Gabriele D’Annunzio

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Gabriele D'Annunzio

Eu conhecia o decadentista italiano apenas de ouvir falar. Se não me engano, não existem traduções de obras completas de sua autoria. São poucos os poemas dele que foram passados para o português. Mas são fascinantes. Lembra-me muito, pelo estilo, outro poeta dileto: Raul de Leoni. Os poemas que se seguem são alguns que eu selecionei dentre aqueles que, traduzidos, pude encontrar:

 

Primeira Elegia Romana (trecho)

Quando (ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura)
meio ébrio saí de sua casa amada,

através de ruas efervescentes dos últimos labores do dia,
de rumores, carruagens, roucos gritos,

súbito senti, do fundo peito, toda a alma elevar-se,
cupidamente, e no alto vi, sobre os estreitos muros,

romper a ígnea zona por onde o crepúsculo do Outono,
céu húmido e vastas nuvens, incendiava Roma.

Nem da hora nem dos lugares me sentia consciente. Seria
um sonho falaz a possuir-me? Ou todas minhas cônscias

alegrias eram coisas a produzir em torno um insólito lume?
Não o sabia. Mas todas as coisas produziam lume.

Imóveis, ardiam as nuvens, e, qual sangue de monstros
assassinados, de seus flancos rompam rubros rios.

As Mulheres

Houve mulheres serenas,
de olhos claros, infinitas
no seu silêncio,
como largas planícies
onde um rio ondeia;
houve mulheres alumiadas
de ouro, émulas do Estio
e do incêndio,
semelhantes a searas
luxuriantes
que a foice não tocou
nem o fogo devora,
sequer o dos astros sob um céu
inclemente;
houve mulheres tão frágeis
que uma só palavra
as tornava escravas,
como no bojo de uma taça
emborcada
se aprisiona uma abelha;
outras houve, de mãos incolores,
que todo o excesso extinguiam
sem rumor;
outras, de mãos subtis
e ágeis, cujo lento
passatempo
era o de insinuar-se entre as veias,
dividindo-as em fios de meada
e tingindo-as de azul marinho;
outras, pálidas, cansadas,
devastadas pelos beijos,
mas reacendendo-se de amor
até à medula,
com o rosto em chamas
entre os cabelos oculto,
as narinas como
asas inquietas,
os lábios como
palavras de festa,
as pálpebras como
violetas.
E houve outras ainda.
E maravilhosamente
eu as conheci.

Um Sonho

Eu não ouço pela alameda muda
meus pés por onde o Sonho me conduz.
Faz-se a hora do silêncio e da luz.
E o céu um velário perlado desnuda.

Tocam os ciprestes com suas escuras
pontas este céu: imóveis, sem pranto;
mas estou triste e nem são um tanto
tristes os ciprestes das sepulturas.

A vila ao redor é desconhecida,
quase informe, por antigo mistério
habitada, onde meu pensar aéreo
se perde, na alameda emudecida.

Eu não ouço meus passos. Eu sou como
sombra; minha dor é como uma sombra;
toda a minha vida é como uma sombra
vaga,incerta, indistinta, sem nome.

 

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