O Amor e os Mitos Gregos

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The Triumph of Civilization

Eu conheço muitos mitos gregos, alguns sobre o amor, e asseguro que nenhuma explicação racional seria capaz de superar-lhes em beleza e, portanto, muitas vezes em verdade. Porque há uma parte de nós que pretende mensurar e reduzir tudo a fórmulas; outra face nossa, no entanto, sabe por experiência e por intuição que certas verdades nos vêm como que por revelação. Nós lemos uma narrativa literária e, recordando o que foi vivido, assentimos com o seu sentido profundo.

Os mitos gregos têm essa propriedade. Sabemos da profundidade dos antigos helênicos na formulação de seus finos pensamentos e reflexões, mas para isso foi-lhes igualmente necessário o desenvolvimento da faculdade imaginativa. Não é possível assimilar o logos, a capacidade de abstrair, sem antes ter se tornado hábil nos meandros da linguagem, ainda naqueles que não sejam meramente mecânicos. A lógica matemática seria, com efeito, apenas um instrumento, uma camada epidérmica na perquirição do Imponderável. Aliás, o antigos gregos tinham uma percepção muito aguda dessa relação; tanto é verdade que logos, na acepção grega originária, tinha um significado tão amplo que serviu inclusive como metáfora, no Evangelho de São Lucas, para identificar o Verbo (a palavra) divina, ou seja, aquele que é pleno e nunca falha, a Razão de Deus.

As pessoas hoje em dia falam de amor (seja lá de que espécie for) como se soubessem do que falam, mas tropeçam na tentativa de defini-lo assim que são instadas a essa tarefa. Todos os que amam (ou pensam que amam) têm certeza de estar amando, mas não chegariam a um denominador comum se tivessem que articular ideias sobre aquilo que estão vivendo. Ninguém sabe na verdade do que fala, embora a convicção não diminua. Não chega a ser uma incoerência total, pois eu acredito que o amor, como todas as outras realidades elevadas, tem um parentesco com a fé. Há algo de sobrenatural. Como no caso do logos, amor é uma palavra que se refere a múltiplos aspectos da realidade e ao mesmo tempo a algo bem específico e particular; por isso tem uma dimensão de incontornável, indelével. É a quarta dimensão.

Evidente que a Filosofia tem muita coisa relevante a dizer sobre essa realidade sumamente humana, mas é igualmente verdadeiro que há um componente divino na mistura. O amor, desde o mais baixo até o mais excelso, é um vinho de sabor distinto no qual algum deus derramou o seu néctar. Ouçamos o que a razão tem a nos dizer, mas estejamos de ouvidos atentos às palavras encantadas de Hermes, que desce do Olimpo com as histórias do amor praticado entre os deuses e reproduzidos pelos humanos na forma de mitos… ou de vivência.

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Eros

Rara representação de Eros. Normalmente ele aparece sob forma de criança ou, quando adulto, acompanhado de Psiquê.

A Filiação de Eros

Como sabemos, Cupido ou Eros, o deus peralta com asas, aljava e flechas, seria filho de Afrodite, a deusa do amor, e de Ares, o deus da guerra. Faz até um certo sentido, porque a paixão (representada pela figura de Eros) teria nascido da falta e do desejo. Aquele deus que inspira o amor desejaria a satisfação de ver-se necessário à consumação de um outro que se caracteriza por uma distinta forma de poder; por outro lado, há a feição do deus rigoroso que busca apenas se saciar daquilo que é belo, suave e gratificante.

Uma versão pouco divulgada, e minha preferida, relata que Eros na verdade seria filho de deuses menores. Diz-se que uma vez os deuses fizerem uma festa para comemorar o nascimento de Afrodite. Entre os convidados, encontravam-se Penia, a deusa da penúria, e o seu exato oposto, Porus, o deus da esperteza e da riqueza. Este encontrava-se vulnerável, pois embriagara-se; Penia então entregou-se a ele, vendo a oportunidade de ter para si tudo aquilo que lhe faltava. Ocorre uma inversão ou, no mínimo, uma “contaminação” de um pelo outro, pois, por um momento, o que era esperteza torna-se parvoíce e o que era pobreza se torna riqueza. É esse caráter ambíguo que faz dessa a versão a mais interessante. Devido ao fato de ser fruto da união da riqueza com a pobreza, a loucura de Eros consistiria em estar sempre ávido e, no entanto, pleno; no âmbito cognitivo, oscila entre a sabedoria e a tolice. É interessante notar que a perfeição da beleza e do amor (no sentido carnal), ou seja, a figura de Afrodite, teria sido celebrada no mesmo dia em que Eros foi gerado.

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A belíssima escultura de Antonio Canova, retratando Eros e Psiquê.

A belíssima escultura de Antonio Canova, retratando Eros e Psiquê.

Eros e Psiquê

Para mim é o mais belo mito grego sobre o amor, porque soa como uma alegoria muito boa a respeito da escatologia cristã. Nesse sentido, Eros não seria sinônimo de paixão e necessidade de saciedade, mas encontraria o seu eco perfeito na pessoa de Psiquê, a personificação da alma humana. É um mito muito belo que gira todo em torno dos temas da miséria e da redenção. Quiçá do próprio estado de êxtase proporcionado pelo nirvana ou pela ascese cristã.

Conta-se que uma vez existiu uma jovem tão bela, chamada Psiquê, que ofuscava até mesmo Afrodite em tal atributo. Os templos à deusa grega se encontravam vazios, sem oferendas, pois os homens preferiam admirar Psiquê. Com inveja da menina, a deusa ordenou a seu filho Eros que a fizesse se apaixonar pela criatura mais miserável da Terra. Segundo o projeto de Vênus, a alma humana se enamoraria do abjeto.

Eros partiu e pousou junto a Psiquê, enquanto ela dormia em seu quarto. Mas Psiquê despertou na presença do Amor, que feriu-se a si mesmo, espantado. Foi assim que ele ficou apaixonado pela jovem. Percebendo o que havia feito, Eros voou para longe, sem rumo certo.

Psiquê andava desiludida, pois, desfavorecida por Afrodite, não encontrava pretendentes. Contudo, ela recebeu de um oráculo a notícia de que se casaria com o ser mais abjeto de todos, cujo amor ela não seria capaz de resistir. Resignada, ela partiu para o lugar onde deveria encontrar o futuro esposo. Depois de um tempo, ela se enamorou dele, mas não conhecia sua verdadeira identidade, à qual o próprio marido lhe havia vedado descobrir. Tomada por curiosidade, uma noite, enquanto ele dormia, ela iluminou suas formas com uma lamparina e viu de quem se tratava: um ser belíssimo com asas. O mais belo dos deuses havia se tornado o mais abjeto dos seres, pois passara a amar a mais bela das criaturas humanas!

Eros despertou e, percebendo a perfídia, decidiu-se por abandonar a esposa (a alma humana). A partir de então, Psiquê dedicou-se a penitenciar-se em nome de Afrodite, a fim de que a deusa lhe favorecesse, fazendo com que Eros voltasse a seu convívio. Afrodite submeteu-a a muitas provações, para que provasse o seu valor. Não podendo satisfazer à deusa do amor (carnal), Psique ficou tão triste e arrependida que se suicidou. Aflito, Eros implorou a Zeus que a tornasse imortal, para que o Amor e a alma humana se unissem no plano celestial. E Zeus o consentiu.

Neste mito percebemos que a alma humana é desprezada pelos homens, apesar de lhes inspirar à contemplação. No entanto, a personificação do Amor se enamora de Psiquê e decide-se por torná-la imortal, unindo-se eternamente a ela. Assim, os seres humanos negligenciam sua vida espiritual, mas é somente através do Amor perfeito, que aceita se rebaixar, que eles podem aspirar à vida após a morte. Destaco que “Psique” pode significar também “borboleta”. Faz sentido. Vivemos uma vida de larvas rastejantes e somente através do verdadeiro amor, que é eterno, rompemos o “casulo” da matéria, adquirindo asas e grande beleza para alcançar as alturas olímpicas.

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Hades e Perséfone, em belíssima representação contempor

Hades e Perséfone, em belíssima representação contemporânea do mito.

Hades e Perséfone

O segundo mito grego sobre o amor mais importante para mim é este, que ilustra a história de amor inusitada entre o soturno deus da morte e dos “mundos interiores” (ou “inferiores”) e uma deusa estritamente vinculada à fecundidade, ao mundo exterior e à alegria de estar vivo. A polaridade tem se mostrado uma constante no imaginário grego, conforme salta aos olhos a esta altura; a atração ocorre quase sempre entre casais que apresentam, senão em todos os aspectos, algumas profundas oposições em outros deles.

Hades era um deus melancólico que se mostrava, ao contrário de seus pares celestiais, indiferente aos encantos da beleza física de Afrodite. Talvez por se tratar de um deus do além-vida, onde os predicados da matéria não contam mais, Hades desdenha tudo o que seja efêmero e não crie vínculos mais profundos.

Um belo dia, atendendo ao sacrifício a ele ofertado pelos homens, Hades subiu ao mundo dos mortais guarnecido do capacete que o tornava invisível aos mesmos. Caminhando por entre as flores, o deus dos mortos divisou Coré, filha de Deméter, acompanhada de suas amigas; era belíssima, mas adornada pela modéstia própria das donzelas. Apaixonou-se perdidamente por ela e quis se aproximar de sua amada, encorajado pelo seu dom da invisibilidade. O vento gelado que acompanhava o deus das moradas fúnebres afugentou as amigas de Coré, mas esta, pelo contrário, foi invadida de imensa ternura ao senti-lo. Hades sentiu-se confiante e retirou seu capacete, revelando-se; declarou-se à deusa e foi procurar Deméter e Zeus, pais da amada, a fim de obter-lhes a permissão para cortejá-la; Deméter, no entanto, sabendo que nunca mais voltaria a ver a filha se ela descesse ao Érebo, rejeitou o pedido de Hades.

Desesperado e tomado de amor violento, ainda mais espicaçado pela dificuldade, Hades não desistiu de seu intento e decidiu armar uma emboscada no intuito de raptar a bela Coré. Depois que ele logrou sucesso, Deméter, a deusa da agricultura, caiu em profundo abatimento. Os campos perderam o viço e os homens passavam fome, porque Deméter não cuidava mais da terra e dos seus frutos. Observando tudo o que acontecia, o senhor dos deuses, Zeus, ordenou que Hades devolvesse Coré a sua mãe. Resignado, porém determinado, Hades permitiu que Perséfone retornasse à mãe, mas antes lhe ofereceu uma romã, que a esposa saboreou.

Ocorre que os frutos do submundo têm uma curiosa particularidade: quem deles experimenta sempre regressa ao Tártaro. É assim que se justificam as Estações na mitologia grega. Os períodos de fertilidade correspondem ao retorno de Perséfone ao mundo dos vivos; os períodos de frio e abandono da terra, a seu regresso às moradas do amado.

É um belo mito, porque ilustra a compatibilidade entre aquele que, apesar da frieza e do abatimento, possui uma interioridade vigorosa, e Coré (chamada de “Perséfone” depois de desposada), que conhece o valor das boas raízes e tem o talento sublime de tornar fértil aquilo que carecia de vida. O fruto interior de Hades é o amor, e os frutos exteriores de Perséfone são a abundância em beleza e alegria. O fruto da Mãe é a fecundidade do exterior e do interior. No fundo, trata-se de um mito de louvor ao amor naquilo que ele traz de fértil, não de voraz. Serve também como metáfora agrícola, para representar a relação íntima e harmoniosa, aparentemente contraditória, entre o subsolo frio e escuro e os frutos generosos e gentis da terra. Outra imagem belamente representativa do fulgor e do enlevo amoroso entre pessoas que se amam: elas esperam pelo despertar da “primavera adormecida” do amor, sorvendo o seu fruto (Perséfone) ou aguardando por sua cultivadora (Hades e Deméter -que seria a própria imagem de Perséfone em sua feição materna).

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Pintura de Rubens. Orfeu e Eurídice deixando o submundo; a seu lado, Hades e Proserpina.

Pintura de Rubens. Orfeu e Eurídice deixando o submundo. A seu lado, Hades e Proserpina.

Orfeu e Eurídice

Outro belo mito que me chamou bastante a atenção anos atrás, quando comprei o livro de Thomas Bulfinch, é o que relata a história de amor entre o famoso Orfeu e Eurídice. Orfeu, como todos sabem, foi um renomado músico da Hélade antiga, talento que herdou do pai, Apolo, e da mãe, Calíope, musa das artes (da poesia épica, mais especificamente).

A ninfa Eurídice, esposa de Orfeu, era uma mulher divina por cuja beleza os homens se apaixonavam. Um desses homens era um apicultor que a perseguia. Num desses aflitivos momentos, a ninfa esbaforida acabou pisando numa cobra, que a picou e a levou a óbito. Triste de morte com o passamento da amada, Orfeu entoou tão melancólicas canções que comoviam até os deuses. Foi assim que, apiedando-se do músico, os seres celestiais lhe concederam permissão para adentrar a morada dos mortos, no Érebo, com o propósito de resgatar Eurídice.

Uma vez no submundo, Orfeu enfrentou e superou inúmeras provações, fazendo uso de seu espetacular talento artístico. Na presença de Hades e Perséfone, ele tocou uma canção melodiosa e sorumbática, que levou o casal de deuses às lágrimas, apiedando-se do infortúnio do rapaz. Assim, obteve o consentimento de ambos para levar Eurídice, muito embora Perséfone lhe advertisse que, caso Orfeu voltasse os olhos para trás, sua amada se transformaria em pedra e jamais retornaria ao mundo dos vivos.

Orfeu fez com que a esposa seguisse os seus passos e lhe deixou ciente da punição dos deuses caso ele os desobedecesse e voltasse os olhos para trás, como se não tivesse confiança ou sentisse a falta de algo. No entanto, Orfeu fez exatamente o que não deveria: assim que Eurídice tropeçou, o músico voltou-se a ela.

Ao retornar ao mundo dos viventes, desta vez ainda mais perturbado do que quando partira ao Érebo, o viúvo Orfeu tornou-se indiferente às mulheres. Um grupo delas, as Mênades, enfurecidas pelo desprezo do filho de Apolo, cortaram-lhe a cabeça e jogaram seu corpo no rio. Como punição pelo crime, foram transformadas em árvores.

Orfeu, falecido, foi viver a pós-vida em plena felicidade com Eurídice, nos Campos Elísios. É em virtude disso que os passarinhos, segundo dizem, cantam com melodia.

Interessante destacar que é um dos poucos mitos que não foca na dicotomia existente entre o casal. A história de amor entre ambos tem como tema principal o infortúnio dos amantes em razão da inveja e da cobiça de terceiros. Fortuna infeliz essa que, apesar das adversidades que cria, não consegue pôr fim ao amor e triunfar sobre ele. Também é bastante sintomático que enfatize a necessidade da confiança e, porque não, do desprendimento, quando é dito a Orfeu que ele não deveria olhar para trás a fim de se assegurar que Eurídice o seguia. O mito todo é, afinal, do início ao fim, uma alegoria sobre a autonomia do amor.

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