Os Três Tipos de Intuição

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Intuição

Existem na realidade intuições? Existem; e o primeiro exemplo e mais característico da intuição é a intuição sensível, que todos praticamos a cada instante. Quando com um só olhar percebemos um objeto, um copo, uma árvore, uma mesa, um homem, uma paisagem, com um só ato conseguimos ter, captar esse objeto. Esta intuição é imediata, é uma comunicação direta entre mim e o objeto.

Por conseguinte, fica claro e evidente que existem intuições, embora não fosse mais que esta intuição sensível; porém, esta intuição sensível não pode ser a intuição de que se vale o filósofo para fazer o seu sistema filosófico. E não pode ser a intuição de que se vale o filósofo por duas razões fundamentais. A primeira é que a intuição sensível não se aplica senão a objetos que se oferecem aos sentidos, e, por conseguinte, só é aplicável e válida para aqueles casos que, por meio das sensações, nos são imediatamente dados.

Em vez disso, o filósofo necessita tomar, como base do seu estudo, objetos que não se apresentam imediatamente na sensação e na percepção sensível; tem que tomar como termo do seu esforço objetos não sensíveis. Não pode servir-lhe por conseguinte a intuição sensível.

Mas, além disto, há outra razão que impediria ao filósofo usar a intuição sensível, e é porque esta, a rigor, não nos proporciona conhecimento, pois como não se dirige mais que a um objeto singular, a este que está diante de mim, que efetivamente está aí, a intuição sensível tem o caráter da individualidade, não é válida mais que para esse objeto particular que está diante de mim. Em vez disso, a filosofia tem por objeto não o singular que está aí, diante de mim, mas objetos gerais, universais. Por conseguinte, a intuição sensível, que está, pela sua essência, atada à singularidade do objeto, não pode servir em filosofia, à qual, pela sua essência, se encaminha à universalidade ou generalidade dos objetos.

A intuição espiritual

Se não houvesse mais intuição que a intuição sensível, a filosofia ficaria muito mal servida.

Mas é o caso que há, na nossa vida psíquica, outra intuição além da intuição sensível. Existe, digo, outra intuição que, desde já, antes de trocar-lhe o nome, vamos denominar “intuição espiritual”. Assim, por exemplo, quando eu aplico o meu espírito a pensar este objeto: “que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo”, vejo sem necessidade de demonstração (a demonstração é discurso e conhecimento discursivo), com uma só visão do espírito, com uma evidência imediata, direta e sem necessidade de demonstração, que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. O princípio da contradição, como o chamam os lógicos, é, pois, intuído por uma visão direta do espírito, é uma intuição.

Quando eu digo que a cor vermelha é distinta da cor azul, esta diferença entre o vermelho e o azul vejo-a também com os olhos do espírito mediante uma visão direta e imediata. Eis um segundo exemplo de uma intuição que já não é sensível. É sensível a intuição do vermelho, é sensível a intuição do azul, porém a intuição da relação de diferença -a intuição de que o vermelho é diferente do azul -essa já não é uma intuição sensível, porque seu objeto, que é a diferença, não é um objeto sensível, como o azul e o vermelho.

Quando eu digo que a distância de um metro é menor do que a distância de dois metros, esta diferença, esta relação é o objeto de uma intuição e não é um objeto sensível.

Por conseguinte, a intuição, que esses exemplos nos descobrem, não é uma intuição sensível. Existe, pois, uma intuição espiritual, que se diferencia da intuição sensível em que seu objeto não é um objeto sensível. Esta intuição tampouco se faz por meio dos sentidos, mas por meio do espírito.

Até agora vou falando do espírito em geral, sem maior precisão. Mas agora é preciso ir depurando, purificando, esclarecendo mais esta noção que já temos da intuição.

Se considerarmos os exemplos com que ilustramos esta intuição espiritual, dar-nos-emos conta imediatamente de que eles nos colocam diante de um gênero de objetos que são sempre relações, e estas relações são de caráter formal. Referem-se à forma dos objetos. Não ao seu conteúdo, mas a esse caráter, por assim dizer, exterior, que todos os objetos têm de comum: a dimensão, o tamanho etc. Então, até agora, percebemos diretamente, intuímos diretamente formas dos objetos: ser maior ou ser menor; ser grande ou ser pequeno em relação a um módulo; poder ser ou não ao mesmo tempo. Mas todas estas são formalidades.

A intuição espiritual nos exemplos que acabo de oferecer é, pois, uma intuição puramente formal. Se não houvesse outra na vida do filósofo, mal andaria ele. Se não pudesse ter mais intuições que intuições formais, também não poderia construir a sua filosofia porque com simples formalismos não se pode penetrar na essência, na realidade mesma das coisas, como o filósofo pretende mais do que nenhum outro pensador.

Porém, há na vida do filósofo outra intuição que não é puramente formal, há outra intuição que, para contrapô-la à intuição formal, chamaremos “intuição real”. Há outra intuição que penetra no fundo mesmo da coisa, que chega a captar sua essência, sua existência, sua consistência. Esta intuição que vai diretamente ao fundo da coisa é a que aplicam os filósofos. Não uma simples intuição espiritual, mas uma intuição espiritual de caráter real, por contraposição à intuição de caráter formal a que antes me referia. E esta intuição de caráter real, esta saída do espírito, que vai tomar contato com a íntima realidade essencial e existencial dos objetos, esta intuição real, podemos, por sua vez, dividi-la em três classes, segundo predomine nela, ao verificá-la, por parte do filósofo, a atitude espiritual, ou a atitude emotiva, ou a atitude volitiva.

A intuição intelectual, emotiva e volitiva

Quando na atitude da intuição o filósofo põe principalmente em jogo suas faculdades intelectuais, então temos a intuição intelectual. Esta intuição intelectual tem no objeto seu correlato exato. Já sabemos que todo ato do sujeito, todo ato do espírito na sua integridade, se encaminha para os objetos, e o ato do sujeito tem então sempre seu correlato objetivo, consistente, para tal intuição, na essência do objeto. A intuição intelectual é um esforço para captar diretamente mediante um ato direto do espírito, a essência, ou seja, aquilo que o objeto é.

Mas existe, além disso, outra atitude intuitiva do sujeito em que atuam predominantemente motivos de caráter emocional. Esta segunda espécie de intuição, que chamamos de intuição emotiva, tem também seu correlato no objeto. O correlato a que se refere intencionalmente a intuição emotiva já não é a essência do objeto, já não é aquilo que o objeto é, mas o valor do objeto, aquilo que o objeto vale.

No primeiro caso, a intuição nos permite captar o eidos, como se diz em grego, a essência ou a consistência do objeto. No segundo caso, ao contrário, o que captamos não é aquilo que o objeto é, mas aquilo que o objeto vale, ou seja, se o objeto é bom ou mau, agradável ou desagradável, belo ou feio, magnífico ou mísero.

Todos estes valores que estão no objeto são captados por uma intuição predominantemente emotiva.

E existe uma terceira intuição na qual as motivações internas do sujeito, que se coloca nessa atitude, são predominantemente volitivas. Esta terceira intuição em que os motivos que se entrechocam são derivados da vontade, derivados do querer, tem também seu correlato no objeto. Não se refere nem a essência, como a intuição intelectual, nem ao valor, como a intuição emotiva. Refere-se à existência, à realidade existencial do objeto.

Por meio da intuição intelectual propende o pensador filosófico a desentranhar aquilo que o objeto é. Por meio da intuição emotiva propende a desentranhar aquilo que o objeto vale, o valor do objeto. Por meio da intuição volitiva desentranha, não aquilo que é, senão que é, que existe, que está aí, que é algo distinto de mim. A existência do ser manifesta-se ao homem mediante um tipo de intuição predominantemente volitiva.

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Autor: M. Garcia Morente

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