10 músicas que marcaram minha vida (entre outras tantas)

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NOTA: a lista se encontra em ordem mais ou menos cronológica, não necessariamente de preferência.

10. A-Ha: o DJ da rádio FM mais famosa da cidade, pelo menos durante o período de tempo que abrangeu minha infância e adolescência, tinha um gosto peculiar por músicas da década de oitenta. Talvez por isso eu goste tanto delas: uma sensação de nostalgia. Especialmente nos feriados ensolarados, eu me lembro, quando todo mundo corria para as piscinas dos clubes, ele tinha o ritual estranho de colocar Take On Me para tocar às 9, 10 da manhã, às vezes mais de uma vez por dia. A música por si mesma já é legal, mas fica ainda mais saborosa com a evocação da memória.

9. Ace of Base: quando você é muito jovem, inteligente, imaginativo e bem humorado, tem uma tendência nata a acreditar como um carola existencial que, não importa o que aconteça, tudo vai dar certo na sua vida. É o que diz a moral da história, na Sessão da Tarde dos Flashdance. É o que dizem os seus familiares encantados, depois de terem rido de mais um dito espirituoso seu. O que pode ser mais representativo desse bobo-alegrismo triunfal senão um Ska inofensivo? O Ace of Base estourou com meia dúzia de hits na primeira metade da década de 90, para depois desaparecer para sempre.

8. Raça Negra: em meados da década de noventa, eu andava muito com meu pai de carro pelos arredores de Friburgo, e ele gostava bastante de colocar esse tipo de música no toca-fitas do seu Gol oldschool 1.8. Era o tipo de som que ele escutava nos bares que frequentava, comendo chouriço e bebendo cerveja; como estar sóbrio era uma exceção em sua vida, acho que no caso dele, longe de seus nobres convivas, funcionava mais ou menos como um adesivo de nicotina para um fumante. Para mim, que herdara sua alma melancólica de português, a melodia se irmanava à necessidade; também queria me evadir daquele Fado. Até hoje, se bobear, eu consigo cantar inteirinha qualquer música brega dessas.

7. Cidade Negra: o Rui Barbosa, colégio público onde passei a maior parte da minha trajetória escolar, com certeza foi um marco em minha vida. Em grande parte porque a paixão pela música nasce concomitante à adolescência, fase na qual tudo ganha um fulgor peculiar e tende a deixar marcas indeléveis na memória. Você pega o walktalkie e sintoniza na FM da moda, que à época só tocava Dance Music e aquele rock brasileiro meio besta, tipo Skank. Enquanto torce para que o professor se atrase um pouco mais, fica escorado na parede ao fundo da sala de aula, imaginando mil cenas de beijo naquela menina bonita que você não teve coragem de “chegar” na hora do recreio. As coisas são ridículas e as coisas são assim.

6. Guns ‘n’ Roses: eu não sei exatamente quando eu comecei a ouvir Guns; talvez a partir de 1998, quando eu contava então com os meus 17 anos. Antes de tão sublime descoberta eu ignorava solenemente o que era Rock, o Rock de verdade. Para mim, esse ritmo musical se identificava com aquele sonzinho brocha produzido em escala industrial no Brasil, cujos expoentes máximos eram os Titãs e o Barão Vermelho –o Rock de FM, como diria Lobão. No auge de minha rebeldia de proto-marxista de boutique, um Welcome to the Jungle vinha muito a calhar àquela altura, em que eu descobria o teor selvagem de minha alma.

5. Antestor: malgrado estejamos falando de uma sonoridade assaz macabra, foi um tipo de música que me marcou bastante durante o meu processo de conversão, por incrível que pareça. Eu estava passando por um momento de forte misticismo e andava muito envolvido com literatura, sobretudo poesia simbolista e decadentista, ao mesmo tempo em que lia muita (mas muita mesmo) literatura católica. Apesar de ter sido batizado na Igreja Católica, até os meus 18 anos eu nunca fui um católico de fato. Foi durante esse período de estudos que adquiri uma erudição considerável relativamente a meus amigos e conhecidos, que permaneceram “de esquerda”.

4. Dimmu Borgir: como eu vinha dizendo, na transição da adolescência para a fase adulta eu experimentei uma reviravolta grande na minha vida. Nunca havia me interessado por literatura antes, no entanto passei a ler com regularidade, muitas vezes autores herméticos como Baudelaire, Camilo Pessanha, Georg Trakl, William Blake etc. O Dimmu era uma banda que se caracterizava justamente pela atmosfera mórbida, aliada a certo gosto por melodias medievalistas; condizia com o fulgor esteticista e religioso que então me arrebatava, me transformava. Eu havia fracassado no vestibular para engenharia. Optei por cursar Letras em vez de tentar mais uma vez.

3. The Police: talvez a paixão mais fulminante de minha vida eu tenha vivido em meus primeiros anos de faculdade. De vez em quando eu esbarrava com uma ruivinha que me incendiava até a medula; desde o início era bastante evidente o meu interesse por ela, e por isso mesmo ela procurava ficar distante (namorava e era honesta, o que me deixava ainda mais fascinado). Um dia eu descobri, por intermédio de uma amiga em comum, que a música predileta dela era Every Breath You Take –que também era, na época, a minha! Para minha surpresa, ela estava em vias de separação do namorado e não era mais completamente indiferente a meus olhares.

2. Raimundos: desde o momento em que passei a escutar Rock, nunca mais parei. Pode parecer difícil para alguém de fora entender, mas quem é de dentro compreende muito bem: é um estilo de vida, não um estilo musical. Durante meus vinte anos, lutei muito para regular minha forte veia iconoclasta com a necessidade de adaptar meu discurso às circunstâncias, sem parecer pesado para ninguém. Raras vezes eu logrei sucesso. Quase sempre fui um fardo. Não foi por outro motivo que fui chamado de racista e nazista durante essa época, muito em virtude de minha necessidade de me expressar, atropelando o raciocínio e o bom senso. O espírito da juventude é naturalmente temperamental; o meu, ácido e explosivo, ainda vinha regado por chuvas de riffs e melodias roqueiras.

1. Duran Duran: quando as pessoas dizem que você adquire certa tranquilidade ao ficar velho, costumamos achar meio que um exagero. Nunca vou deixar de ser o que uma vez eu fui, outros eus que de vez em quando emergem; mas os tons de outras idades se embotam inexoravelmente, se diluem na serenidade do crepúsculo. O que há no fundo? Há uma certa nostalgia, há certos lampejos em época de tempestade; mas prevalece o esfumaçado spleen. Você se agita, mas também se senta e contempla. Talvez com a esposa e os filhos na areia da praia. Vou te falar: eu tenho ouvido muito as músicas que apreciava na década de 80. E tenho gostado.

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