Os Nômades

Padrão

O texto que se segue data de 2009 ou 2010, provavelmente, e pertence a uma coletânea de contos a que denominei “Freak Show”. Na época, eu lia muita “literatura marginal”, sobretudo Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca. Os personagens principais da obra são sempre drogados, prostitutas, nazistas, coveiros, malucos, psicóticos, cegos, doentes, arruaceiros, pugilistas etc. Só não escrevi sobre ex-presidiário. Como o conto era curto, decidi publicar aqui como brinde, já que estou me dedicando a “Nerávia” hoje em dia, cujo gênero sempre foi mais popular e, consequentemente, mais rentável.

Praia

Aquilo que era o passado e se esvanecia como um sonho mau na paisagem indiferente, aquilo haveria de voltar outras vezes, ele sabia, como alguém a lhe cobrar uma dívida antiga que ele já não tinha mais condições de quitar. De qualquer forma, como de um pesadelo, ele acordara. Acordara e, saudando a brisa úmida e quente e os coqueiros se espreguiçando para além da varanda, deliciosamente amigos e exteriores, ele caminhava em direção ao banheiro. Para lavar o rosto de qualquer vestígio. Sobretudo de si mesmo.

Não gostava de olhar para o espelho e reconhecer alguém a quem tivesse abandonado, porque no fundo não era verdade; apenas seguira em frente. As fundas olheiras de uma noite anterior mal dormida eram comuns, mas ele se recusava a repisar os caminhos por onde outrora pés haviam deixado marcas fundas. Para fugir deles, passava agora o fim das noites na orla daquele paraíso esquecido pelos deuses e pelos homens. Andava sem destino certo, mas tão certo quanto os mariscos a se livrar de carapaças inúteis. A água do mar a apagar os rastros na areia. A água que de vez em quando servia para recuperar o vigor. E só. Estava exausto de longas reformas e de gritos nos pavimentos inferiores da palafita; tudo havia desabado e nada mais importava. Ainda assim, o vento crepuscular entrava sorrateiro pela janela do banheiro e esbatia-se escuro sobre sua face limpa. Então ele jogava a água da pia no rosto novamente, pela quinta ou sexta vez naquele fim de tarde, receoso dos perigos da maré.

Porque nem sempre fora tão fácil. As coisas que agora possui o observam de longe, e é como se ele nada tivesse; mas as coisas que ele possuíra em uma outra vida continuavam existindo e, desse modo, era como se elas o retivessem, o compelissem, exigindo que suportasse um peso ao qual renunciara. E mesmo que aceitasse dialogar com esses fantasmas, nada poderia verdadeiramente reter, tornado leve e dúctil como a água. Por isso adorava aquele porta-retratos que o dono da pensão esquecera ali, na cabeceira da cama; trazendo provavelmente a foto em família de turistas que haviam estado ali antes dele, aquilo nada lhe transmitia, exceto da alegria de uma vida oca a ser preenchida.

Sim, houvera chegado à cidade sem qualquer bagagem e apenas com dinheiro o suficiente. Poderia ter alugado algum apartamento se quisesse; mas estava de passagem, eternamente de passagem, e não sabia quando iria se estabelecer. Nem sabia se o desejava. Depois de anos planejando milimetricamente a própria vida somente para ter que lidar com a frustração e o desespero, abandonara-se, enfim, a si mesmo. Como uma andorinha que tivesse se perdido do bando, ele se sentia, no entanto, seguindo com asas de cera em direção ao azul abissal do futuro, lucidamente misterioso e inevitável.

O dono da pensão o olhava com estranhamento, como qualquer outro que estivesse atento a ele naqueles dias. Parava o hóspede sempre que o encontrava, contando alguma anedota para prender sua atenção ou insinuando alguma pergunta para saber melhor sobre sua vida; naturalmente que não podia deixar que qualquer um frequentasse o seu estabelecimento (o que era mentira, pois o hóspede se revelava uma criatura pacata e inofensiva: ele se aproximava porque podia). Mas, quanto mais se aproximava, mais o hóspede se mostrava esquivo e indiferente. Aliás, era ele o único a querer se achegar ao hóspede, pois os demais frequentadores da pensão se afastavam. Está certo que suas roupas estavam bem encardidas, e isso inspirava algum receio; mas a verdade é que as pessoas vivem cercadas por muros invisíveis sem que o saibam, muros que o hóspede já ignorava havia tempos. Todos querem transpor seus muros à sua própria maneira, e a maioria ergue outros sem o saber. No entanto, a alegria está por todo canto, como num campo aberto; o hóspede pensava sereno consigo mesmo a respeito dessa sua última descoberta (naquela velocidade, achava muitas); via o pai se alegrando com o filho na piscina, a mulher se entusiasmando com a cor da pele ao Sol, a senhora idosa a conversar com outra, e ele, o hóspede, a se regozijar com tudo aquilo. Era o que tirava o encardido.

Talvez o seu destino fosse se precipitar contra o mar e aguardar que seu fôlego, sempre no limite, pusesse término ao esgotamento exterior. Pensava muitas vezes sobre isso, em sua caminhada matutina pela orla. As pessoas se equilibrando na corda sempre: perseguindo seus roteiros, controlando o ritmo do coração. Da vida. Em todo canto, controlando a respiração. Coopers infindáveis, vôlei de praia, freesbe. Contra as colunas que caem. Pensava muito sobre isso. Mas não a ponto de ser diluído pela maré, tinha cuidado.

Talvez o hóspede soubesse que as pessoas podiam se mostrar dispostas a ajudar quem caísse uma única vez e até mesmo aplaudissem sua tentativa de se soerguer. Sentia-se como se tivesse caído várias vezes, talvez por causa da dor que o acompanhava dia e noite, talvez porque não quisesse se reerguer. Não importava. Quaisquer que fossem as circunstâncias, como o tamanho da queda, por exemplo, e as pessoas estariam em torno dele, espantadas com o que viam diante de si e alheias a tudo o mais. Muros.

Acordou naquela manhã de mais um sonho mau, no qual o barco mais uma vez naufragara, fustigado pelos ventos, e pessoas queridas morriam em razão de sua incapacidade. Vestia contudo uma blusa branca que o impedia de se sentir liberto. Pela primeira vez em anos, notou as asas que se espremiam contra suas costas. E se entristeceu. Havia homens. Eles o conduziram de seu quarto até a saída e ainda pararam na recepção, dispostos a pagar alguma eventual pendência financeira. Diante de uma surpreendente negativa, no entanto, seguiram seu caminho.

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