em pouquíssimo tempo. Mas veja o leitor que não me refiro à inteligência lógico-matemática, medida pelos testes de QI, mas à capacidade intelectiva em geral, que engloba aquela.

A experiência me fez lembrar de um assunto muito em voga nos debates atuais, que é o trans-humanismo. Trata-se de um “projeto de humanidade” que se propõe, em linhas gerais e atenuadas, a “aperfeiçoar” o ser humano. Em vez de pernas, membros biônicos fariam com que nos movêssemos mais rápido e com menor cansaço. Em vez da vista, olhos biônicos nos proporcionariam uma visão mais aguçada e detalhada da paisagem a nosso redor. Nosso cérebro positrônico teria um hardware de terabytes, um processador de nanotecnologia ultraveloz.

Mas será que precisaremos de upgrades tecnológicos para tanto? Sofisticadíssimos e ainda por se produzir? Ficção científica pura? Penso que não. O tempo inteiro é-nos exigida a atenção multifocal. Paramos no sinal, apreciamos os outdoors, observamos a movimentação dos trombadinhas, atentos às motos pelo retrovisor; no segundo seguinte, acessamos o GPS e ligamos o aparelho de som; ligamos para informar o atraso; pensamos num restaurante mais próximo de nossa conveniência. Segurança, estabilidade, estética, segurança, alimentação necessárias. Nenhum momento de contemplação fora do intensificado. Não há mais ficção científica que já não seja impura: muito futuro e passado num mesmo e opaco presente.

Num mundo assim, acessar informações diversificadas na memória e relacioná-las de maneira inteligível com o ambiente circundante seria o nosso modus vivendi mais compatível com o meio. Pense bem. Tudo o que queremos saber se encontra ao alcance de nossas mãos. Ou olhos. Uma breve prestidigitação nas teclas do keyboard e voilá! Com efeito, o acúmulo de dados e a celeridade de decisão com vistas a uma finalidade específica seriam os predicados indispensáveis ao “novo humano”, que já se encontra em fase beta. Somos pressionados por um ambiente que, o tempo todo, dada a incapacidade de se agrupar num todo harmônico, nos impele a articular a diversidade de informações numa rede de conclusões e direções mais ou menos coerentes. Mais menos do que mais. Nunca deixamos de ser estagiários no mundo.

Ironicamente, a pressa é inimiga da perfeição, e o perfeccionismo nos precipita à pressa. O mundo que exige proficiência acaba por produzir modelos defeituosos em sua pressa sem fim(s). Robocops. O elemento defeituoso é o circuito humano. A partir de certo ponto, Eddie Morra perde o tino e o contato com o real. Claro. A relação com o mundo exterior se torna muito equidistante, intermediária, filtrada pelas memórias selecionadas e pelo raciocínio assaz computadorizado. Eddie consegue fazer as coisas, poiesis, mas já não alcança percebê-las em sua integralidade. O mundo em desintegração produz, em série, o homem fragmentado e fragmentário. Poeira cósmica, menos e mais do que o barro. Um técnico dentro da técnica, diria Álvaro de Campos. Ambiente asséptico de hospício sem janelas nem paredes. Prisão domiciliar e fastio de estrelas, placas de neon do infinito. Gueto cósmico. Alguma coisa foi deixada de fora do caminho, malgrado a perfeição do plano -algum ponteiro de bússola. Horizonte de sol apagado a valer!

Para alívio de todos, Platão viu que era necessário sair da caverna e enxergar de novo o mundo pela primeira vez. Sair do eu e de Descartes. Eu concordo quando se diz que é preciso um retorno às coisas. Desprezar a natureza dos meios e voltar às coisas. Os meios são irreversíveis e diretos tanto quanto as coisas. Highways, às quais percorremos em alta velocidade. Não sei por que pensadores velhos põem em pauta assuntos maçantes como o papel das redes sociais, do Google e das demais “inovações” de antiquário. Sempre estivemos, desde as cavernas, cercados de realidade “virtual”; desde as pinturas rupestres, passando pelos livros e chegando às mensagens de texto pelo smartphone. Etimologicamente, “virtual” é muita coisa. Há uma aceleração na vida (e na linguagem com que se expressa) porque há uma aceleração no ser.

Tanto em “Limitless” quanto em “Lucy”, o genérico para massas, há uma associação muito feliz entre a amplificação das (im)potências cognitivas e o uso de entorpecentes. Just do it: para mim, não há metáfora melhor para focalizar o novo homem. Como queremos tudo e para ontem, inclusive nossa salvação eterna e terrena, nosso cérebro trabalha como um workaholic. Evidente que é um trabalho de Sísifo, da maneira como foi configurado. A sensação de esgotamento e a necessidade de paliativos se sobrepõem, fazendo com que a indústria cultural engula o mundo por inteiro. Tudo promete saciar no mundo atual. Tudo é publicidade. Tudo a nossa volta funciona, com efeito, como uma morfina natural; apesar de seu caráter mórbido, penso que há nisso também um retorno às coisas. Já viu como os japoneses são obcecados pelo imagético?

Em certo ponto do filme, Eddie é repreendido por Linda em virtude de seu estado de degeneração e torpor. Seus negócios também não se mantêm. “Speak slowly and clear, please…“, ele diria. Não dá para viver em Highways sem limite de velocidade, é o que o filme dá a entender. Mas há a força inercial da contemporaneidade, que quis substituir a luz e, descarrilando, arremessou os passageiros no precipício. Não muito diverso do destino de Eddie.

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