Pílulas Crônicas 2.0.

Padrão

Kenshin Himura

Na aritmética de uma relação a dois, um mais um é igual a menos um e mais Eu. Mas é claro que estou falando de competição. No amor e na amizade, a história é outra.

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Já dizia o Jedi Supremo que devemos ter uma espada. E aqueles que não a tiverem devem vender o seu manto para comprar a sua. Pacifista é o caralho.

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A reta razão supera a paixão. Os gregos bem o sabiam. Por isso o verdadeiro herói é Ulisses, não Aquiles.

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Recentemente eu conversei com uma menina e lhe disse, sem querer, algo que a contrariou. Ao invés de me afastar, ela fez questão de contornar a situação. Foi compreensiva. Então outra mulher se aproximou de nós dois e, entrando na conversa, fez a ela praticamente a mesma pergunta que eu lhe fizera. A menina ficou transtornada e foi rude.

A juventude é estúpida, mas na proporção exata que lhe concede uma virtude que normalmente se perde com a senilidade intelectual precoce. A virtude dos instintos põe tudo em seus devidos lugares e faz com que a naturalidade dos corpos transcorra em harmonia com o córrego límpido e translúcido do tempo/espaço. Não há teorias físicas nem metafísicas. Não há teses de doutorado desnecessárias.

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As mulheres normalmente acham que a dor não tem justificativa. Acham que quem causa dor deve sentir dor. Para criar empatia. Ou por vingança. Sobretudo quando são elas as vítimas, não os algozes.

Mas a dor é apenas a manifestação física ou psicológica de um sofrimento. O que importa saber, sobre a dor, é o para que e o por quê. Precisa de um itinerário. Se um ladrão rouba, importa que lhe seja infligida uma pena, a fim de que se emende. Não deve ser punido por ter provocado dor na vítima, mas por ter lhe cometido uma grave injustiça, que resultou em dor. A dor em si é um ponto no espaço.

Se um trocador não me dá o troco correto, é injusto sentir dor ou raiva dele: é bem plausível que ele tenha se equivocado, uma vez que sequer vai lucrar com aquilo. A paixão é a grande inimiga do bom senso e frequentemente suja tudo de malícia.

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O problema com os pedantes é que eles fazem teses de doutorado em Física Quântica até para se decidir se o pulmão quer que eles respirem. O óbvio ululante é para eles um mistério insondável. Fora isso, eles têm todas as certezas do universo e a chave intelectual para a redenção humana.

E o leitor não pense que falo hipoteticamente. Falo porque eu conheço mesmo gente assim.

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Não suporto quando me dizem que a literatura deve ser lírica, épica ou dramática. Categorizações de uma época em que até tratados de medicina eram escritos em verso. Suporto os gêneros literários todos, os “pós-modernos”. Incluo os animes. Todas as mimeses.

Vê como é curioso que o Japão saiba disso mais do que qualquer outra nação! Os tradicionais o traduzem com mais ênfase e entusiasmo. Porque são observadores. Parece que a transição imediata do medievo para o hodierno traz aquela sensação de espanto mesclada com a de dejavú -algo muito próximo do que a Tenente Ripley viveu, ao acordar fora de tempo na cápsula de hibernação da Nostromo.

A intuição aguçada mais do que a de seus contemporâneos. As flores de sakura a cair, anunciando o fim da Primavera do Espírito. Vem a escuridão a crepitar os calhamaços de alfarrábios, os antigos pergaminhos. Ronin.

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Por mais respeito que eu tenha por Orlando Fedeli, não vejo os protestantes com tão maus olhos assim. Existem aqueles dentre eles que possuem boa vontade, ainda que incipiente. Não o fosse, como poderiam dizer coisas boas?

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Como posso julgar os outros com o rigor que meus pastores não impuseram nem a mim mesmo? Também já fui de esquerda. E eu não era homem de má vontade. Com efeito, existem muitos marxistas e outros que, turvados pela escuridão do ressentimento, não conseguem enxergar o farol da Verdade.

Uma mão estendida ao náufrago às vezes faz muito mais sentido do que dois punhos cerrados.

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Como minha mente muda de canal rápido demais, confio muito nos meus sentidos e na minha capacidade de estabelecer abstrações. É como uma máquina que, acessando uma linguagem de programação ultraveloz, procurasse reter os dados criptografados. Um bom hardware, sem dúvida.

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Na Era Meiji, ser adepto do Bushido é correr risco de vida. Difícil andar sem ser importunado por esses guardas da modernidade. Mas não há pactos entre homens e leões, já dizia Aquiles. Jogue Daniel em covas e ele retornará ao amanhecer.

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O verdadeiro Livro da Sabedoria revela, em Isaías: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! Ai daqueles que são sábios aos seus próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo! Ai daqueles que põe sua bravura em beber vinho, e sua coragem em misturar licores; ai daqueles que, por uma dádiva, absolvem o culpado, e negam justiça àquele que tem o direito a seu lado! Por isso, assim como a palhoça é devorada por uma língua de fogo, e como a palha é consumida pela chama, assim a raiz deles sucumbirá na podridão e sua flor voará como a poeira (…)”

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Querer suprimir a injustiça do mundo ou do eu pela força de um livro é ser tolo como um puritano ou como um marxista de Ensino Médio. Não são doutrinas que fecundam a terra, mas o que lança sementes no coração dos homens é um caráter vigoroso, um exemplo real. Uma lição que Yagami Raito não aprendeu.

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Uma criança chora porque desabou a pirâmide de cubos que construía. Eu olho, analiso e digo: “Deveria ter posto mais cubos na base e mantido a simetria”. Então ela chora com mais vigor. A mãe aparece e reclama: “Não vê que ela está sofrendo!?”

É por isso que eu digo que filhos únicos ou filhos criados pela mãe devem ter pelo menos mais um irmãozinho.

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Considerai, ó povos todos, que o castigo de Heitor não foi injusto! Como militar e guardião da Perfídia, teve seus louros devidos. Vaga pelo Hades sem olhos, orelhas e língua. Corpo arrastado junto aos muros de Tróia. Sombra entre sombras.

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