Pílulas Crônicas

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nomes estranhos

– Chega um momento na tarefa de um escritor em que ele empaca na escrita, sobretudo em se tratando de um romance. Ocorre que isso se dá precisamente naquele início de parágrafo em que, caso ele cometa um deslize, fode o restante do texto na sua integralidade, não importando o número de páginas que o negócio já tenha. Pois é, pode crer que isso acontece. É o problema da verossimilhança. Uma inconsistência qualquer e compromete a porra toda, mesmo as partes muito bem estruturadas. Pra sair da sinuca de bico, há que se conjugar três qualidades que aparecem juntas esporadicamente: ânimo, criatividade e molejo verbal.

– Deveriam ensinar também a origem dos nomes das pessoas nas aulas de Estudos Cívicos, pra ver se assim os brasileiros não inventam moda com aqueles nomes escrotos que pobre adora colocar em criança. O futebol brasileiro no exterior tem estado uma vergonha, e piora a situação toda vez que vejo um Juciscleisson, um Liédson, Kleberson ou Robson em campo. Aqueles caras dando canelada na bola, mistura de índio, Kunta Kintê e português de padaria. O pai e a mãe juntam os nomes, nasce aquela coisa horrorosa e, para piorar a situação, cresce, descolore o cabelo e manda o barbeiro estragar o resto com um corte à moda punk de subúrbio. E o sufixo “son”? É um fetiche essa porra. É por isso que metade dos brasileiros hoje em dia (e 100% dos telespectadores do Esquenta) se parece com um Pokemon japonês, na versão sueca falsificada do Paraguay.

– Não sei por que seria motivo de mérito ou demérito o chinês comer barata frita, gafanhoto ao molho ou pata de cachorro assada. Os elogiosos dizem que eles não desperdiçam comida. Os ecologistas reclamam da presença do cachorro no cardápio (e estão pouco se fodendo para as baratas e os gafanhotos, animais indefesos, mas tudo bem…). Mas a verdade é que, vivendo num país com um porrilhão de habitantes e renda per capita de merda, o cara aprende a cozinhar até bactéria se preciso for. É por essas e por outras que eu tenho a impressão de que os vegetarianos vivem num mundo paralelo onde ninguém tem fome e todo mundo acumula energia de sobra comendo apenas capim. Ser vegetariano é como ser um nudista que de repente fica escandalizado ao perceber que todo mundo na cidade usa roupa. Não, eu minto: ser vegetariano é bem mais ridículo do que isso…

– Por falar em China e por falar em cachorro, eu me lembro de um caso relatado por um parente. Ele me disse que um casal de amigos dele viajou para lá e, visitando uma daquelas feiras exóticas, achou uma barraquinha onde havia cachorros para vender. Afixionada por cães, a mulher escolheu um dos totós e pediu para o chinês pegar. O rapaz pegou o cachorro, levou-o para um lugar escondido e, depois de estranhos 10 min, voltou com um saco e o pôs no balcão. Ao abrir o saco, a mulher viu um monte de carnes e, click, logo se deu conta de que era o pedido que havia feito. Moral da história: nunca peça um Chow-chow de presente quando alguém for para a China. A não ser que você goste muito mesmo de churrasco.

– Não existe “chave” para o coração de uma mulher, salvo suborno ou letra de pagode. Se você quer chegar em semelhante lugar, então procure entrar pela porta maior, aos fundos.

– O que acontece com o “Movimento Feminista” é mais ou menos o que acontece com aquelas panelas de escola, em cinema americano. São pessoas que se reúnem em grupo e ficam culpabilizando todo o restante da humanidade por suas frustrações, sem ter um pingo de razão. Rebeldia sem causa (ao menos sem uma causa decente). Da minha parte, eu só falo em meu próprio nome e nunca a partir do ponto de vista de qualquer multidão barulhenta que seja, ainda que esteja certa; pode ser que minha perspectiva coincida com um grupo do qual faço parte, o que é natural, mas nunca vou me pautar pelo que seria mais conveniente à “massa” ou à instituição. Fico imaginando se Florbela Espanca teria sido tudo o que foi se tivesse se comprometido com uma “causa” qualquer. Ou Ayn Rand. A verdade é que se comprometeram consigo mesmas; quero dizer, não como uma presunção artificial de alguém que quer se fazer de importante, mas como uma requisição do próprio gênio ou do próprio ego, que abundava em ambas. Veja Franz Kafka e Fernando Pessoa: teriam sido quem foram se fossem acólitos risíveis de movimentos e vanguardas? Escreveram o que tinham que escrever. Fizeram o que tinham que fazer. Não prestaram conta nenhuma. Que a modernidade vá para os diabos com suas guerras e arengas de academia, projetada alucinadamente no mundo todo.

– Aliás, é muito curioso que essas mulheres feministas queiram se fazer de importantes aos berros. “Olha pra mim, veja como eu sou para frente! Eu sou legal!” É “para frente”, mas os peitos são “para baixo”; de modo que sua ambição teria que estar escorada em talento, em capacidade, não encostada em militância, em guerrinha civil. Se nada lhe faz interessante, mas irritante (em virtude da pirraça interminável), é natural que os outros procurem predicados em seu corpo. Como alguém que procurasse um escravo. Eu me lembro da época em que estudava Florbela e Cecília Meirelles. Ambas poetizas. Ambas anacrônicas“Eles” queriam que elas fizessem conforme isso ou aquilo. Mas poderiam ser “elas” também, as outras. Como partidos políticos. No entanto, Florbela e Cecília tinham cada qual uma vida e uma visão estética que eram únicas; não eram “modernas”, “justas” ou “comprometidas com as causas sociais”: toda obra honesta é amalgamada com a própria vida de seu criador, como um homem imitando deus. Só tem brilho o que existe para quem efetivamente existe, não para quem espera adquirir existência. Parafraseando Álvaro de Campos, se você quer e pode fazer alguma coisa, para sua própria satisfação, vá e faça a sua parte e pare de encher o saco. A esse propósito, gosto muito de um vídeo da Ayn Rand sobre o feminismo.

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