Dobrada à Moda do Porto

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Pessoas andando

Um dia desses eu andava taciturno pelas ruas do Centro e passei por uma velhinha que sorria para mim. Não tenho o costume de retribuir esse tipo de afeto inusitado, quero dizer, não sou permissivo assim em relação a pessoas que não conheço. Passado algum tempo é que fui perceber que a velhinha em questão era minha antiga professora de alemão. Estava esquálida, irreconhecível a coitada. Havia vendido propriedades por valores irrisórios, há anos atrás, e embarcado nas falsas promessas de um místico goiano. Vai saber o quanto ela precisava de um sorriso naquele momento… Pensei nisso durante um bom tempo.

Muitas vezes achamos que o outro tem toda culpa ou não chegamos a compreender comportamentos que, num primeiro momento, achamos estranhos ou indiferentes. Mas, se às vezes é difícil julgar corretamente até pessoas que são caras a você, imagine o restante da humanidade inteira. Eu passei bem ao lado de uma pessoa a quem tenho muita estima, mas não pude retribuir o sorriso à altura do significado que ela tem para mim. Porque ela era o “restante da humanidade”, quando nos vimos de novo. Quem tem a culpa? Ninguém tem. Eu passava pelo Saara, ela pelo Atacama talvez; nossos corpos em desencontro, mas nossas almas se reencontrando na distância, por um breve momento. Foi como uma miragem, um lapso de verde-esperança em meio à aridez sufocante.

Tudo é travessia e Êxodo, porque o Amor se deixa entrever pelas frestas do transcendente no imanente, como uma porta que se abre e logo se fecha, ferido pela Incompreensão primordial que tudo contamina.

É por isso que Platão diz que vivemos entre sombras e que nossos momentos sublimes nascem da recordação de nosso estado de pureza originária. Embora estivesse falando sobre outra coisa, o filósofo grego me faz pensar que devemos ser crianças na medida do possível, porque nossos olhos estão fatigados pelo peso da experiência, que sempre se antepõe à fascinação juvenil do mundo. Vivemos encarcerados, ensimesmados. O presente é vivido em plenitude pelos infantes, mas para nós passa sem que nos demos por apercebidos, sonâmbulos que somos. Entes queridos passam por nós como companheiros de Estige; pois muitas vezes são como fotos envelhecidas de álbuns antigos: não lhes reconhecemos ou nos recusamos a fazê-lo, rotineiramente por razões que nos fogem ao controle. Recordar… palavra composta derivada do latim “re cordare“, significa “trazer de volta ao coração”, que significa muito mais do que trazer à tona a vida morta, mas levar ao fundo a vida arquipulsante.

Loucura e infantilidade? Eu fui ao fundo? Quase sempre a gente vai sozinho. E depois.

Fernando Pessoa já dizia num poema: “Serviram-me o amor como dobrada fria./ Disse delicadamente ao missionário da cozinha/ Que a preferia quente,/ Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.// Impacientaram-se comigo./ Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.”. Como a gente pode oferecer um amor que está frio? Ou recebê-lo? Achamo-nos como o cliente e muitas vezes ignoramos ser também o atendente. Se eu sorrisse para minha professora de alemão naquele momento, seria o mesmo sorriso padronizado que eu concederia a um estranho? Bem, se o fosse, seria estranho, porque ela não é uma estranha. De modo que talvez eu a tivesse ferido mais se eu tivesse retribuído o sorriso à estranha que ela não é. Mas nunca se sabe, não é verdade? Do pouco que temos a oferecer e do muito que desconhecemos, talvez tiremos do tacho a superfície de nós mesmos. E olhe lá.

“Ele não me reconheceu.”, talvez ela tenha pensado. “Ela não me compreendeu”, foi o que pensei comigo mesmo. E tudo afinal é uma questão de fé. Se há algo de bom a se resgatar de um breve momento de angústia como esse, esse algo consiste em crer que, naquele instante, a fé na bondade era a única consolação que podíamos ofertar um ao outro. E, na maior parte dos dias, creio que é o suficiente –tem que ser.

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