As Três Revoluções na Filosofia

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Continuação de “Três Revoluções da Política na Sociedade”, trecho também retirado do trabalho do professor Orlando Fedeli:

      Assim como houve três revoluções na Cristandade, houve necessariamente também três revoluções na Filosofia, porque evidentemente cada Revolução se fundamentava em uma cosmovisão própria.
     Nessas revoluções filosóficas, constatamos a existência de duas correntes, que, como duas serpentes, uma vermelha outra branca, se enrolam uma na outra. Uma é a serpente do Panteísmo racionalista. Outra a da Gnose irracionalista.

     O Panteísmo racionalista diviniza o mundo material.
     A Gnose irracionalista vê o mundo material como o calabouço do espírito divino nele aprisionado. E o que dificulta a compreensão desse problema é o fato que tanto o Panteísmo como a Gnose, admitindo um pensamento dialético, isto é, a identidade dos contrários, fazem do espírito matéria sublimada e da matéria, espírito cristalizado. Os contrários seriam idênticos. Portanto, para o pensamento dialético, o racionalismo é a irracionalidade e o irracionalismo seria a racionalidade.
 
1a Revolução na Filosofia: o Cartesianismo
 
     A Reforma e o Renascimento resultaram da fusão dialética da Gnose irracionalista de Mestre Eckhart com a filosofia racionalista do Nominalismo de Frei Guilherme de Ockham. Daí, ser possível constatar dois veios dialeticamente opostos na Reforma e no Renascimento.
     Na Reforma, um é o Protestantismo racionalista com pretensões cientificista, no exame da Bíblia, com clara tendência panteísta. Outro, o Protestantismo alumbrado, pentecostal, que se crê movido irracionalmente pelo Espírito Santo, e que se revela como claramente gnóstico.
     Por sua vez, um é o Renascimento racionalista, epicurista e materialista. Outro é o Renascimento gnóstico, mágico, irracionalista do hermetismo de Marsílio Ficino e de seus discípulos, como Botticelli, Verrochio, Leonardo e Michelangelo.
     Por isso, a Filosofia correspondente à primeira Revolução foi o Cartesianismo, que continha em si, tanto um veio racionalista, como um veio irracionalista, subjetivista.
     No princípio da Filosofia Moderna de Descartes está a afirmação: Cogito, ergo sum (“Eu penso, logo eu sou”).

No cartesianismo, pela primeira vez a Filosofia deixa de partir do ser, para partir do eu. O homem moderno não olha mais para a realidade exterior a si mesmo, mas se volta para dentro de si. O primeiro conhecimento seria interior.
     Seria o pensamento que daria existência ao real.
     É dessa revolução antropocêntrica que nascerá, séculos depois, todo o subjetivismo e relativismo da Modernidade. O conhecimento é do eu. O homem deixa de buscar o conhecimento de Deus através das coisas criadas, mas a fonte do conhecimento seria o eu e dele derivaria a realidade existente. A fonte do conhecimento e do real estaria no mistério interior do homem, numa experiência mística interior com algo imanente no homem.
     Tanto que o próprio Descartes partiu de uma famosa experiência mística interior, de uma visão que o “iluminou”.
     Deus estaria no homem, e de modo substancial, como dizia a velha Gnose.
     Com Descartes o imanentismo irrompia, de novo, na História. A filosofia cartesiana, pondo em duvida o real, iniciava uma corrente negadora do conhecimento humano e, portanto, defensora do irracionalismo. Descartes separou o intelecto humano da realidade.
 
     Por outro lado — e dialeticamente — o método cartesiano afirmava que a razão humana seria capaz de conhecer toda verdade. Era o otimismo racionalista panteísta e experimentalista, oriundo do nominalismo que o cartesianismo aprofundava.
     Do cartesianismo, então, vão nascer duas tendências opostas e dialeticamente iguais:

a) uma corrente racionalista, materialista, tendente ao panteísmo, e que se manifestará mais explicitamente no empirismo inglês, e, depois, nos filósofos da Enciclopédia, com Voltaire, Diderot e D’ Alembert;
b) outra corrente de caráter irracionalista, mística e gnóstica, que se manifestará mais claramente no Pietismo protestante alemão, e no Quietismo francês, e cujo principal divulgador foi Rousseau. Essa corrente irracionalista é que dará nascimento à Filosofia idealista alemã.     Como a dialética faz coincidir os contrários como iguais, o racionalismo e o irracionalismo se identificariam.
     Com efeito, mesmo um pensador moderno que não pode ser elogiado, Karl Popper, mostrou o caráter dialético do racionalismo ao mostrar que “O racionalismo é uma fé irracional na razão” (Karl Popper, “A Sociedade Aberta e seu Inimigos“, ed. Edusp- Itatiaia, São Paulo- Belo Horizonte, 1974 , dois volumes, Vol. II, p. 238). Pois se cada razão individual se sabe limitada, como poderia a razão humana pretender entender tudo?


                                             2a Revolução na Filosofia: o Idealismo alemão

     O fundamento mais profundo da Revolução Francesa e do liberalismo que dela surgiu, sem excluir Rousseau, vem do Idealismo alemão de Kant, e que foi posteriormente desenvolvido pelos gnósticos Fichte, Schelling, Hegel e Schleiermacher.
     O Idealismo alemão vai aplicar o livre exame de Lutero ao próprio ser. Kant foi para o Protestantismo, — secundum quid, claro – o que São Tomás foi para a Escolástica. O Idealismo vai desenvolver as tendências subjetivistas subjacentes no “Cogito, ergo sum” de Descartes.
     Para o Idealismo alemão, a verdade seria subjetiva. A idéia do sujeito conhecedor é que projetaria, na existência, o ser real. Da idéia é que surgiria o mundo real. O ideal geraria o real.

     A verdade então não seria objetiva, mas sim subjetiva, pessoal. Cada um teria a sua verdade.
     Na Filosofia escolástica, a verdade foi definida como sendo a correspondência entre a idéia do sujeito conhecedor com o objeto conhecido:

  CONHECEDOR          <——————————-      VERDADE


IDÉIA DO SUJEITO       <——————————-     OBJETO CONHECIDO
 
 
     A inteligência capta o objeto como, analogamente, uma máquina fotográfica capta a imagem de uma coisa. Todas as inteligências captam a mesma realidade.
     Por isso, a verdade é Una, Imutável, Universal (em qualquer lugar e em qualquer tempo, a verdade é sempre a mesma. 1 +1 = 2, sempre e em toda parte) e Objetiva (é o objeto que produz a idéia dele em nosso intelecto)

Para a filosofia idealista, a verdade seria o que o sujeito acha. A mera opinião se identificaria com a verdade. Conseqüentemente, o Bem e a Beleza também seriam meramente opinativos.
     Para o Idealismo é a Idéia que produz o objeto. O pensar produziria o ser.
     Ora, isso só é verdadeiro em um caso: no caso da criação de Deus. Isso só ocorreu com a Sabedoria divina ao criar o mundo a partir do nada.
     Quando Deus cogitou cada coisa, ela passou a ser tal qual Deus a concebera em seu Intelecto divino. Por isso, está escrito que foi “na Sabedoria que Deus fez todas as coisas, e que no Verbo de Deus é que “todas as coisas foram feitas, e sem o Verbo nada foi feito”.
O Idealismo, ao afirmar que, aquilo que cada sujeito pensa, passa a ser o real, faz de cada inteligência individual o próprio Verbo de Deus. O Idealismo divinizou o homem.
     Foi do Idealismo subjetivista que nasceu o relativismo, característico dos séculos posteriores à Revolução Francesa e que hoje, no dizer de João Paulo II e de Bento XVI, estabeleceu sua tirania sobre o mundo.
     Não é só nos hospícios que cada louco tem a sua verdade. Na Democracia liberal ocorre o mesmo. E se cada um tem a sua verdade própria, fica impossível qualquer diálogo. O Mundo contemporâneo se tornou uma nova torre de Babel, onde cada um fala uma língua particular, que ninguém mais entende. Todo mundo fala. Ninguém se entende. É a era do Diálogo. É a era do ecumenismo.

                                        3a Revolução na Filosofia: o Marxismo ou Materialismo Histórico
 
     Da afirmação de que a verdade é subjetiva, isto é, de que cada um tem a sua verdade pessoal, logo se concluiu que então não há verdade.
     Para o marxismo, havendo uma evolução contínua de tudo, não é possível ao intelecto captar a ideia do que uma coisa é. Seria como se uma máquina fotográfica estivesse sempre mudando, e como se o objeto que se quer fotografar mudasse também continuamente. A fotografia seria impossível.
     A verdade não existiria.
     Porém, essa frase: “a verdade não existe” é autodestrutiva.
     Pois, ou essa afirmação é certa, ou ela é errada.
     Se ela é certa, nela estaria a única coisa da qual teríamos certeza, e nela estaria a única verdade. Mas, então, a verdade existiria nela.
S
e a frase acima afirma uma falsidade, então, o contrario dela estaria certo, e a verdade existiria.
     Nas duas pontas do dilema, a conclusão é uma só: A VERDADE EXISTE.
     A negação da verdade pela doutrina marxista faz com que, o comunista que realmente acreditasse nessa tese, teria cometido o pecado contra o Espírito Santo consistente em negar a verdade conhecida como tal, pecado para o qual não há perdão.
***
Autor: Orlando Fedeli
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