As Três Revoluções da Política na Sociedade

Padrão

Trecho de um estudo empreendido pelo professor Orlando Fedeli. O trabalho completo pode ser encontrado aqui.

Revolucao-Francesa-Liberdade

 
1a Revolução: A Reforma e o Renascimento (1517)
 
     A data de 1517 foi posta, aí, por ser o ano da revolta de Lutero, e a de um ano do período de apogeu do Renascimento.
     A Reforma luterana defendeu as seguintes idéias fundamentais:

 
1 — Igualdade Religiosa.
 
     O luteranismo resultou da síntese dialética da Gnose irracionalista de Mestre Eckhart com a filosofia racionalista do nominalismo de Ockham.
     Pelo livre exame da Bíblia, Lutero fez de cada fiel um Papa. Lutero proclamou que cada fiel, ao ler a Bíblia, seria inspirado diretamente pelo Espírito Santo, de tal modo que a interpretação de cada um seria infalivelmente verdadeira. Cada um, lendo a Bíblia, poderia identificar sua razão com o próprio Espírito Santo
     Desse modo, o Papa se tornava desnecessário. E não só o Papa, mas também todo o clero. Para quê ouvir a explicação da religião por um membro do clero, se era possível receber sempre a inspiração divina do próprio Espírito Santo?
     Cada fiel era o seu próprio Papa, Bispo e Sacerdote.
     O Protestantismo, negando a autoridade divina e infalível do Papa, caiu na contradição de tornar todo mundo Papa. Foi o livre exame da Bíblia que derrubou o Clero como classe social. Lutero, negando o poder papal, derrubou o pilar fundamental da sociedade medieval.
 
2 — Cada Príncipe seria o chefe do Estado e da Religião em seus territórios.
 
     Lutero, por política, para obter a proteção da Nobreza contra o poder do Imperador, tirou a primeira conseqüência do livre exame: cada príncipe seria um papa em suas terras.
     Desse modo, ele apoiava as teses de Ockham e de Marsílio de Pádua a respeito da supremacia do Estado sobre a Igreja, do Imperador sobre o Papa.
     Isso agradou muito a muitos nobres alemães que estavam em grande crise econômica. Com efeito, os impostos feudais haviam sido fixados para sempre lá pelo século VIII. Com o tempo e com a inflação crescente, especialmente após as descobertas marítimas e o conseqüente enorme afluxo de ouro, os preços aumentaram muito, e como esses nobres recebiam uma renda fixada pelo costume, eles ficaram arruinados.
     A esses nobres empobrecidos Lutero oferecia o poder religioso, o que significava dominar as riquezas e terras da Igreja. Naturalmente, muitos nobres se deixaram arrastar pela tentação de se apoderar das riquezas da Igreja, e, por isso, apoiaram a Reforma luterana.
     Outros nobres, menos afetados pela crise econômica, apoiaram Lutero, por causa que tinham aderido oas princípios do humanismo pagão, como foi o caso do Duque da Saxônia, o maior protetor de Lutero
 
3 — Maior liberdade na Moral.
 
     O princípio luterano de que a salvação vinha pela Fé sem as obras, e que quanto mais alguém pecasse, mais provaria que acreditava no perdão de Deus atraiu para Lutero todos os que desejavam pecar à vontade. Padres corruptos apoiaram Lutero, porque ele defendeu o fim do celibato e dos votos religiosos, especialmente o de castidade. Ele defendeu também o divórcio e permitiu até a bigamia do Príncipe Felipe de Hesse. Uma onda de imoralidade arrastou para a Reforma luterana a multidão dos corruptos. Pela Reforma, Lutero não pretendia, de modo algum, a reforma dos costumes corrompidos do clero. Pelo contrário. O que Lutero queria era reformar a Moral dos dez mandamentos, permitindo o que era proibido, tornando lícito, o que era ilícito.
     Lutero adotou então a tese gnóstica e cabalista da santidade do pecado, ao lançar seu princípio: “Crê firmemente, e peca muito”. Era a exaltação da mística gnóstica de Mestre Eckhart e dos Irmãos do Livre Espírito que Lutero adotava, unindo o irracionalismo de Eckhart com o racionalismo da filosofia nominalista de Ockham. Foi esse curto circuito racionalista – irracionalista que deslumbrou ambas as correntes heréticas que se digladiavam nas Universidades, e que, agora, se uniram dialeticamente — por um pouco de tempo – na exaltação do profeta racionalista e místico de Wittemberg.
     O Renascimento registrou, também ele, a síntese dialética da ciência racionalista, então em desenvolvimento, com a Gnose irracionalista do hermetismo. Leonardo foi exemplo vivo dessa síntese, com seus estudos e invenções científicas, com a magia hermética aprendida por ele através de Marsílio Ficino, na Academia Platônica de Florença.
O
Renascimento e o Humanismo defenderam idéias correlatas, senão idênticas, o primeiro nas Artes, o segundo nas letras e na Filosofia.
     Reforma e Renascimento foram o primeiro triunfo do Antropoteísmo, da Religião do Homem – do Humanismo — que viria a alcançar seu triunfo final no Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, quando Paulo VI declarou:

Reconhecei-lhe pelo menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, e saibais reconhecer o nosso novo humanismo: nós também, Nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem(Paulo VI, Discurso de Encerramento do Concílio Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965).

O Renascimento
defendeu as seguintes idéias fundamentais:

1 — O Soberano deveria ser chefe do Estado e da Religião

O Renascimento queria fazer ressurgir a cultura pagã greco-romana morta há mil anos. Ora, pela cultura clássica, o Imperador era soberano absoluto dirigindo o Estado e a Religião. César era até adorado como Deus.
     Conseqüentemente, todo soberano seria independente do Papa, e governaria a Igreja em seus territórios.
     Daí, Henrique VIII ter fundado a religião Anglicana. Daí, o Galicanismo de Luis XIV.
     Vê-se claramente então que esta idéia fundamental do Renascimento coincidia com a segunda idéia fundamental da Reforma Luterana.

2 — Moral pagã contra a Moral cristã.

     O Renascimento, adotando as doutrinas gnósticas do Hermetismo, atacou a moral cristã, ensinada pelo Clero. Evidentemente, isto opôs o Renascimento ao Clero católico, ainda que Papas e muitas autoridades eclesiásticas de então adotassem a filosofia e a moral pagã do Renascimento.
     Resultado das idéias da Reforma e do Renascimento foi a derrubada do Clero como Estado social supremo na sociedade. Portanto, o lugar do Clero foi assumido imediatamente pela Nobreza, elevada ao ápice social.
O esquema da sociedade, após a Revolução da Reforma e do Renascimento passou a ser o seguinte:
 
Nobreza
            _ _ _ _ _ |
                          |  Burguesia $                                                            
                                          |  Camponeses e Artesãos                                                                                                     

Estabelecendo a igualdade religiosa, e elevando a Nobreza à antiga posição do Clero, Reforma e Renascimento aumentaram a desigualdade política entre a Nobreza e a Burguesia.
     Isto colocou o gérmen de uma nova Revolução.
     Pois se os homens são iguais na Religião, se cada fiel é Papa, por que tanta desigualdade entre Nobreza e Povo? Não disse Lutero que deveria ser aplicado ao Povo o princípio que todo fiel era um sacerdócio real? Isto é, que o povo devia ser tido como Sacerdote e Rei? Por que então tanta desigualdade na política, se todos eram iguais em coisa mais fundamental como a religião?
Se os homens são iguais na religião, com maior razão deveriam ser iguais também politicamente. Todos teriam igual direito de escolher seus governantes ou de governarem, e não só o filho do Rei poderia ter o direito ao governo.
     Da Reforma protestante, então, nasceu a Revolução Francesa de 1789.


2a Revolução: A Revolução Francesa de 1789

     A Revolução Francesa aplicou os princípios e as idéias da Reforma protestante à ordem política, através de seu lema de Igualdade, Liberdade e Fraternidade.


1 –  Igualdade política

A Revolução Francesa de 1789, assim como sua predecessora, a Revolução Americana de Washington, em 1776, aplicaram ao campo político os princípios revolucionários da Reforma protestante. Assim como a Reforma defendeu a igualdade religiosa, a Revolução Francesa defendeu a igualdade política. Todos teriam direito de votar, para escolher um governante, e todos poderiam ser votados para governar um país.

2 – Liberdades políticas

Além da igualdade, a Revolução Francesa pregou a adoção das liberdades de religião e de consciência; a liberdade política; a liberdade de imprensa; a liberdade de educação; a liberdade de comércio separada de qualquer moral; a liberdade de propaganda e a liberdade artística absoluta, hoje chamada liberdade de expressão.
     São essas as liberdades para o erro e para o mal, as liberdades que o Papa Leão XIII chamou, com Santo Agostinho, de liberdades de perdição. Essas idéias de igualdade e de liberdade políticas formam o cerne do liberalismo.
     Com essas idéias de igualdade política a Revolução Francesa guilhotinou o Rei Luis XVI, e liquidou a Nobreza e os direitos feudais. Todos os títulos nobiliárquicos foram anulados e proibidos. Todos os súditos foram reduzidos à categoria de cidadãos.
     A Liberdade da Revolução Francesa fez a Guilhotina e a Lei dos Suspeitos que permitia matar sem direito de defesa, quem fosse acusado de suspeito de ser contra a Revolução.
     A Fraternidade era pregada com o lema: “La Fraternité ou la Mort”. (Fraternidade ou Morte), lema que poderia muito bem ser assinado por Caim.
     A única desigualdade que restou foi a econômica, distinguindo-se os cidadãos apenas por sua fortuna. Com a destruição da Nobreza como classe social, a Burguesia assumiu a liderança na sociedade, e o dinheiro passou a ser o único critério de valor e de classificação dos homens. Quem tivesse dinheiro, teria todos os valores…
     Desta forma, o esquema da sociedade passou a ser o seguinte depois de 1789:
 
                                                                                                         
Burguesia $            |
_ _ _ _ _ _ _ |                                                                        
_ _ _ _ _ _ _ |
                               | Camponeses e Artesãos
 
     Com a aplicação da igualdade política, cresceu a desigualdade entre Burguesia e as classes trabalhadoras manuais. Ascender socialmente ficou, então, muito mais difícil do que antes.
     Por outro lado, se a igualdade era considerada um bem, quando aplicada à religião e à política, por que deveria subsistir tanta desigualdade na economia e na propriedade? Se a igualdade, em si mesma, é um bem, então deveria haver também igualdade econômica e igualdade de propriedade. E foi o que propugnou a Revolução Russa de 1917.
 
3a Revolução: Revolução Russa de 1917
 

As idéias fundamentais da Revolução Russa foram duas:
 
1a Igualdade econômica: Isto quis ser alcançado pela eliminação do direito de propriedade particular. Tudo passou a ser do Estado.
 
2a Liberdade Absoluta: Esta liberdade total do Homem só seria alcançada pelo ateísmo, que livraria o homem da obediência aos mandamentos do Criador. Isto implicava na negação de toda a propriedade e da família, defendendo-se mais do que o divórcio, o amor livre. Negava-se ainda qualquer direito dos pais sobre os filhos, que pertenceriam ao Estado.
 
***
 
     Essas três revoluções formaram um processo de causas e de efeitos interligados, pois que a Reforma foi mãe da Revolução Francesa, e esta gerou a Revolução Russa. Assim, como um resfriado, se não for sanado, produz uma gripe, e esta, por sua vez, caso não seja debelada, pode produzir uma pneumonia e levar à morte, assim o vírus das três revoluções foi a idéia de igualdade como um bem em si mesma.
     A Revolução é, pois, um processo histórico, que, em três etapas, — Reforma, Revolução Francesa, Revolução Russa — destruiu a sociedade medieval, para implantar a igualdade completa.
   
(…)
 Cada uma das três revoluções instituiu uma forma de governo de acordo com sua doutrina. 

1 – A Reforma e o Renascimento instauraram uma Monarquia Absoluta, que foi uma caricatura de Monarquia. Uma Monarquia hipertrofiada, antiaristocrática, que solapou sua própria raiz. O monarca absoluto foi um tirano que pretendia ser César, soberano, ao mesmo tempo, do Estado e da Igreja. Um Rei que, conforme a Reforma, queria ser Papa, e, conforme o Renascimento, queria ser César.
     Para isto os Reis absolutos deviam combater dois adversários: o Papa e a Nobreza feudal. Deviam combater os direitos da Igreja e eliminar os direitos feudais.
     Luis XIV, típico Rei absoluto da França, afirmava; “L’ État c’ est moi” (O Estado sou eu) e pretendia ser o único proprietário da França, afirmando que se havia propriedades particulares em seu Reino, era por tolerância dele. No fundo, se comparado com São Luis, ele parecia um Lênin coroado.
     Na religião, ele favoreceu o Galicanismo, limitando o poder da Santa Sé sobre a Igreja, na França. Nomeava Bispos, e abades a seu bel prazer, dando títulos e direitos religiosos a seus cortesãos. Bulas papais só valiam na França caso o Rei as permitisse.
     O Rei absoluto tentava destruir todos os privilégios feudais, sem o conseguir. Tinha menos poder que qualquer prefeito de hoje, mas pretendia ser um Trajano.
     O palácio de Versailles, embora majestoso e esplêndido exemplar de arte barroca, tinha todos os defeitos do racionalismo e do otimismo panteísta do barroco. Se artisticamente era espetacular, fisicamente tinha o mau cheiro de uma sentina, e moralmente tresandava luxúria.
 
     Também Henrique VIII da Inglaterra foi um rei absoluto, que fundou uma nova religião: o Anglicanismo. Essa seita começou, porque o rei queria divorciar-se, e depois casar-se de novo. O que aconteceu seis vezes. Como na Roma antiga pagã, o capricho de César foi lei.
     Se o absolutismo monárquico fez triunfar a heresia na Inglaterra, enquanto na França o Galicanismo foi menos pujante, isso foi porque desde o século XII, o Rei Henrique II tentou instaurar o absolutismo impondo seus caprichos à Igreja, o que levou ao martírio de São Thomas Becket.
     Os soberanos absolutos instituíram as Cortes, reduzindo a Nobreza a um conjunto de “bibelots” corrompidos, ou a lacaios servis. Fazendo uma Corte em que os nobres viviam como numa gaiola dourada sem nada fazer, os soberanos absolutos destruíram a aristocracia. Depois do que, sem o apoio de suas raízes nobres, ficou fácil para a Burguesia derrubar um rei sem príncipes.
Além disso, os Reis absolutos, para colocar a Nobreza de lado, fizeram exércitos permanentes constituídos por mercenários. O que lhes causava enormes despesas. Para pagar tais despesas, e às do funcionalismo necessário a uma monarquia que pretendia cuidar de tudo, os reis absolutos tiveram que se socorrer de empréstimos dos grandes banqueiros burgueses…
     E quem paga, manda.
     O Rei absoluto se enforcou num cifrão, antes de ter a cabeça decepada na guilhotina.

2 – A Democracia liberal foi o regime instituído pela Revolução Francesa.

Segundo a doutrina Católica, há três formas de governo possíveis e legítimas, que buscam o bem comum: a Monarquia, a Aristocracia e a Democracia.
     Não se julgue, porém, que a Democracia que a Igreja aceita seja a Democracia liberal, regime movido a dinheiro, para controlar a propaganda, a mídia, e as eleições.
     A Democracia liberal afirma a igualdade de direitos políticos, o sufrágio universal, coloca a origem do poder no povo, não em Deus, o direito de revolução, o ateísmo ou o indiferentismo do Estado face à Deus, idéias essas todas condenadas pela Igreja.
     Uma democracia católica tem de afirmar que nem todos têm o direito de voto, que o poder vem de Deus, que não há direito de revolução. A Democracia liberal quer a liberdade de religião, e a separação entre a Igreja e o Estado.
     Uma Democracia de acordo com a doutrina católica não pode admitir a liberdade de religião, pois o erro não tem direito nem à liberdade, nem à propaganda. E uma democracia católica exige a união entre Igreja e Estado, isto é, que o Estado deve reconhecer a Igreja Católica como a única verdadeira, e favorecer sua ação e seu trabalho apostólico.
     O que não significa que o Estado tenha direito de forçar alguém a ser católico. Obrigar alguém a praticar a religião à força é pecado muito grave. A união entre Igreja e Estado só não permite que as seitas heréticas propaguem organizada e publicamente seus erros, pois o erro não tem direito de ser publicamente ensinado.

3 – O
 regime de governo estabelecido pela Revolução Russa é pura e simplesmente a Tirania Comunista.
 
     Na tirania bolchevista, não se respeita a lei natural. Não há direito de propriedade particular. Visa-se a destruição da família. Nega-se o direto dos pais a educar os filhos. Admite-se o amor livre. O ateísmo é propagado pelo Estado e se nega qualquer direito à religião.
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