“Se um viajante numa noite de inverno”

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Escrevendo

Trecho do romance de Ítalo Calvino:

“Às vezes sou tomado por um desejo absurdo: que a frase que estou a ponto de escrever seja a mesma que a mulher está lendo naquele exato momento. A ideia tanto me sugestiona que chego a convencer-me de que é verdadeira; escrevo a frase rapidamente, levanto-me, vou à janela, aponto a luneta para controlar o efeito de minha frase em seu olhar, na dobra de seus lábios, no cigarro que ela acende, nos movimentos de seu corpo na espreguiçadeira, nas pernas que se cruzam ou se distendem.

“Às vezes me parece que a distância entre minha escrita e a leitura da jovem é intransponível, que qualquer coisa que eu escreva carrega a marca do artifício e da incongruência; se o que estou escrevendo surgisse sobre a superfície lisa da página que ela está lendo, pareceria o ruído de uma unha a raspar o vidro, e ela jogaria o livro longe, com um calafrio.

“Às vezes me convenço de que a mulher está lendo meu verdadeiro livro, aquele que há tempos eu deveria escrever e que jamais conseguirei escrever, e que esse livro está lá, palavra por palavra -eu o vejo no fundo da minha luneta, mas não consigo ler o que está escrito, não posso saber aquilo que escreveu este eu que jamais consegui nem conseguirei ser. É inútil sentar de novo à escrivaninha, esforçar-me por adivinhar, por copiar esse meu verdadeiro livro que ela está lendo: qualquer coisa que eu escreva será falsa se comparada a meu livro verdadeiro, que ninguém exceto ela jamais lerá.

“E se, assim como eu a observo enquanto lê, ela me mirasse com uma luneta enquanto escrevo? Sento à escrivaninha, de costas para a janela, e eis que sinto por trás de mim um olho que aspira o fluxo das frases, que conduz a narrativa em direções que me escapam. Os leitores são meus vampiros. Sinto uma multidão de leitores que olham por cima de meus ombros e se apropriam das palavras à medida que elas vão se depositando sobre a folha. Não sou capaz de escrever quando alguém me observa; sinto que aquilo que escrevo não me pertence mais. Gostaria de desaparecer, de entregar à expectativa ameaçadora desses olhos a folha posta na máquina, deixando no máximo meus dedos que batem nas teclas.

“Como eu escreveria bem se não existisse! Se entre a folha branca e a efervescência das palavras e das histórias que tomam forma e se desvanecem sem que ninguém as escreva não se interpusesse o incômodo tabique que é minha pessoa! O estilo, o gosto, a filosofia, a subjetividade, a formação cultural, a experiência de vida, a psicologia, o talento, os truques do ofício: todos os elementos que tornam reconhecível como meu aquilo que escrevo me parecem uma jaula que limita minhas possibilidades. Se eu fosse apenas uma mão decepada que empunha a pena e escreve… Mas o que moveria essa mão? A multidão anônima? O espírito dos tempos? O inconsciente coletivo? Não sei. Não quereria anular a mim mesmo para tornar-me o porta-voz de alguma coisa definida. Só o faria para transmitir o escrevível que espera para ser escrito, o narrável que ninguém narra.

“Talvez a mulher que observo pela luneta saiba o que eu deveria escrever; ou talvez não o saiba, porque espera de mim justamente que eu escreva aquilo que ela não sabe; tudo que ela sabe com certeza é sua espera, o vazio que minhas palavras deveriam preencher.”

(“Se o viajante numa noite de inverno”, págs 174 e 175)

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