A Triste Intelectualidade

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Diploma de Retardado

Uma coisa engraçada que acontece no Brasil, sempre que esbarramos em “exclusividades” acadêmicas, é um sujeito qualquer querer lhe desancar sempre que não consegue ficar com a última palavra. Ele tem diploma em Biologia Molecular e acha que isso o habilita a dissertar sobre os contos de Machado de Assis, que a propósito ele nunca leu. Aqui sempre se apela para a honra em algum momento, mesmo que ela não esteja em jogo em momento algum. Você pode estar falando sobre os Anéis de Saturno, mas, se discorda de seu interlocutor, é sempre como se estivesse falando sobre o “anel” da mãe dele. No mundo dos bilhões de Einsteins e Jesus Cristos, só há espaço para discípulos subservientes. Mas, se há apenas Einsteins e Cristos, onde poderiam estar os discípulos subservientes? Talvez tenhamos que ir para Saturno procurá-los. Procurar o quê? Vida inteligente, ora porra!

Veja bem que não sou contra que um garçom discuta comigo sobre Álvares de Azevedo ou Drummond de Andrade. Por excentricidade ou humildade, é um dos meus modos estranhos de ser sociável. E inteligente. Ao contrário da população crescente de babacas universiotários, eu não penso que sou o Moisés da Literatura, um ateuzinho cheio de si incumbido de entalhar em pedra revelações transcendentais e inquestionáveis sobre problemas bem ao alcance da razão natural. Eu não ligo de discutir seja com quem for, pelo motivo simples de gostar do que faço: pensar. Exatamente por isso que não gosto de discutir com gente que, apenas porque tem um diploma, não gosta de discutir com quem não tenha o mesmo tipo de diploma, emitido por instituição “competente”. Eu não faria isso a não ser que eu fosse um médico e o sujeito um alcoólatra querendo trocar a anestesia geral por um copo de Whisky.

Eu gosto de ter razão sempre e admito que isso é um problema de vaidade. Mas alguns dos acadêmicos brasileiros são oportunistas que gostam de ter o maior pau do mundo e uma gorda conta bancária. E esse não é apenas um problema, mas o maior problema. O orgulho deixa o burro empacar no buraco dos títulos e diplomas. E o problema do buraco negro do orgulho é que, quanto mais você o cava, maior ele fica e menor se torna o senso de realidade do orgulhoso, perdido em seu universo particular de pequeno deus. Torna-se um pequeno verme, completamente ignorante de sua condição. Se o sujeito tem um diploma e 50 livros publicados e bem vendidos, não importa para ele se não há diferença entre as suas milhares de páginas escritas e numerosos rolos de papel higiênico usados. Cava, cava e acaba opaco por dentro, adornado de papel de parede por meros decoradores intelectuais, sábios de ocasião.

O idiota troca o uso do cérebro por “inteligência” autenticada em cartório. “Inteligência” adquirida por padronização, títulos ou maioria de votos. Quer ver? É de praxe entre os idiotas acusar o adversário de ser “pseudo-intelectual” ou “inculto”. Se o dito é espirituoso, vence por aplausos. Mas, se ser “intelectual” significa ser alguém que se interessa sobre as coisas do espírito, como um debatedor de filosofia pode acusar o outro de “pseudo-intelectual”, se ambos se interessam por filosofia, que é a disciplina espiritual por excelência? A princípio, não há pseudo-intelectualidade nenhuma; a menos que se prove que um entre eles esteja discutindo por mero pedantismo -mas isso mesmo costuma ser muito difícil de provar, porque há muitas variáveis. Também é muito comum e muito questionável como juízo de valor em discussão o idiota acusar o outro de “não ser culto”; porque o fator “cultura” só pode ser mensurado em relação a alguma outra coisa e, em si, pode não significar nada; se eu li “A Ilíada” e “A Odisseia” e meu debatedor não leu nenhum dos dois, então eu sou mais culto do que ele quando o assunto é Homero -mas isso não o impede de ser mais culto do que eu em muitos outros pontos pertinentes à cultura grega, por exemplo. E, se o assunto é especificamente mitologia grega e ambos ficam discutindo sobre quem sabe mais sobre Platão, então pode ser que ambos sejam cultos, intelectuais e idiotas simultaneamente. Porque o assunto não era Platão. Como todos sabemos, o modus operandi do imbecil, de qualquer naipe e envergadura, é falar sobre o que não conhece, inclusive no que concerne ao básico do básico, ou seja, a etimologia das palavras e as regras de um diálogo.

É por isso que eu digo que, muitas vezes, um “vai tomar no cu” bem dito tem muito mais profundidade científica do que a opinião de um sujeito que se ufana de suas ideias apenas por ter um diploma de Ciências Humanas no Brasil. Porque não é nunca agradável (ao menos intelectualmente) nada do que saia de ou entre em um típico CU universitário, especialmente se, fazendo como é de costume, eles subvertam a “ordem burguesa”, que manda estar acima o cérebro e, abaixo, as regiões excretoras. De modo que mandá-lo estudar é sinal de visão mais exata e, eticamente, a medida profilática mais educada a se tomar, identificada a situação patológica que tem se tornado padrão em qualquer debate de “alto nível” em terras brasileiras.

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