A Prudência Debilóide da Malandragem

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Tem gente que acha que ser solícito e previdente é sinônimo de ser otário e cricri. Jesus se sacrificou no calvário porque, no fundo, era “um otário” -diria o mau ladrão. Bom mesmo é fazer o que quiser, como apregoava o distinto (pela safadeza) Aleister Crowley! Bom mesmo é beber vinho, comer a mulherada e gastar muito dinheiro! E o resto que se foda…

Seguindo o espírito de jegue dos “gênios” da malandragem, o “jeitinho brasileiro”, adaptado a nossa realidade, vai dizer que bom mesmo é construir casa próxima à margem do rio ou em cima de barranco. Afinal, a gente não paga IPTU e, se der zica, a gente põe a culpa na Prefeitura, que deve zelar por nosso bem, ou no próprio Deus, por motivo semelhante.

O Estado brasileiro é como uma mãe abastada de 10 filhos que fica controlando cada mínimo detalhe da vida de suas crianças. E o grande mal da maioria dos brasileiros mimados pelo Estado Super-Nanny é acreditar que, se o mundo não gira em torno de sua pessoa, tem alguma coisa de errado. Com o mundo, é claro.

À época da catástrofe em Nova Friburgo, passamos perto de um vizinho nosso de bairro que tinha uma casa enorme encostada num barranco imenso. Perguntamos a ele se não tinha receio de ficar lá. Chovia muito e, lógico, conforme a água vai se infiltrando na terra, acaba por amolecê-la; mais cedo ou mais tarde, como se fosse lama, a estrutura fica comprometida e desaba. Mas nosso vizinho não queria sair de dentro de casa e se abrigar num daqueles refúgios organizados pela Prefeitura; dizia ele “que confiava muito em Deus”.

Esse vizinho foi um dos muitos que morreram soterrados em 2011.

Conheço muitos crentes que concebem Deus como uma babysitter cósmica. Só que não. Se você se comportar direitinho, vai fazê-lo para a sua própria prosperidade, não porque espera que Papai Noel traga presente no fim do ano. Ser próspero é levar uma vida digna, do ponto de vista espiritual. A razão de dizermos às pessoas que elas devem buscar o Reino dos Céus antes e deixar que Deus acrescente as demais é esta: primeiro o essencial, depois o supérfluo. Primeiro a obediência, depois o maná. Deus sabe da necessidade de cada um; então não adianta cruzar os braços no deserto e fazer biquinho. Se o objetivo é Canaã, prossiga adiante.

Muita gente morreu em Friburgo apenas porque foi displicente com a própria vida. Não digo que não foi lamentável ou que Deus tenha alguma coisa a ver com isso. Na verdade a questão é mesmo que Deus não teve nada a ver com isso desde o princípio. Esse foi o erro. Ignorando que foram criadas com livre-arbítrio e que são copartícipes na obra da Criação, os seres humanos prevaricam ao exigir de Deus que Ele faça por eles o que eles não fazem nem por si mesmos.

Como exigir justiça sem praticá-la? Como exigir segurança ao ser temerário? Com efeito, colhe-se tempestade ao se plantar vento. Se você fica devendo, os juros incidem. Aritmética aplicada.

Outro dia eu e meu irmão estávamos assistindo a um equilibrista que atravessava, de ponta a ponta, andando sobre a corda, o vão imenso entre dois prédios altíssimos. Ele queria entrar no Guiness Book ou coisa parecida. Uma verdadeira idiotice e puro exibicionismo inconsequente. Meu irmão se voltou para mim e perguntou: “Se esse cara cair, ele vai para o inferno, certo?” Eu respondi: “O que você acha?”

Vem vindo janeiro por aí e as chuvas na Região Serrana têm se intensificado. Não obstante, muitos friburguenses vão brincar de “atravessar a corda” mais uma vez, recusando-se a sair de suas casas em caso de risco iminente de desastre. Afinal, a pessoa pode ficar sem casa ou ter roubada a TV novinha; por isso faz todo sentido do mundo hipotecar a própria vida!

Alguns acham que ter fé é acreditar na existência da Defesa Civil ou de Deus. Ou da Prefeitura. Mas esse tipo de fé não salva ninguém de porra nenhuma. A verdadeira fé consiste em acreditar e confiar em Deus e na Defesa Civil, que têm em você. Primeiro a gente tem que ter capacidade de acreditar em nós mesmos, a fim de melhor agirmos. Se não fazemos por nós mesmos, quem o fará?

A não ser que você seja dono de granja, não dá para contar com ovo no cu da galinha. Não pagou o IPTU e espera que a Prefeitura tenha recursos. Não acreditou na Defesa Civil e espera que a tempestade sucumba à força do pensamento positivo. Não faz porra nenhuma direito e espera que Deus o leve no colo. Porra, meu irmão… assim você está pedindo para tomar no cu.

É sintomático no Brasil a ideia de que os outros são responsáveis por nós. Enquanto continuarmos pensando assim, ficaremos a vida toda recolhendo os entulhos do terceiromundismo, à mercê do mundo natural, da boa e da má fortuna. Não é porque “Deus quis”, porque a Política é “inútil” ou porque os outros “não são solidários”. Antes, nós é que devemos acreditar, ser empenhados na política e solidários um com os outros; à medida que plantamos bem, ficamos surpresos com a época da colheita. “Por que esse povo está ainda reclamando? Diga a eles que continuem!”

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