Delphine Roux, de Philip Roth

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A Marca Humana

Vejamos a descrição dessa mulher “pós-feminista”:

“Rejeitando -mas só até certo ponto -sua condição de francesa (e ao mesmo tempo obcecada por ela), voluntariamente exilada de seu país (senão de si própria), tão preocupada com a rejeição das Trois Grasses que passa o tempo todo calculando que tipo de postura sua poderia conquistar-lhes a estima sem confundir ainda mais sua auto-imagem e sem deturpar por completo as inclinações da mulher que ela fora outrora de modo espontâneo, por vezes abalada a ponto de se envergonhar com a discrepância entre a abordagem que é obrigada a adotar em relação à literatura a fim de subir em sua profissão e os motivos originais que a levaram a trabalhar com literatura, Delphine constata, atônita, que está praticamente isolada nos Estados Unidos. Despatriada, isolada, distanciada, confusa a respeito de tudo o que é essencial a uma existência, num estado desesperador de anseio cego e por todos os lados cercada de forças antagônicas que a veem como o inimigo. E tudo isso porque ela decidiu com determinação buscar uma vida que fosse só sua. Tudo isso porque teve a coragem de se recusar a aceitar uma visão convencional de si mesma. Ela imagina ter subvertido seu próprio eu num projeto admirável de autoconstrução. A vida é uma coisa um bocado mesquinha, por pregar tamanha peça nela. Bem no fundo, é uma coisa muito mesquinha e vingativa, que impõe destinos que não obedecem às leis da lógica, porém seguem um capricho perverso de antagonismo. Quem ousa se entregar a sua própria vitalidade termina se vendo como se nas mãos de um criminoso implacável. Vou para a América para me tornar autora de minha própria vida, diz ela; vou me construir a mim mesma fora da ortodoxia imposta pela minha família, vou lutar contra essa ortodoxia, vou levar ao limite a subjetividade passional, o individualismo no que ele tem de melhor -e eis que ela termina sendo personagem de um drama que foge ao seu controle. Termina autora de nada. Ela sente o impulso de dominar as coisas, e a única coisa que termina sendo dominada é ela mesma.

(…)

“Delphine estaria completamente isolada se não fosse a secretária do departamento, Margo Luzzi, uma criatura insignificante, trintona, divorciada, igualmente solitária, muitíssimo competente, muitíssimo tímida, que é capaz de fazer qualquer coisa por Delphine e às vezes vai comer seu sanduíche na sala dela; é agora a única amiga adulta da diretora do departamento. E também os escritores residentes. Eles parecem gostar dela exatamente pelos motivos que levam os outros a odiá-la. Só que ela é que não os suporta. Como é que Delphine foi parar no meio dessa situação? E como sair dela? Se imaginar seu dilema como um pacto faustiano não lhe dá nenhum consolo, também não adianta muito ver sua condição de estar-no-meio como um ‘exílio interno kunderiano’.”

(A MARCA HUMANA; Roth, Philip; pág. 346 e 347; Companhia das Letras)

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