Prova de Amor

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A arte sempre foi pródiga em demonstrar as diversas provas de amor que um homem pode dar à mulher de sua vida. Serenatas, flores, melodias, jóias, o casamento dos sonhos, a condição de musa inspiradora de um poema… as alternativas são inúmeras. Menos cinematograficamente épicos, e portanto mais íntimos e líricos, são os pequenos gestos casuais. Quando transborda, o amor nasce do improviso, e uma simples carícia ou troca de olhares traduz muito mais intensidade do que qualquer cena de cinema com saxofone ao fundo.

Gostaria de dizer que o Cupido é um anjo da guarda cristão; zeloso do casal e seletivo no amor como um diretor de comédias românticas. Mas, apesar das asas e dos cachos dourados, lembremos que estamos falando de uma entidade pagã, que na verdade gosta mesmo é de pregar peças. Espicaçar os ânimos. Para bem ou para mal. Para o casal ou para terceiros. Como um sátiro ou um moleque endiabrado, ele escolhe flechá-lo quando você menos espera. Cruzando com uma estranha na rua e sucumbindo ao entreolhar-se. Conversando com uma bela mulher e se distraindo pelas formas de seu rosto. Esbarrando numa gostosa no coletivo. Não tem roteiro nem destino: tudo tão prosaico e aleatório quanto o cair da chuva ou da noite.

Infelizmente, para o romantismo, o amor não tem caráter miraculoso e predeterminado. Ninguém vai ler o seu futuro glorioso em sua mão. Mas felizmente, para nós, é possível cultivar a semente uma vez que o Sol do desejo a faça germinar. E assim produzir os frutos certos na época da paixão. E sombra e segurança na tardia (ou precoce) madureza. Nunca se deve menosprezar o poder da luz, por mais mundana que seja a forma com que deseja desfilar essa Columbina cósmica.

Nas mulheres nós não podemos ter certeza de como reverbera a pontada que se sente nessas circunstâncias. Mas é notório que o coração delas dá belos saltos como o nosso, muito embora seja bem improvável que elas cheguem a ter, similar àquela que experimentamos, uma certeza física do que se sucede. Porque, ao contrário de nossas mulheres, a pontada que sentimos… bem, digamos que não se restringe à região do peito. Nem à sutileza. Quase nunca.

Até mesmo no corpo somos mais objetivos. De fato, não é apenas por certezas físicas que somos compelidos a tomar a iniciativa na dança e nas decisões; mas, sem dúvida, elas desempenham um papel nada secundário no todo. É difícil provar para uma mulher que a amamos, porque não é dela o corpo em que se sente (embora seja dele a seiva que elas extraiam). Normalmente para elas, há um abismo de distância entre o tesão e o amor; para nós, a fronteira é tênue –e quase indistinta¹. Por isso redundam tão pouco efetivas as provas de amor indiretas que elas tanto nos requisitam, como filhos e fidelidade².

A boa notícia é que, uma vez transposta a linha limítrofe entre o amor e o tesão, as regiões renunciam à independência, se anexam e formam uma cidade apenas. Assim como os amantes. Quer seja a fronteira um abismo ou uma linha, não importa. Não é por outra razão que Deus nos disse uma vez que homem e mulher formariam “um só corpo”. E é nesse ponto de inflexão que mesmo a trivialidade pode trazer o êxtase, o entusiasmo quase místico que Dante Alighieri buscou representar junto aos Fedeli D’Amore.

Por isso eu trago tão vívida a lembrança daquele conto do Rubem Fonseca, onde a namorada ciumenta conseguia do namorado que ele tatuasse o nome dela em seu pênis, como a mais definitiva das provas de amor. Nunca me esqueci e nunca achei vulgar a situação narrada. Porque aquela mulher sabia que, uma vez que seu homem levasse tatuado o nome dela em seu próprio pênis, jamais seria aceito por qualquer outra mulher que não fosse uma prostituta. Eu tive a convicção, a partir daquela leitura, de que a prova de amor definitiva de um homem consistia em tatuar no próprio pênis o nome da mulher de sua vida –porque é um amor que afirma seu poder e unicidade ao renunciar a todos os outros amores possíveis³.

 

***

NOTAS

1. Como os masculinistas, também acredito que o homem é mais romântico do que a mulher. Muito mais.

2. É preciso deixar bem claro: sou 200% favorável à fidelidade e à paternidade. Quero dizer apenas que não necessariamente o infiel trai por ter deixado de amar. Tampouco que ter filhos é sempre uma prova de amor de um cônjuge para o outro.

3. O que não quer dizer que eu faria. Os possíveis efeitos colaterais, nesse caso, desencorajam bastante. Pode ser que nos deixem brochas. Ou com o pau necrosado. Com uma área assim, sensível, não se brinca.

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