Destruidores da civilização: um panorama da modernidade

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Homem

Muitas e variadas filosofias debilitaram a sociedade desde dentro e fizeram surgir, dos escombros da Escolástica e do aristotélico-tomismo, uma erva daninha que contaminou todas as áreas do saber. Filosofias que duram vinte anos, teorias políticas que sobrevivem como zumbis, pseudo-ciências com status de fatos incontestáveis e formas artísticas que se tornam datadas são algumas das aberrações nascidas dos laboratórios do pensamento moderno, em seu esforço antropocêntrico e egolátrico que terminaria por se tornar um projeto de substituição da realidade por um simulacro, criado à imagem e semelhança… do homem.

Veremos, em traços gerais, em que consiste essa revolta, tentando explicar as mais importantes causas, a nosso ver, da decadência do mundo atual.

René Descartes

A falsidade do cartesianismo

Não são as ideias que existem, mas as substâncias individuais é que são verdadeiramente. Ou seja, as ideias não existem independentemente daquilo que percebemos; há uma união indissociável entre uma coisa e outra. Aristóteles o demonstra com toda facilidade em sua Metafísica. Primeiro percebemos com os sentidos e depois fazemos abstrações. Primeiro chegamos às coisas e depois buscamos as raízes das coisas, para enfim depurá-las. Primeiro partimos das percepções, depois fazemos abstrações generalizantes e, retornando, delineamos o objeto do conhecimento. Tudo parte do simples para alcançar o complexo, como num quebra-cabeças cujo todo fosse coerente com as partes.

Por isso René Descartes foi tolo ao dizer que, por não podermos ter a convicção de que vivemos na realidade ou no sonho, o demiurgo criador do mundo seria um “gênio maligno”. Está escrito na Bíblia que a “humildade é o princípio da sabedoria”. Ora, se não podemos confiar em verdades axiomáticas e na evidência, então em qual dado mais seguro nos fiaremos afinal? O próprio Descartes prefigurou uma resposta conveniente, sem levar a cabo a conclusão mais que óbvia: os objetos que existem nos sonhos teriam que existir na realidade, ao menos em “forma matemática”, para que pudéssemos pensar neles. Mas, se eu posso sentar num sofá, ler um livro e sentir prazer ao fazê-lo, claro está que não lido apenas com objetos geométricos genéricos, mas com objetos reais que, se existem no sonho e não despertam estranheza, guardam correspondência estrita com a realidade; pois temos uma relação natural com aquilo que já conhecemos, instintiva. Se, pelo contrário, estamos no mundo dos sonhos e nos deparamos, por exemplo, com edificações que nos causam estranheza pela forma, logo temos a certeza de que esses objetos oníricos, justamente por podermos pensá-los e ainda que como esdrúxulos, guardam uma relação mais genérica e, ao mesmo tempo, mais obscura com a realidade.

E, seguindo essa mesma linha de raciocínio, se eu estou “preso” nos pensamentos pelo demiurgo maligno e ainda penso em objetos prazerosos, então posso concluir logicamente que minha experiência originária tem que ter sido, forçosamente, boa. Por “experiência originária” entenda-se não aquilo que se oferece ao raciocínio, mas aquilo que guarda relação estrita com a realidade em si. De modo que não resta outra conclusão. Ou existe uma realidade, ainda que remota, que corresponda o máximo possível à experiência do pensar, ou há uma equivalência entre a ideia e a realidade, o que torna “benigno” o demiurgo automaticamente -ainda que o “eu” esteja “encarcerado” na ideia. Mas esteja claro que nem por isso o pensar “xeroca” a realidade ao mesmo tempo em que se exercita livremente: antes, só se pôde pensar em virtude de uma experiência, anterior (e, nesse caso, imaginária) ou quase concomitante (ou ambas, o que vem a ser o mais comum).

O único erro consiste, portanto, em dissociar o “eu” do “ser”. Descontextualizá-lo. Ora, é um absurdo imaginar que o “eu” cria a realidade. Assim o fosse, não haveria morte, doença ou outras pessoas. Não haveria comunicação. Grávidas não deixariam de estar grávidas apenas porque não soubessem. Não existe conhecimento se não há o sujeito conhecedor de uma ponta e o objeto cognoscente da outra. Mesmo num diálogo, é necessário que o foco esteja no objeto real sobre o qual os sujeitos dissertam, para que haja conhecimento em comum. Assim, se João fala de poste, Mariazinha fala de sabão e ambos creem estar conversando sobre lâmpada, é evidente que nenhum dos dois está discutindo sobre coisa alguma.

Macaco 6

O nominalismo e os materialistas modernos

No entanto, quando eu digo que as ideias não existem, quero dizer que elas não existem ontologicamente, senão como substrato lógico daquilo que definem. É preciso esclarecer para evitar confusão. Eu predico de um grupo semelhante de seres características em comum que os definem de maneira genérica, mas que não podem abarcar todo o individual. Quando falo que o Ipê é uma árvore, falo acertadamente. Mas o Ipê é diferente de outras árvores. O que não quer dizer que ele não seja uma árvore.

Assim, quanto mais complexo o ser, maior a distância entre sua natureza particular e sua relação com outros de sua espécie. Pedras se diferenciam muito pouco; animais se distinguem bastante; e é evidente que seres humanos podem ter entre si diferenças gritantes. Mas isso não quer dizer que “ser humano” seja um nome convencional que atribuo ao indivíduo “Pedro”. Não é isso que se quer dizer quando se afirma que “apenas as substâncias individuais existem”. Pedro existe enquanto Pedro e enquanto ser humano; não há separação de uma natureza da outra.

Ora, o que o nominalismo afirma, pelo contrário, é isto: os seres só podem ser conhecidos individualmente. O Rex, meu cão, só pode ser conhecido como Rex. “Cão” é uma abstração apenas, sem existência real. Para o nominalismo, só existe a matéria; as ideias foram banidas do mundo real. Está claro que, levando-se a sério esse postulado, não pode haver conhecimento algum. Não pode haver ciência. Se só podemos conhecer individualmente, então não podemos conhecer nada. Porque o conhecimento humano se processa por abstrações e pela identificação de padrões. Para identificar padrões, é certo que deve haver relações análogas entre coisas distintas, e relações análogas entre as coisas que mais se assemelham. Assim, quer esteja eu dirigindo um Ford Ka ou um Toyota Corolla, em uma hora eu posso sair do ponto A e chegar ao ponto B, distante 50km de A, se eu mantiver a velocidade média de 50km/h.

O nominalismo começa como uma radicalização da ciência experimental e termina como puro irracionalismo. A idolatria da ciência é a anticiência por definição, porque é a alienação do todo pela análise exclusivista da parte; a parte amputada do todo impede o conhecimento verdadeiro. Se um cego tateia uma tromba e a chama de “elefante”, isso não será automaticamente elefante para ele nem para os demais. O que o elefante efetivamente é não muda pelo que dele pensamos ou experienciamos. Mas se podemos identificar padrões na análise do objeto, então nos aproximamos de delineá-lo, a depender, claro, de seu grau de complexidade e da dificuldade de apreendê-lo. De modo que o cego não estava completamente cego, mas teria sido bastante preciso com os olhos da razão, dadas as circunstâncias.

Por isso os darwinistas erram ao dizer que o macaco engendrou o homem baseados apenas em semelhanças físicas e imaginação evolutiva. Mas acertam ao intuir intelectualmente as analogias, ainda que simplórias e ridículas. De fato, o homem é superior ao macaco e, de fato, há mudanças no universo, rs. Mas as mudanças, por incrível que pareça, podem ser para pior. E os macacos mais perfeitos são aqueles que mais se assemelham a macacos, não a cientistas evolutivos pouco evoluídos.

Um macaco enfiado em jaleco é apenas uma aberração da natureza. Só existe em filmes de ficção e em outras aberrações da natureza, como livros de fantasia macaqueando ciência biológica.

Hegel

O hegelianismo e a dominação do mundo

Seguindo as veredas abertas pelo cartesianismo, veremos se desenvolver, entre outras filosofias, o nefasto Idealismo Alemão. Há muitos pensadores importantes que fizeram parte dessa escola, mas eu gostaria de dar uma ênfase especial a Hegel. Discípulo do gnóstico Jakob Boehme, ele criou um sistema metafísico às avessas que praticamente coordena, como um ventríloquo, as mentes deformadas pelo esquerdismo mais brutal e crasso.

Pois bem: em que consiste o definir? Significa localizar um conceito enumerando-lhe as características comuns. Quanto mais vasto o conceito, mais restrito o número de entes a que se reporta; quanto mais genérico, maior. Assim, o conjunto dos números racionais é mais abrangente do que o conjunto dos números naturais, que abarca números com características bem mais peculiares entre si. Assim, o conceito de “alemão da Baviera” é mais rico em notas particulares do que o conceito de “ser humano”.

Não podemos definir o ser. Por ser muito extenso o seu conceito, dele podemos predicar qualquer coisa. E falar qualquer coisa sobre algo equivale mesmo a falar nada, porque não se restringe esse algo a seus limites próprios. Aristóteles nos ensina que a definição daquilo que existe comporta também a sua finalidade; em outras palavras, o ser só se cumpre se se torna efetivamente o que é, se sua finalidade se adéqua a sua forma. Com efeito, se do ser nada se predica, tal qual do nada, então o Nada e o Ser se equivalem. De modo que a finalidade do Ser é o Nada, e a finalidade do Nada é o Ser.

Mas é claro que isso é apenas um jogo lógico de palavras. Separada da realidade, a lógica é apenas uma brincadeira de Lego. Qualquer um que tenha olhos pode refutar, pela evidência dos sentidos, os malabarismos retóricos dos gnósticos.

Mas não é apenas isso. Levada ao extremo, a lógica bizarra de Hegel trará implicações catastróficas a todas as áreas do saber, seja Estética, Política ou Ética. Vejamos esta passagem bastante elucidativa da Fenomenologia do Espírito:

“Aliás, a substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou – o que significa o mesmo – que é na verdade efetivo, mas só à medida que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tomar-se-outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade reinstaurando-se, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim.

“Assim, a vida de Deus e o conhecimento divino bem que podem exprimir-se como um jogo de amor consigo mesmo; mas é uma idéia que baixa ao nível da edificação e até da insipidez quando lhe falta o sério, a dor, a paciência e o trabalho do negativo. De certo, a vida de Deus é, em si, tranquila igualdade e unidade consigo mesma; não lida seriamente com o ser-Outro e a alienação, nem tampouco com o superar dessa alienação. Mas esse em-si [divino] é a universalidade abstrata, que não leva em conta sua natureza de ser-para-si e, portanto, o movimento da forma em geral. Uma vez que foi enunciada a igualdade da forma com a essência, por isso mesmo é um engano acreditar que o conhecimento pode se contentar com o Em-si ou a essência, e dispensar a forma – como se o princípio absoluto da intuição absoluta pudesse tomar supérfluos a atualização progressiva da essência e o desenvolvimento da forma. Justamente por ser a forma tão essencial à essência quanto esta é essencial a si mesma, não se pode apreender e exprimir a essência como essência apenas, isto é, como substância imediata ou pura auto-intuição do divino. Deve exprimir-se igualmente como forma e em toda a riqueza da forma desenvolvida, pois só assim a essência é captada e expressa como algo efetivo.

“O verdadeiro é o todo. Mas o todo é  somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento. Sobre o absoluto, deve-se dizer que é essencialmente resultado; que só no fim é o que é na verdade. Sua natureza consiste justo nisso: em ser algo efetivo, em ser sujeito ou vir-a-ser-de-si-mesmo. Embora pareça contraditório conceber o absoluto essencialmente como resultado, um pouco de reflexão basta para dissipar esse semblante de contradição. O começo, o princípio ou o absoluto – como de início se enuncia imediatamente – são apenas o universal. Se digo: ‘todos os animais’, essas palavras não podem valer por uma zoologia. Do mesmo modo, as palavras ‘divino’, ‘absoluto’, ‘eterno’ etc. não exprimem o que nelas se contém; – de fato, tais palavras só exprimem a intuição como algo imediato. A passagem – que é mais que uma palavra dessas – contém um tomar-se Outro que deve ser retomado, e é uma mediação; mesmo que seja apenas passagem a outra proposição. Mas o que horroriza é essa mediação: como se fazer uso dela fosse abandonar o conhecimento absoluto – a não ser para dizer que a mediação não é nada de absoluto e que não tem lugar no absoluto.’

No plano individual, as recomendações gnósticas de Hegel direcionam o ente a vir a ser o que é o outro, num processo dialético de autodestruição que direcionará tudo à desintegração das particularidades numa dimensão única e indefinível, que é o ser. O Ser que é o Nada. O Nada que é o Ser Absoluto.

Na Estética, essa alucinação promoverá o desenvolvimento da arte moderna, a única que se volta contra a realidade antes de se definir como uma representação da mesma –a única que se busca como substituta da realidade, arauta do novo e consciente do processo de transcendência na imanência. A arte antimoderna, pelo contrário, busca a transcendência a partir da realidade mesma, ao invés de alcançá-la por sua superação ou antítese. A arte moderna é sobretudo rebeldia.

Na Política e na Ética, o hegelianismo vai se expressar de maneira mais contundente através do marxismo. Trata-se da busca pela revolução constante dos modos de ser em sociedade. Só se é em sociedade. Só se é (sub)imerso no todo. A estrutura social, a moral e tudo quanto existe só é imperfeito porque ainda não foi superado, porque ainda não deu lugar ao novo. Nós somos o meio, o processo. Como num círculo, devemos ser o Princípio e o Fim. Com efeito, trata-se da divinização da humanidade ou, para ser mais preciso, da ascensão do ser caído –o verdadeiro Deus, que seria como que a ressurreição do corpo místico de Satã. O ser verdadeiro cai, esquece-se de sua divindade e, enfim, retorna a si mesmo. Gnose pura. A gnose proposta por hereges cristãos sempre foi uma disciplina ascética individual, mas a gnose esquematizada por Hegel refere-se à estrutura mesma da realidade tal como ele a concebe: a realidade escura do Não-Ser.

Ainda que o relativismo contemporâneo tenha outras bases de sustentação, outros galhos, suas ramificações se desdobram a partir de uma raiz comum que foi exposta por Hegel. A metafísica negativista do filósofo alemão, metafísica diabólica do não-ser, é a fonte da qual todo progressismo militante extrai a seiva de suas ideias. Aqueles que possuem mais consciência dessas origens são os senhores de nossa sociedade, que fomentam a corrupção da mesma ao financiar grupos terroristas, comunistas, esquerdistas em geral e outros facínoras de alta periculosidade.

Jackson Pollock

O subjetivismo e o relativismo

Os subjetivistas vão dizer que dos objetos cognoscíveis conhecemos a priori apenas os fenômenos, nunca a realidade em si. Mas as representações psicológicas do objeto são, no sujeito cognoscente, produto dos sentidos. E o estímulo sensorial é, por sua vez, produto real do objeto cognoscível, que atua ativamente no sujeito conhecedor. É correlativo. Uma via de mão dupla. Ainda que possa haver projeções do sujeito no objeto, este nunca é delimitado, na mente daquele, por fantasias do sujeito, mas pela própria realidade do objeto. Se este não tivesse fronteiras, seria o indefinido, que por definição não pode ser conhecido. Ainda que o conhecimento do objeto seja superficial, pois ambíguo, ele não deixa de ser o que é: conhecimento do objeto.

Assim, mesmo os pensamentos e os sonhos só podem ser formas de conhecimento se são projeções, retroativas ou atualizadas, respectivamente, daquilo que já se conhece ou está sendo conhecido. Assim como o destino da viagem não é a estrada, o sujeito do conhecimento não tem relação com o pensar, mas com o objeto real que se projeta. Pode haver uma confusão entre o já conhecido e o objeto a se conhecer, mas esse um problema menor de ajustamento de foco, desde que haja uma analogia estrutural entre os objetos semelhantes.

De modo que podemos dizer com segurança que os loucos são precisamente aqueles que se relacionam com o pensamento do objeto, mas nunca com o objeto em si. Um louco que alisa uma pedra achando tratar-se de um camelo não está construindo pensamentos a partir de suas percepções, mas apenas percepções de seus pensamentos, que, por sua vez, nasceram de percepções abandonadas na memória. Está errado: primeiro a percepção, depois o pensamento. Primeiro o simples, depois o complexo. Como eu disse há pouco, o que o sujeito conhece, independentemente do tempo em que conhece e das circunstâncias, é algum objeto real.

E qual seria a diferença entre os fantasistas e os loucos? Os fantasistas partem do objeto; os loucos, dos pensamentos. Mesmo que ambos se restrinjam ao domínio da subjetividade, os imaginadores pensam em objetos reais, enquanto os loucos os substituem por objetos “ideais”. Há sempre algo de ideal e genérico no objeto real e particular, às vezes muito, mas não há nunca nada de real no ideal. Coexistem. Assim, por mais que seja certo que homens são seres animais com alma racional, nem sempre os homens reais correspondem ipsis literis aos ideais –mas nem por isso deixam de ser homens, como está claro.

De modo algum conhecemos os fenômenos: reconhecemos a realidade através dos fenômenos. Se interpuséssemos um lençol entre o observador e a rua e lhe perguntássemos a propósito do sinal de semáforo, ele se esforçaria por nos dar uma resposta entre amarelo, vermelho ou verde, analisando provavelmente a posição do “brilho” –porque reconhece o lençol, bem como a rua, o semáforo, o funcionamento do mesmo e sua relação com a rua. Não é que ele não conheça, mas reconhece; apenas conhece genérica e imperfeitamente, tendo conhecido antes e melhor o que lhe é semelhante. Com efeito, ele não está conhecendo outra rua, a já conhecida, mas vem a conhecer a nova através daquilo que lhe pôde predicar de comum com a velha.

O subjetivismo, ao dizer que só podemos conhecer do objeto, por intuição, o pensamento que temos dele, vai acabar afirmando a supremacia do pensar sobre a realidade, do imaginar sobre o conhecer. Um absurdo. Mesmo o imaginar requer matéria com que se plasmar; mesmo o pensar necessita o que pensar. Ainda que reconheça a existência do objeto e estabeleça o pensamento como uma etapa primeira em direção a esse objeto, o “método” do subjetivismo conduz à rua sem saída do relativismo. Destituindo o pensamento de um objeto localizável, teremos uma ciência do indefinido, do informe; por isso todo subjetivismo vai começar pelo eu, para então configurar o mundo. Ridículo. Não os argumentos, mas os fatos desmentem. Um bebê, por exemplo, não tem consciência de si; ele apenas vai adquirindo personalidade própria ao passo em que, conhecendo o mundo, molda e reconhece a si mesmo.

Nas galerias de arte moderna, o referencial é o apreciador, que constrói o sentido da obra –o “artista” é o público! Pinturas de Jackson Pollock, que não significam coisa alguma, passam a significar um monte de coisas. Uma coisa diversa para cada um, claro! Tudo se pode predicar daquilo que não tem forma definida. O indefinido aceita todas as definições, porque nada lhe define. Mas um verdadeiro artista, como um Caravaggio, agrupa referências comuns a muitos indivíduos e, articulando um arranjo coeso e original, imprime em sua obra verdadeira personalidade, pois que amalgamada com sua ordem interior -inimitável. Um rabisco de Pollock e uns quadrados de Mondrian são formas genéricas de “arte” que não dizem nada a respeito de suas almas, de sua genuinidade, mas apenas de sua necessidade de diferenciação.

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