Esparta e o Sexismo: Análise Aristotélica

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Esparta e as mulheres

Um grande engano se verifica quando dizem por aí que a luta pelos “direitos” das mulheres ocorreu no século XX, no sentido de haver, no plano político-social, um ambiente favorável ao (auto)reconhecimento da mulher como agente político. Como eu disse uma vez, não há verdadeira guerra entre classes ou sexos, não importa se você é homem ou mulher; desde que o mundo é mundo, se há acima (ou abaixo) de você quem detenha poder e ausência de escrúpulos (tal qual um tirano), é bem provável que haja opressão. Mas pode ser que essa mesma “opressão” se exerça sobre a saúde estrutural da Cidade e sobre os homens, ainda que o legislador seja homem e misógino (como no caso de Licurgo). Porque o problema não é de ordem metafísica; não existe um eterno conflito entre pares opostos do qual se deva buscar sempre a síntese (o típico modus operandi esquerdista). O problema é que as legislações sempre foram falhas e, mais modernamente, o problema se dá quando confundem, numa forma cafona de religião e escatologia, política com moral -ou vice-versa. Quando se elabora uma Constituição, deve-se levar em conta a ordem do todo em primeiro lugar, nunca os privilégios de “categorias” de cidadãos que supostamente tiveram os seus direitos negligenciados.

Trecho da “Política”, páginas 100 e 101:

“Por um lado, a excessiva permissividade a respeito das mulheres lacedemônias é contrária ao espírito da constituição de Esparta e ao bem-estar da Cidade. O homem e a mulher são ambos elementos da família e, do mesmo modo, podemos considerar que a Cidade é igualmente dividida entre homens e mulheres; por conseguinte, podemos dizer que naquelas Cidades em que a situação das mulheres não é boa, metade da Cidade não tem leis. E, na verdade, é isso que sucedeu na Lacedemônia; o legislador, querendo tornar toda a população enérgica e temperante, atingiu plenamente seu objetivo no caso dos homens, mas malogrou no caso das mulheres, as quais vivem entregues à intemperança e à luxúria. A consequência é que em uma tal Cidade a riqueza é altamente valorizada, sobretudo quando os homens ficam sob o domínio de suas mulheres, como ocorre entre as raças enérgicas e belicosas, exceto e os celtas e outras raças que aprovam o amor entre os homens. O antigo criador de mitos acertou quando uniu Ares e Afrodite, pois todas as raças guerreiras são inclinadas ao amor tanto de homens quanto de mulheres. Isso é mostrado pelos lacedemônios em seus dias de grandeza; muitos assuntos eram decididos por suas mulheres. Mas que diferença existe entre as mulheres governarem e as mulheres governarem os governantes? O resultado é o mesmo. Mesmo no que concerne à bravura, sem utilidade na vida diária e necessária apenas em tempos de guerra, a influência das mulheres lacedemônias foi bastante prejudicial. Isso ficou claro na invasão tebana, quando elas, ao contrário das mulheres de outras Cidades, não tiveram a menor utilidade e causaram mais desordem na Cidade que os próprios inimigos. Essa corrupção nos costumes apresentada pelas mulheres da Lacedemônia existe desde tempos recuados. Durante as guerras da Lacedemônia, primeiro contra os argivos, depois contra os árcades e os messênios, os homens ficavam por muito tempo fora de casa e, quando a paz voltava, eles se submetiam ao legislador, já preparados pela disciplina da vida militar (na qual existem muitos elementos da virtude), ao passo que, segundo diz a tradição, quando Licurgo quis submeter as mulheres ao domínio das leis, elas resistiram e Licurgo desistiu de seu intento. São essas, então, as causas do que ocorreu; claramente são, pois, as mulheres as culpadas pela falha na constituição. Não estamos, contudo, considerando quem deve ou não ser desculpado, mas o que está certo e o que está errado nas constituições; conforme dissemos, o mal comportamento das mulheres não somente dá ar de licenciosidade à constituição considerada em si mesma, como também tende a favorecer o amor à riqueza.”

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