Inquisição: Considerações sobre um Mito (parte 2)

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” No tempo de Galileu, a Igreja se manteve mais fiel à razão do que o próprio Galileu e levou em consideração também as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O processo contra Galileu era justo e racional.”

– Paul Feyerabend (filósofo cético-agnóstico)

NOTA:  EU JÁ AFIRMEI AQUI QUE A INQUISIÇÃO, AO CONTRÁRIO DO QUE NORMALMENTE SE PENSA, FOI BASTANTE LENIENTE EM RELAÇÃO AOS CRIMES CONTRA A FÉ. POR OCASIÃO DO MEU ARTIGO “INQUISIÇÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE UM MITO”,TIVE QUE AGUENTAR INÚMEROS CHILIQUES ESQUERDOPÁTICOS. POIS BEM. VOLTO AO ASSUNTO, MOSTRANDO PROVAS AINDA MAIS CABAIS.

Galileu Galilei“Os intelectuais aí reunidos, revendo o famoso caso Galileu, no século XVII, destacaram o fato de que a tese heliocêntrica defendida por Galileu não podia apresentar em seu favor razões convincentes na época. Galileu julgava que o fluxo das marés seria a prova da revolução da terra em torno do Sol, quando na verdade se sabe que as marés se devem à força da gravidade da Lua. Sem argumentos sólidos, a tese de Galileu só podia parecer errônea aos teólogos do século XVII (detalhe: NÃO ERA mais Idade Média), para quem o geocentrismo tinha não somente base científica, mas também autoridade incutida pela Bíblia…

(…)

“Muitos erros e mentiras são propagados sobre o caso Galileu: alguns dizem erroneamente que ele foi condenado na Idade Média, torturado e morto; nada disso ocorreu. Galileu nasceu em 1564, portanto, um século após o término da Idade Média (1453). Dizem que ele foi condenado por dizer que a Terra era redonda. Mas já na antiga Grécia isso era admitido por Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. A expedição de circunavegação da terra feita por Fernão de Magalhães, em 1521, foi prova da esfericidade da Terra.

“Outros, enganados, dizem que Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica (Sol no centro do Sistema Solar). Essa teoria começou com Aristarco de Samos, no século III a.C., cerca de 1900 anos antes de Galileu e depois anunciada pelo frei Copérnico, antes de Galileu. Outros dizem que Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico. Na verdade ele foi condenado por causa do ‘modo’ como o defendia e não pelo que defendia.

(…)

“O sistema geocêntrico de Ptolomeu esteve em vigor durante toda a Idade Média, quando em 1543 o cônego Nicolau Copérnico publicou, no ano de sua morte, o livro De revolutionibus orbium caelestium, em que sugeria outra concepção: ‘a Terra e os demais planetas giram em torno do sol’. A obra foi dedicada ao Papa Paulo III (1534-1549), que a aceitou sem contradição. Os doze Papas seguintes não se opuseram à tese de Copérnico, embora, por falta de provas seguras, ninguém adotasse ainda a nova teoria como verdadeira. Com Galileu a coisa mudou.

“Galileu, a partir de 1610 defendeu as ideias do Cônego Copérnico e recebeu elogios, principalmente por parte de cientistas jesuítas dos quais já falamos antes (Clavius, Griemberger e outros), que o colocaram como ‘um dos mais célebres e felizes astrônomos do seu tempo’. Em março de 1611, tendo ido a Roma (era natural de Pisa), foi recebido pelo Papa Paulo V (1605-1621) em audiência particular, onde pôde explicar a bispos e príncipes as maravilhas que tinha descoberto. Foi recebido como membro da Academia ‘dei Licei’. Os professores e pesquisadores jesuítas dedicaram-lhe uma festa no famoso Colégio Romano, com a presença de condes, duques, muitos prelados e alguns Cardeais.

“Na época, a maioria dos homens do clero concordava com a teoria geocêntrica (Terra no centro), mas havia também bispos e cardeais adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. O Cardeal Maffeo Barberini não concordou que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Caetani. (Viganó, 1986)

(…)

“O erro de Galileu foi que ao invés de responder com argumentos físicos, usou também argumentos bíblicos. Assim, infelizmente, a disputa, que deveria ser apenas de caráter científico, passou para a exegese e a teologia…

(…)

“Em maio de 1630, Galileu foi a Roma para obter o necessário ‘Imprimatur’ do seu livro. O encarregado de examinar seu livro, Pe. Riccardi, amigo pessoal de Galileu, conclui que eram necessárias algumas correções: 1- mudar o título, que era ‘Diálogo sobre as marés’, porque destacava muito o único argumento (e errado) de Galileu para provar o sistema copernicano; 2- alterar algumas passagens e 3- alterar o prefácio, de modo a não apresentar o sistema heliocêntrico como verdade segura, mas sim como hipótese.

“Diante disso, Galileu resolveu imprimir o livro em Florença. Pe. Riccardi concordou, desde que Galileu lhe trouxesse o primeiro exemplar da obra, com as devidas correções, para receber o ‘Imprimatur’. Galileu argumentou que a peste que existia na região impedia a comunicação entre as duas cidades. Então, mais uma vez, Riccardi cedeu, concordando com o exame da obra em Florença, bastando enviar a Roma o título e o prefácio.

Copérnico“Em Florença, Galileu conseguiu que o revisor fosse outro amigo seu, Stefani, que foi induzido a pensar que a obra já tinha sido aprovada em Roma. Stefani concedeu a autorização. O título e o prefácio foram enviados para aprovação e o livro foi publicado em 1631.

“Quando Riccardi recebeu um exemplar da obra completa, viu com surpresa que, antes da aprovação florentina, figurava a sua. E sem nenhuma correção no corpo do livro: o sistema copernicano era apresentado em toda obra, exceto no prefácio, como verdade incontestável. Em vista desse erro de procedimento de Galileu, Urbano VIII, pressionado pelos adversários de Galileu, e considerando a desobediência formal à proibição de 1616, passou o assunto à Inquisição.

“A comissão encarregada de examinar a obra agrupou a censura em oito pontos, esclarecendo nas conclusões que todos eles podiam ser corrigidos (as marés como falsa prova, apresentar o sistema copernicano apenas como hipótese etc.). Mas, acrescentava, a desobediência era um agravante bastante sério.

“Galileu, chamado a Roma para julgamento, depois de vários adiamentos (doença, velhice, peste, inundações, foram os motivos alegados),  lá chegou em 12/02/1633. Hospedou-se inicialmente no palácio do Embaixador de Florença; depois passou a residir no edifício da Inquisição, em aposentos do Fiscal da Inquisição, ‘cômodos e abertos’, com bons tratos. Foi submetido a quatro interrogatórios. No primeiro negou que houvesse defendido o sistema heliocêntrico em seu livro. No segundo declarou que, relendo o livro, reparara que em alguns trechos o leitor podia realmente pensar que ele defendia tal sistema. No terceiro desculpou-se por desobedecer à proibição de 1616, afirmando que a advertência tinha sido verbal e que não recordava de uma ordem para ele em particular. No quarto e último interrogatório (em 21/06/1633), quando lhe perguntaram solenemente se defendia o sistema copernicano, respondeu negativamente.

(…)

“Galileu ouviu de pé a leitura de sua condenação (três anos de prisão; recitação semanal dos sete salmos penitenciais, por três anos). Depois, de joelhos e com uma mão sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuração, no qual declarava que era ‘justamente suspeito de heresia’

Nessa ocasião, Galileu teria exclamado, batendo com o pé no chão: ‘e pure si muove’ (e todavia se move). Mas isso não é verdade. É uma fantasia que apareceu pela primeira vez em 1757 (mais de um século depois), em obra de Baretti.

“Além das penas pessoais, também foi proibido o livro de Galileu. No dia seguinte, a sentença foi comutada pelo Papa. Galileu foi viver no palácio do Embaixador de Florença e depois passou para a casa do Arcebispo Piccolomini, seu discípulo e admirador, em uma espécie de prisão domiciliar. Foi-lhe permitido voltar a Florença em 10/12/1633, cinco meses e oito dias depois da condenação.”

-FELIPE DE AQUINO

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