Leviatã

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Thomas Hobbes

“(…) Quando um homem pensa numa coisa qualquer, seu pensamento imediatamente posterior não é, definitivamente, tão casual como possa parecer. Um pensamento não sucede outro pensamento de modo indiferente. Da mesma maneira como não possuímos imaginação, a menos que tenha sido precedida por sensações, em conjunto ou em partes, assim também não teremos transição de uma imaginação a outra se antes não a houvermos tido em nossas sensações. A razão disso é a seguinte: todas as fantasias são ações verificadas dentro de nós, relíquias das que operaram em nossa sensação. Essas sensações que sucederam imediatamente as sensações continuam se encontrando, em conjunto, depois delas. Assim, quando o primeiro movimento volta a ocupar um lugar predominante, o segundo continua, por coerência, com a matéria movida, da mesma forma que a água numa mesa pode ser puxada de um lado para outro com o dedo. Porém, sendo que, na sensação, a percepção resultante de uma mesma coisa às vezes é seguida da percepção de uma, às vezes de outra coisa, acontece, com o passar do tempo, que, ao imaginar uma coisa, não podemos ter certeza do que vamos imaginar depois. Há apenas uma certeza: o mesmo deve ter acontecido antes, num tempo ou em outro.

“Essa série de pensamentos, ou discurso mental, é de duas espécies: a primeira é desorientada, sem destino ou inconstante; não há nela pensamento apaixonado que governe e atraia os que o seguem, constituindo-se em fim ou objeto de algum desejo ou de outra paixão. Em tal caso, dizemos que os pensamentos flutuam e parecem incoerentes entre si, como num sonho. Esses são comumente os pensamentos dos seres humanos não apenas privados de qualquer companhia, mas também sem qualquer preocupação. Inclusive, pode ocorrer que esses pensamentos sejam tão ativos como outrora, mas careçam de harmonia, como o som de um alaúde desafinado, nas mãos de uma pessoa qualquer, ou afinado, nas mãos de alguém que não saiba tocar. Mesmo nessa estranha disposição de mente, um homem percebe, muitas vezes, o elo e a dependência entre os pensamentos. Assim, num discurso sobre a guerra civil, seria absurdo perguntar qual é o valor do dinheiro romano. No entanto, para mim a coerência é bastante evidente, pois o pensamento da guerra traz consigo a ideia da entrega do rei aos inimigos, sugerindo a entrega de Cristo, e esta, por sua vez, lembra os 30 dinheiros, o preço da traição; disso se infere a malícia da questão. Tudo isso sucede em poucos minutos, porque o pensamento é veloz.

“A segunda série de pensamentos é mais constante, pois é regulada por algum desejo ou desígnio. A impressão que nos causam as coisas que desejamos ou tememos é, efetivamente, intensa e permanente ou (quando cessa por algum tempo) de rápido retorno. É tão forte, às vezes, que chega a interromper ou impedir nosso sono. Do desejo surge o pensamento de alguns meios que vimos produzir efeitos análogos aos que perseguimos; do pensamento desses efeitos, nasce a ideia dos meios que conduzem a esse fim, e assim sucessivamente, até chegarmos a algum começo dentro de nossas possibilidades. E, como o fim, pela grandeza da impressão, chega frequentemente à mente, quando nossos pensamentos começam a se dissipar são rapidamente reconduzidos ao caminho inicial. Ao observar isso, um dos sete sábios deu aos homens este conselho: Respice finem. Isto é, em todas as vossas ações, considerai sempre o que quereis possuir, pois isso direcionará os vossos pensamentos para o caminho que proporcionará seu alcance.

“A série de pensamentos regulados é de dois tipos. Um em que procuramos descobrir as causas e os meios que produzem um efeito imaginado. Esse gênero é comum tanto ao homem como ao animal. No outro, imaginando uma coisa qualquer, procuramos determinar os efeitos que possa causar, isto é, imaginar o que podemos fazer com uma coisa quando a possuímos. Apenas no homem se verifica essa espécie de pensamento. Essa é, efetivamente, uma particularidade que não ocorre na natureza de qualquer outra criatura viva que não possua outras paixões além das sensoriais, como a fome, a sede, o apetite sexual e a raiva. Em resumo, o discurso mental, quando governado por desígnios, é meramente a busca ou a faculdade da invenção, que os latinos chamavam sagacitas solertia, a procura das causas de algum efeito efeito presente ou passado ou dos efeitos de alguma causa passada ou presente. Muitas vezes, o homem procura alguma coisa que perdeu; e, a partir do lugar e do momento em que percebeu a falta dessa coisa, sua mente retrocede de lugar para lugar e de momento para momento, a fim de descobrir quando e onde a possuía; isto é, procura encontrar momentos e lugares evidentes e limitados dentro dos quais possa iniciar uma investigação metódica. Seus pensamentos retornam aos mesmos lugares e tempos para descobrir quais foram as ações e contingências que causaram a perda. É o que denominamos lembrança ou evocação da memória. Os latinos chamavam esse ato reminiscentia, considerando-o como um reconhecimento de nossas ações anteriores.

“Às vezes, o homem conhece um lugar determinado dentro do âmbito no qual há de buscar; então, seus pensamentos vasculham todas as partes desse local, da mesma maneira como reviraríamos uma residência em busca de uma joia; ou como um cachorro de caça vasculharia o campo até encontrar o rastro; ou como alguém percorreria todo o alfabeto para encontrar uma rima.

“Há ocasiões em que o homem deseja saber o curso de determinada ação e, então, pensa em alguma ação semelhante do passado e em suas consequências, presumindo que em acontecimentos iguais ocorrem ações iguais. Quando alguém quer prever o que acontecerá a um criminoso, reconhece o que viu acontecer em crime igual anterior. A ordem de seus pensamentos é esta: o crime, os policiais, a prisão, o juiz e a condenação. Essa espécie de pensamento chama-se previsão, prudência ou providência e, às vezes, sabedoria, mesmo que tais conjecturas sejam enganosas, dada a dificuldade de observar todas as circunstâncias. Mas uma coisa é certa: alguns homens têm uma experiência muito maior das coisas passadas do que outros e, na mesma medida, são mais prudentes e suas previsões raramente falham. O presente somente tem uma realidade na memória; coisas que ainda devem vir não têm realidade alguma. O futuro nada mais é que uma ficção da mente que aplica as consequências das ações passadas às ações presentes; dessa forma, quem tem maior experiência age com mais certeza, mas não com a suficiente convicção. Ainda que chamemos prudência quando o acontecimento corresponde às nossas expectativas, isso não é, por natureza, senão presunção. Efetivamente, a previsão das coisas futuras, que é a providência, pertence apenas Àquele por cuja vontade sobrevivem. Dele e de modo sobrenatural provém a profecia. O melhor profeta, naturalmente, é o melhor adivinho, e quem é mais versado sobre o assunto e o tiver estudado está mais habilitado a profetizar, porque conhece um maior número de signos.

“Um signo é um evento antecedente ao consequente e, contrariamente, o consequente do antecedente, quando consequências iguais foram observadas antes. Quanto maior a frequência dessas observações, mais acertado é o signo e, portanto, quem tem maior experiência em qualquer espécie de negócio dispõe de mais signos para predizer o futuro. Por conseguinte, é mais prudente do que os mais novos naquele gênero de negócio, não podendo ser igualado por nenhuma vantagem proveniente de uma inteligência natural ou extemporânea, embora muitos jovens pensem o contrário.

“Não é, porém, a prudência que distingue os homens dos animais. Há animais com apenas um ano que observam mais e perseguem o que é bom para eles com maior prudência do que um menino de dez anos.

“A prudência é uma presunção do futuro, baseada numa experiência do passado; porém, existe uma presunção de que as coisas do passado derivem de outras coisas que não são futuras, mas passadas também. Quem já observou os procedimentos e os graus que levam um Estado florescente à guerra civil e, em seguida, à ruína, ao ver qualquer outro Estado em ruínas deduzirá que foi uma consequência das mesmas guerras e dos mesmos acontecimentos. Porém, essa conjetura tem o mesmo grau de incerteza da conjetura do futuro. Ambas estão baseadas apenas na experiência.(…)”

(O LEVIATÃ; Hobbes, Thomas; págs  33 a 36; Editora Martin Claret)

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