Nietzsche e os “Metafísicos de Todos os Tempos”

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Nietzsche

“Era Deus quem, nos últimos dias da Criação, se aninhou sob forma de serpente debaixo da árvore do conhecimento. Então, ele recuperou-se de ser Deus. O diabo é apenas o descanso de Deus nesse 7º dia.”  – Nietzsche

Não é muito insólito hoje em dia ver muitas pessoas tendo contorções, orgasmos múltiplos com meia dúzia de aforismos do “filósofo” alemão que, não por acaso, se tornou um popstar do mundo contemporâneo. Nietzsche está para a filosofia assim como Michael Jackson está para a música. Claro que existem ainda aqueles que amam ouvir Beethoven e estudar Aristóteles. Mas são poucos. A maioria gosta de pregar posters do Frederico na parede e dar gritinhos histéricos ao ouvir seu nome, adoração frequentemente dissimulada sob a forma de teses acadêmicas.

A adoração idolátrica se caracteriza precisamente pelo apego às aparências e pelo menosprezo às essências. O que há de essencial no superficial? Os bezerros de ouro de todos os tempos derramam o fascínio do mistério na alma humana e seduzem através da arte com que foram confeccionados. Razões pelas quais eles costumam despertar, em seus adoradores, um sentimento difuso, uma fantasia alumbrada de união mística, de entusiasmo. Mas bezerros de ouro são, na verdade, opacos: quem os reveste de divindade são entidades nada divinas, com o brilho turvo dos olhos das crianças cegas. No fundo dos ídolos está a superfície especular, e no fundo do espelho está a areia, das divagações ermas e estéreis. Êxodo do Êxodo, do pó ao Pó.

O que há no fundo de Nietzsche? Na superfície sabemos que há o retórico habilidoso e sutil. A se confundir com a superfície, no âmago do poço sem fundo, temos o cientista que desistiu de servir à comunidade para se tornar o herói que serve tão somente a si mesmo. Um fanfarrão no sentido estrito. Um Aquiles (ou uma bacante) das ágoras. Mas o filósofo que se crê descido, magnânimo, do Olimpo, das alturas celestes, na verdade é o rato que nunca subiu do esgoto, acreditando que os demais fossem da sua laia, andassem no mesmo patamar. Nem o céu nem o inferno? Pegamos pelo calcanhar.

Nietzsche nunca foi filósofo. Nunca o foi por um motivo muito simples: ele não acredita no Ser. Não apenas os metafísicos de todos os tempos, mas até mesmo um aluno de Filosofia do pré-escolar sabe bem que isso significa, ipsis literis, negar a possibilidade de qualquer conhecimento sobre a realidade. Ora, mas o que o filósofo faz da vida, senão se esforçar por conhecer a realidade? Vão dizer que é uma divergência metodológica. Que estou falando de um celebranteTrès bien! Como alguém chega a constatar que o ser não existe? Analisando… o ser. O não-ser é que não pode ser; porque o não-ser não é.

Aqueles que negam a analogia do ser não o negam verdadeiramente, mas antes acabam por afirmar, com efeito, ou a sua univocidade, ou a sua equivocidade. Os pensadores clássicos gostam de definições porque apreciam as peculiaridades; amam o que há de específico, de gourmet em cada coisa, a fim de transportar suas abstrações a um plano mais genérico. Os românticos, pelo contrário, assim como os gnósticos, amam tudo aquilo que pode caber no seu ego; tanto mais sensível e expressivo que seja, maior amor próprio terá, e mais mundano e egocêntrico será o diletante. Mas ser não consiste em uma só coisa nem são coisas completamente distintas.

Quanto a Nietzsche, claro está que falamos de um ególatra, de um Narciso. Na história da Filosofia não passamos incólumes a esses tipinhos, sobretudo quando se prestam a pantomimas de espírito. Sempre houve duas categorias conflitantes de pessoas na história do pensamento: os rábulas vivenciais e os filósofos. Estes adequam sua linguagem ao público-alvo, no intuito de que ambos possam alcançar, dialeticamente, à verdade; aqueles mascaram de elevação e verdade sua linguagem a fim de que os interlocutores se deixem manipular por seus sofisticados jogos de palavras. Algumas vezes o honesto, crendo-se possuidor da verdade, quer soar persuasivo para educar os demais; o rábula, por seu turno, quer sempre soar persuasivo porque deseja, ato contínuo, ser apreciado como a um deus: por isso mesmo ele alega que suas próprias “verdades” podem vir a se alterar (claro, depende das circunstâncias…).

Existem aqueles que se dizem ateus porque não suportariam a existência de deuses outros que não fossem eles mesmos; existem, contudo, aqueles que aceitam a realidade tal como ela se lhes apresenta. Eu digo que não há conhecimento sem metafísica. Mas os idiotas e os loucos não me entendem. Se fingem entender, afirmam logo se tratar de uma auto-ironia; mas, se assim o fosse, por que eu deveria acreditar em qualquer outra palavra que sai das suas bocas? Verdades camaleônicas e deuses proteicos têm em comum a qualidade sublime da inexistência, por isso é que é tão saboroso ignorá-los. O que existem são os homens. Os burros. Os cachorros. Os problemas de comunicação. Ciente disso, o que posso fazer é adaptar minha linguagem para persuadir todos aqueles que latem, correm atrás do próprio rabo ou zurram por aí: não existem árvores sem raízes nem edifícios sem fundação. Nem homens quadrúpedes. Nem macacos-homens. Mesmo as árvores de plástico, típicas do Natal, têm com que se sustentar; mesmo os edifícios de Lego-Lego guardam uma razão matemática que os mantêm de pé. A diferença real entre as árvores e os edifícios reais e imaginários reside no artifício (daí o “artificial”); a semelhança consiste no logos.

Eu nunca me ocuparei das razões por que sou tão sagaz, como certos palhaços, mas faço questão de desmistificar monumentos que não valem o mármore de Carrara com que se fizeram esculpir. O leitor pode se deixar fascinar pela pluralidade de referências que evoca uma frase como “Ter fé é dançar na beira do abismo”. Mas, do ponto de vista da Filosofia (ou melhor, da sabedoria popular), isso significa que não se deve ter medo de viver; qualquer outro significado é fantasioso, crepuscular. Mas, se assim o é, o conselho em nada se distingue da sábia advertência de um capiau qualquer. Ainda que o capiau seja um bardo germânico.

Nietzsche como filósofo é um excelente escritor de livros de auto-ajuda. Com a diferença irrisória e anedótica (falo sério) de que não pôde ajudar nem a si mesmo. Falam-me para crer nos mortos, mas não os creio quando me falam, apesar de minha credulidade; o platonismo para imbecis é ainda superior à necromancia filosofante. Filosofia sem ser é como diálogo sem inteligência, o rio que flui para o nada, o nada que sempre muda e permanece o mesmo nada, o paganismo ébrio e cambaleante.

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