Jardim de Infância Espiritual

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Manifestações

Outro dia eu estava assistindo a um programa de debates e entrevistas no qual discursava o professor de teologia Luiz Felipe Pondé. Ele falava sobre esse novo fenômeno ético mundial que é a adoção de uma nova espécie de “puritanismo”, que pouco teria a ver com o puritanismo religioso original, de raízes protestantes. Os puritanos, a grosso modo, seriam um grupo de indivíduos que se acredita ungido e superior por adotar certos costumes e certas crenças em comum; o inferno seriam os outros. Para mim, não poderia haver uma metáfora mais precisa do que essa.

Porque de fato existe uma certa espiritualidade fake, disfarçada de bom senso civilizacional, que se quer vender como um pacote de “redenção sem culpa”; ela logra sucesso porque determinados setores da sociedade foram adestrados, por sua própria culpa, num hedonismo que alija da equação vivencial todos os vetores desagradáveis do comportamento humano, tais como a violência, o medo e o preconceito. No mundo quase psicopatológico de “pureza asséptica” construído no imaginário dessas pessoas, o paraíso artificial do bom-mocismo se introduz na medida em que fica evidente o “aluguel” que se paga para se viver em paz na materialidade desse mesmo Éden.

Capitão PlanetaOcorre que não há redenção sem culpa -e nem tampouco culpa onde não há necessidade de redenção. A vida cobra. De modo que os neo-puritanos não assumem a culpa que, de fato, têm, nem se redimem através de sua afetação de vida “pura”, sem problemas e sem ônus espiritual -redimida pelo espantalho chic da civilização (o substituto da cruz de Cristo). E tudo acaba se  tornando teatral e grotesco, porque é uma espécie de penitência contínua e inconsciente. Reduz-se a uma espécie de TOC. O medo que eles têm de confrontar a realidade é o mesmo medo que os impede de analisar criticamente a suposta culpa que eles acreditam possuir pelo infortúnio de outras etnias, por exemplo, ou por experimentarem a sensação de raiva ou preconceito em relação a outra pessoa.

Num cenário de tensões mal resolvidas, como é precisamente o caso, há sempre a necessidade de se identificar as vítimas, reais ou imaginárias. Identificando-se as vítimas, cumpre achar aquele que possa assumir o papel do vilão, do antagonista. Como são sempre covardes, o protagonismo heróico fica sempre com eles mesmos. Para não serem obrigados a repensar suas confortáveis vidas, os neo-puritanos se veem compelidos a criar, ou assumir como própria, uma mitologia maniqueísta que reduz a complexidade do real a uma simplicidade absolutamente pueril.

Nesse contexto é que temos absurdidades como intelectuais de classe média demonizando  a própria classe média, da qual fazem parte. Mas esse é o lado mais fácil da história, porque a trajetória da esquerda marxista, com toda a sua alucinação subversiva e seu complexo de coitadismo, é um engodo fartamente documentado e desmascarado. Seus sacerdotes do Reino do Homem Ressentido já caíram em descrédito. O difícil é reconhecer outra escatologia “neo-religiosa” que se disseminou pela sociedade e quer fazer parecer que já estamos no paraíso -do qual os recalcitrantes precisam ser expurgados.

Os desesperados de hoje: o “eu sou feliz” como mantra

Beliebers

Refiro-me àquela gente que possui uma espiritualidade rasa, de quem não tem muito compromisso consigo mesmo; uma espiritualidade que se sacia com livros de auto-ajuda (inclusive tratando a Bíblia como tal). Esse tipo de gente ficou tão mimada, existencialmente, que prefere ignorar o aspecto cru da existência, que envolve certa dose de brutalidade. “Vai ficar tudo bem”, eles repetem para si mesmos, como um mantra ou uma canção de ninar para uma criança assustada. Não, não vai ficar tudo bem -e eu NÃO sinto muito por isso. A violência, o medo, a tristeza e o sofrimento são, antes de tudo, agentes depuradores; se não houvesse essa forma de disciplina, não haveria como sentir o gosto da existência e adquirir  uma certa dose de originalidade que é a própria tradução do “eu”. Ocorre que os neo-puritanos transformaram sua disciplina existencial (pois todos necessitam de uma) numa espécie de sublimação; se existe algo de profundo neles, não é nada singular, e pode ser identificado como medo de existir; o sujeito peca contra o “eu”, porque o negligencia, e peca contra o outro, pois o reduz de ser humano a anteparo existencial. Quero dizer: a falta de substância para justificar uma existência, pois um eu sem um eu é uma prevaricação ontológica, faz com que os seres humanos se tratem como menos;  com efeito, seu relacionamento com um outro não é um relacionamento com um outro real, mas sem dúvida nenhuma como num jogo de espelhos, um jogo medroso e egocêntrico, onde o reflexo identificado atua como ratificador de uma existência serena, em contraposição ao caos vertiginoso que faz parte de sua composição (da existência).

EsquentaEsse “medo do escuro” faz com que as pessoas se refugiem em grupos, quando, na verdade, a sadia associação em grupos é muito mais uma experiência estética, uma experiência de gozo, uma “ação afirmativa”. Ninguém que vive “se refugia”, como um criminoso. Quer me parecer que essa união espúria seja uma manobra para tornar a vida mais “suave”. Eu pensava especificamente nesses intelectuais de academia (no sentido de legitimados pelo Poder), mormente de esquerda, que se tornaram predominantes e que ignoram todos os dados para fazer prevalecer uma teoria palatável. Mas também é uma condição que pode ser relacionada ao cidadão comum, cuja vida não é legitimada pela consciência da realidade, mas antes pelo status quo grupal (na família, no grupo de amigos, na universidade etc.), como se fosse o diletantismo de um moribundo. Esse tipo de descompromisso leviano faz nascer, consciente ou inconscientemente, o entendimento da verdade como algo relativo. Não que as pessoas não creiam na verdade: elas não acreditam  que o sujeito conhecedor possa apreender, de maneira satisfatória ao menos,  o objeto do conhecimento; haveria uma “falha de hardware” em nós. Nesse contexto, a verdade seria uma necessidade puramente política, um instrumento artificial para manter a coesão social -uma convenção, em suma.

Eu tenho a firme convicção de que, se a realidade não fosse lancinante, não existiria beleza nem, portanto, vontade de viver. Você já apreciou alguma obra-prima da literatura que não o incomodasse profundamente? Todos aqueles que leem autores como Fernando Pessoa ou Franz Kafka, por exemplo, experimentam uma sensação de desconforto antes de experimentar a catarse e a estesia. Você já leu com paixão a obra de Deus?  Eu penso que a vida também se processa, sem se tornar apática ou insossa, através desse movimento de alma. Ocorre que a própria existência humana implica uma dicotomia que tem por fim “purificar” o ser humano, resgatá-lo da grossa camada de mentiras sob a qual foi soterrado o homem verdadeiro. Não é por causa da verdade que ele expressa que o mito da caverna de Platão seduz: é por causa da beleza que trescala do discurso. Não é por causa da verdade do vaso que sua sombra é desprezada: é por causa da beleza das formas reais.

Assim, eu penso que a violência é um valioso instrumento, para bem ou para mal. Um exemplo: eu nunca vi a catedral de Notredame ser pixada, ao passo que já vi, por diversas vezes, arquitetura moderna ser depredada dessa forma. Será que os pixadores têm uma sensibilidade “medieval”? Na verdade, a beleza e a imponência da referida catedral vem de sua violência; como qualquer obra de grande valor, Notredame é uma realidade em si que nos esmaga, que nos impõe sua presença.  A verdadeira obra de arte nos humilha, porque nos atira à face toda a grandiosidade da existência. Por outro lado, a arquitetura moderna presta culto ao homem, como se ele fosse pleno (o artista ou o homem no sentido genérico); e é por causa da feiúra dessa mentira que ela agride nossa sensibilidade, dissimulando-se de afago. Como diria Roger Scruton, os pixadores não estão vandalizando o patrimônio, mas apenas completando um trabalho de vandalização da existência, que é o maior dos patrimônios.  O pixador é como o menino que percebe que o rei está nu, naquela história -mas ao invés de vesti-lo, tira a roupa também.

A religiosidade do homem de hoje é um culto prestado à própria existência (como contrapeso à essência)

Manifestações USP

É impressionante a que labirintos  a consciência de nossa finitude pode nos arremeter; fomos expulsos do paraíso e não podemos conviver com isso; por essa razão, buscamos um substituto na efemeridade da vida. Todos somos assim. Nossa vida cotidiana é construída, do ponto de vista psicológico, sob o peso do assombro diante da perspectiva de um futuro nada agradável. Com efeito, o presente não é vivido como se devia, com todas as suas reivindicações (realmente) sérias, mas como uma fuga de si mesmo; somos tão mimados que não suportamos o fardo de termos que pensar que a morte, e todas as questões que se desdobram daí, são uma realidade concreta. Por isso nós não pensamos, e vivemos em nós mesmos como se fôssemos simulacros de uma vida que só transcorre em nosso interior. Nossa vida é compartimentada, porque a artificialidade nos ajuda a escamotear toda gama de afetos e temores impertinentes que realmente nos movimentam, e o tempo flui como um mantra de felicidade.

Culto PentecostalA religiosidade em nossa sociedade atual, via de regra, funciona como uma muleta contra a dureza da realidade, em vez de escada; em nada difere da aquisição de um produto que torne a vida mais fácil. O homem religioso de hoje em dia, em geral, é o sujeito que tem epifanias cristãs aos domingos, nas cerimônias religiosas, e se refastela como um pagão no banquete mundano da realidade, ao longo da semana. É a síndrome do paraíso adolescente. Tudo em função de afastar de seu horizonte a miséria de seu próprio ser. O homem pós-moderno é de tal forma omisso em relação à realidade das coisas que, sendo ele protestante (por exemplo), pode ter experiências de  cura e até presenciar ressurreições em seus cultos dominicais, e ao mesmo tempo recorrer a hospitais quando, ao longo da semana, fica doente.

Certamente é fácil identificar uma religiosidade postiça no cabedal de crenças seculares que se multiplicaram como uma praga hodiernamente. É muito fácil duvidar  de alguém que crê que a cor da pele ou a condição social tornam uma pessoa mais justa e sensata que outra; ou que salvar as baleias do Japão vai tornar a vida e os homens melhores. Difícil é reconhecer que até mesmo as religiões tradicionais, com personagens sérios como Jesus, foram contaminadas por essa megalomania e superficialidade da espiritualidade “new age”. Eu tenho saudades da época em que os protestantes, ainda que rotulados de malucos, usavam aquelas roupas anacrônicas e acusavam os outros de adorar ao capeta; pelo menos eles tinham alguma personalidade; hoje em dia, grande parte deles quer simplesmente vender uma autoimagem de felicidade. O que eu quero dizer é o seguinte: ninguém quer mais fazer proselitismo por solidariedade ao outro; a difusão do pensamento religioso se tornou uma terapia pessoal.

Eu tenho náuseas quando vejo aqueles grupos de cristãos se reunindo na praça, todos sorridentes, cantando como Jesus é legal e faz todo mundo feliz, aos embalos de um sujeito tocando violão. São os hippies do século XXI, no barato de outro tipo de entorpecente. Eles sabem que não vão converter ninguém oferecendo esse Jesus diet. Porque ninguém acredita verdadeiramente em propaganda. Tudo o que eles querem, no fundo, é fazer o outro acreditar que ser como eles é que é ser legal, pleno, feliz, cheio de “unção”… Tudo virou uma questão de marketing narcisista. Com efeito, quando o sujeito “se converte”, a expectativa que ele tem é de fazer parte de uma espécie de spa onde todo mundo se sente especial. Sinceramente, eu não vejo nenhuma diferença substancial entre esse cristianismo pós-moderno, fácil, e o ecologismo boboca que acredita nos poderes escatológicos de uma dieta à base de tofu…

Last but not least…

Hare KrishnaEu não creio, como muitos propagam, que vivemos sob o signo do individualismo; nem acredito que ocorra precisamente o contrário, ou seja, que a principal ameaça se restrinja ao coletivismo devorador.  Na realidade, a maior crise que enfrentamos chama-se crise de integridade. A pessoas acreditam que são livres, o que significa ser íntegro, mas a verdade é que elas vivem como carneiros dentro de um curral. Ou como lobos fora dele. Tudo na vida é precisamente uma questão de vitalidade, segundo a qual o semideus humano só se alimenta do nácar divino, o substrato alquímico que existe em todas as coisas. Mas parece que a vitalidade, uma espécie de autossuficiência, se degenerou em negócio, que é precisamente o seu oposto; o homem sempre se caracterizou por estabelecer uma relação produtiva com o meio, com os demais, mas seu espírito tem se degradado a uma condição cada vez mais parasitária. De sanguessuga. Quer melhorar a vida? Compre um lugar na universidade. Quer comprar a salvação? Compareça ao nosso consórcio dominical. Quer ser feliz? Temos os mais variados tipos de cônjuges. A vida foi compartimentada em prateleiras. E os seres humanos também.

Mas por que eu critico grande parte dos religiosos, sejam eles seculares ou tradicionais? Porque sua fé é transgênica, artificial, pré-fabricada. Porque ela não é orgânica. Não é aplicada ou refletida segundo as circunstâncias. Logo, nenhuma forma de altruísmo dessa espécie reflete uma verdadeira caridade ou busca de salvação. Eu costumo utilizar a seguinte alegoria para ilustrar o meu ponto de vista: imagine que um homem seja jogado, por dois outros, dentro de um buraco de dois metros de altura e dez de diâmetro. Eles dizem a sua vítima que ela não merece viver. Noite e dia, talvez tantalizado pela condenação de seus algozes, o homem-vítima treme e desespera. Um belo dia, um homem-samaritano passa pelo lugar e, encontrando um sujeito famélico e assustado, jogado dentro de um buraco, resolve perguntar-lhe o porquê de seu estado. “Não vê que estou faminto e que fui condenado à morte?!”. “Na verdade, não é isso o que me espanta em sua condição… Mas quem lhe fez isso?”. “Dois homens malvados me jogaram aqui! Mas Deus me enviou uma boa alma para me resgatar… Não vai me resgatar?”. “Sim”. “Então me dê a mão!”. “Não”. “Por quê?! Não tem humanidade!?!”. O homem-samaritano lançou uns olhos compassivos e desagradados  ao desgraçado, como se estivesse fitando um cão vira-latas, e disse: “Se você não pode sair daí por si mesmo, então aqueles que o jogaram nesse fosso têm toda razão e falam a verdade, e você não merece viver. Eu respeito, acima de tudo, a verdade. Se não toma consciência de si mesmo, por que eu deveria tomar consciência de alguém que nem sequer existe? Não posso tratar como indigente aquele que se enxerga como majestade…”. Dizendo isso, o homem-samaritano partiu, e o homem-vítima morreu de inanição de espírito: sufocou em razão de suas próprias imprecações, antes mesmo que pudesse ser subjugado pela necessidade real.

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