A Compreensão da Filosofia

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Julian Marias

A filosofia, como tipo de raciocínio, não apresenta uma complicação especial. Ante a considerável simplicidade do pensamento filosófico – que, em princípio, é acessível a qualquer pessoa normal, contanto que não o mascarem com uma terminologia abstrusa e absolutamente desnecessária -, outras disciplinas, como por exemplo a matemática, têm maiores dificuldades.

Contudo, tem-se por evidente – e de certo modo é verdade -, que as pessoas muito jovens não entendem a filosofia. Uma justificativa para esse fato é que a filosofia consiste em fazer as perguntas “radicais”, aquelas que dizem respeito à própria realidade e que constituem a condição para toda a verdadeira compreensão. Pessoas muito jovens podem entender o raciocínio filosófico – que é mais simples do que o que usam em álgebra ou em geometria -, mas não o sentido das perguntas, isto é, aquilo “do que se trata”. A primeira coisa a entender é por que são necessárias certas perguntas.

Por isso, a única maneira para, em idade jovem, compreender a filosofia, é contemplá-la na sua história: por que alguns homens, em determinadas circunstâncias, para poderem viver, para saberem a que aderir, para serem o que pretendiam ser, tiveram que se propor certas perguntas. E, assim, vê-se com total clareza que aquela tarefa tinha sentido, que aquelas perguntas eram necessárias, e que as respostas “tinham razão”.

Se continua a se pensar – e tendo em conta que as circunstâncias do mundo vão mudando -, descobre-se que aquela razão não era “suficiente”, que não era inteiramente satisfatória, que era necessário algo mais: e deparamos com uma nova formulação das perguntas e com a necessidade de encontrar outras respostas, que parecem mais justas e verdadeiras, mais compreensíveis.

E assim sucessivamente. As perguntas vão sendo refinadas, vão-se fazendo mais justificadas, imperiosas e profundas. As respostas, aquilo a que chamamos “as diversas filosofias”, vão respondendo a essas perguntas e descobrimos a sua necessidade e a sua razão de ser. Em suma, compreendemos, não só cada doutrina filosófica, mas também a sua motivação, a sua inevitabilidade, o seu sentido. Vemos que não se trata de um catálogo de opiniões ou de meras “idéias”, mas de um “argumento” inteligível da história do homem, pelo menos do homem ocidental. E se pertencemos a esse mundo, a essa variedade do humano, entenderemos onde estamos, quem somos e –pois pode-se perfeitamente entender– porque é que coisas tão diferentes foram pensadas.

Não só se entende cada uma delas, mas também a sua pluralidade, a sua continuidade, a sua coerência, a justificação no seu conjunto, e com isso o sentido de uma história de mais de dois milênios, que é parte de nós, que trazemos dentro de nós, sem a qual não sabemos bem quem somos nem quem podemos ser.

Como se trata das perguntas radicais, descobrimos que sem elas toda a iluminação é deficiente; seguindo a seqüência das questões com que o homem se vem defrontando, desde a Grécia até a Europa toda e sua conseqüência: o mundo ocidental.

A teologia, as ciências da natureza, as da sociedade, as da política e da economia, as que fazem possível a convivência e a regulam, surgiram em torno da filosofia e, em boa medida, por ela condicionadas.

O esquecimento da filosofia, tão generalizado hoje, significa black-out geral, o obscurecimento das questões com as que nos defrontamos, a certeza de que estão propostas de um modo insuficiente, parcial e, em última instância, falso.

O problema é que a maneira usual de estudar filosofia torna a sua compreensão quase impossível para as pessoas muito jovens e muito difícil para os adultos. A atomização das questões torna-as ininteligíveis. Quando se estuda a obra de alguns pensadores isolados, não se entende nada. Porque é que tal filósofo disse o que disse? Parece puro capricho, arbitrariedade. Estuda-se a obra de outro, três séculos posterior, e é igualmente incompreensível. Sem a continuidade variável, o que chamei de “sistema de alteridades”, não se pode compreender.

Tudo o que é humano requer um “por quê” e um “para quê”, uma motivação e uma finalidade. Sem elas, nada é compreensível e tudo o que nos resta é uma coleção de fatos “brutos”, que não permitem a intelecção. Daí o perigo de que o homem contemporâneo se torne um primitivo cheio de notícias.

Falei do risco de que a filosofia fique mascarada por uma terminologia abstrusa. Esse perigo é tão amplo que afeta todas as disciplinas. Os chamados “especialistas” usam quase sempre um jargão pedante e ridículo, que começa a causar escândalos e acabará por provocar indignação.

Em filosofia isto é absolutamente desnecessário, mais ainda, contraproducente. A filosofia pode e deve ser formulada com palavras da língua, quanto mais viva melhor, e ainda mais se trata-se de uma língua ilustre, polida por um milênio de uso literário ininterrupto e enriquecida ao longo de tantas gerações. A língua é já, por si, uma primeira interpretação intelectual da realidade; o seu vocabulário é a primeira articulação do real: um sistema de distinções, conexões e separações. A sua sintaxe corresponde a um estilo mental, a uma maneira de viver. Significa, além disso, a acumulação de experiências seculares, que resumem a história do povo em questão.

E, quando se trata de europeus – e, em geral, de ocidentais – , todos eles trazem consigo a tradição grega e latina; ao longo da Idade Média e da Idade Moderna as grandes línguas europeias conviveram, influíram-se mutuamente, enriqueceram-se, de maneira que a omissão ou o esquecimento das outras é uma espécie de separatismo linguístico, uma violência contra a realidade.

A filosofia, para voltar ao núcleo da questão, foi feita em grego, em latim e em algumas outras línguas distintas, mas não estranhas, irrenunciáveis. Foram-se sucedendo na primazia, imperaram, não pelo poder militar, político ou económico, mas pela capacidade de criação, pelo rigor intelectual, pela fecundidade do pensamento. A língua alemã nunca foi tão interessante e fecunda como na época em que a Alemanha estava dividida e desmembrada, invadida por Napoleão, entre Kant e Hegel.

E as línguas são “comunicáveis”. A partir de uma delas (de qualquer uma delas) deve-se considerar e, na medida do possível, possuir as outras. Unamuno conta que um velho professor seu dizia: “Este argumento, como conclui, é em latim”. Agora, muitos acham que as suas doutrinas só são válidas em inglês; outros, ainda recentemente, pensavam que a filosofia era possível unicamente em alemão. São diversas formas de provincianismo.

Estamos num momento inquietante, de indecisão. Há um titubear, como quando se atinge uma encruzilhada. Podemos empreender um caminho fecundo, que tenha em conta as exigências da realidade; podemos desprezá-la e esquecê-la, preferindo o capricho, a ficção ou o fanatismo. O que não podemos fazer é renunciar a exercer a liberdade, a escolher nosso destino.

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Autor: Julian Marias

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