Reflexões Esparsas: Democracia

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  • Democracia significa dar salvo-conduto para que o cidadão médio, convenientemente oculto pela massa dos eleitores, dê vazão a suas paixões mesquinhas. As pessoas votam umas nas outras porque acreditam que fulano de tal é honesto (frequenta a mesma igreja que a criatura), porque beltrano deu emprego para não sei quem, porque cicrano fez o calçamento lá de casa. A verdade é que ninguém analisa “plano de governo”; mesmo se analisasse, é estupidez crer que o povo (na maioria analfabetos funcionais) saberia fazer sua opção com discernimento. O povo que elege é o mesmo que aclamou Hitler, é o mesmo que mandou soltar Barrabás. O povo foi feito para ser conduzido, nunca para conduzir.
  • Conheci uma mulher idosa que me disse que iria votar no candidato X, porque, se o candidato Y ganhasse, ele dispensaria a empresa onde essa mulher trabalha (terceirização de serviço público). Provavelmente é um emprego que faz muita diferença no orçamento dela; como eu poderia dizer que ela estava errada? Mais uma demonstração da precariedade desse regime e da gambiarra estrutural de que está pendendo, como uma cabeça decepada do corpo (e que insiste em viver).
  • Democracia, enfim, é como uma poção da invisibilidade, tanto para o eleitor quanto para o eleito.  Qualquer um faz a cagada que quiser sem ter que se responsabilizar diretamente. “Foi culpa do governo anterior!” ou: “Quando votei nele, parecia um sujeito do bem. Mas o poder corrompe”. Uma ova, meu irmão…
  • O grande barato da democracia, para o homem médio, é poder se ocultar no voto secreto para praticar a leviandade que quiser. Infelizmente a natureza humana é assim. Quando o ser humano concentra um poder nas mãos por cujo uso ele nunca terá que prestar contas, acontece uma coisa interessante: arbitrariedade! O passo que não damos no sentido da tirania (dos outros ou de nós mesmos), esse passo nós só não damos em virtude do temor de sermos punidos pela sociedade. Isso é bom por um lado, porque controla a loucura e afasta a anarquia; mas o que escapa disso chamamos de “paixão”, no campo da ética, e de “democracia”, no campo da política.
  • Oculto na massa revela-se o verdadeiro indivíduo. Nunca a sua face me pareceu pura. Por isso pessoas normalmente civilizadas, ao juntar-se em bandos de torcedores, depredam estádios, agridem torcedores rivais e até mesmo desafiam a polícia. Por isso a democracia não funciona: é refém das paixões de um povo.
  • Tudo isso é culpa de certo positivismo, certo otimismo injustificável na evolução das sociedades. Tem gente que acredita que o amanhã será melhor que o hoje, NECESSARIAMENTE. Você pergunta “por que” e a criatura não sabe lhe responder. É um dogma materialista. Sim, porque, se você incluir Deus na equação, vai chegar à conclusão absurda de que Ele é um louco ou um moleque zombeteiro.
  • O que as pessoas antes chamavam “virtude”, hoje ganha o nome de “vício”. Você acompanha a cabeça de algum indistinto bóson de higgs cultural, na verdade uma manipulação ideológica, e chega à conclusão de que é preciso ser covarde para ser virtuoso, seguindo conveniências em vez de princípios. A verdade é que covardia nunca foi virtude. E ponto final.
  • Como escolher sabiamente? Como governar com sabedoria? Como organizar uma sociedade com discernimento? Transformando todos em pHD’s, para que sua “iluminação” demonstre o caminho? Um povo de sábios, com efeito… Mas falávamos verdadeiramente de política ou contávamos piadas sobre utopias ridículas?
  • Já ouvi um sujeito dizer, a respeito de minhas críticas à democracia: “Você não pode esperar pela perfeição. Todo sistema político tem seus defeitos”. Não obstante a democracia seja 100% defeituosa, ignoremos o fato; consideremos que haja alguma medida de perfeição e imperfeição nesse regime. Pois bem: como posso não detestar um homem que não busca a perfeição? Um cão busca a perfeição do ser cão, pois assim lhe ordena a natureza, a maestra de todas as coisas sensatas; se um homem não busca a perfeição de ser homem, ou seja, chegar à plenitude de sua racionalidade (medindo e organizando com precisão, na medida de suas capacidades), como ele pode chegar a estar em paz consigo, salvo se contentando com uma paz ilusória (porque potencializa a paixão como “sublimação” de um desejo eternamente insatisfeito), com o insatisfatório, o senso comum -parente da loucura?
  • Mas então o homem é mau por natureza? Não, o homem tende ao mal por natureza, como comprova a história da humanidade. Se o homem fosse mau, teríamos que admitir que o mal faz parte da natureza -o que seria absurdo e desesperador, justificador do suicídio. Na verdade, vemos que a grande massa das pessoas prefere o caminho mais fácil, para onde são levados por meio de seus sentidos (ou ignora que grande parte das pessoas vota simplesmente por “emoção”, ainda que isso lhes passe despercebido?). Este é o homem corrupto: aquele que se esquece de sua condição superior e comporta-se como um animal inferior, refém de seus instintos, praticando o mal contra si mesmo (e os demais), isto é, desordenando a natureza. Não poderíamos superar isso inteiramente, porque a grande massa das pessoas é composta por brutos. Somente os mais esclarecidos podem governar, porque são aqueles que estão constantemente atentos à miséria de sua condição; sua abnegação, seu amor pela arte de cultivar o espírito: esses são os remédios,  a depuração da insaciável ignorância, a auto-flagelação necessária e contínua.
  • Porque a física quântica já comprova o que sabíamos por intuição: somente o espírito permanece. A ciência das menores partículas, do grandioso simples chegou à convicção de que o espírito está além do tempo e do movimento; a lei, aquela lei que ordena as coisas sem que isso represente uma solução paliativa, essa lei é alcançável. Os ociosos concuspicentes odeiam ou se rendem à forma precária pela qual se organizam os homens, mudando de opinião assim como o folhas ao sabor do vento. Mas o homem que busca a sabedoria não deve ser assim; deve ser o senhor de seu destino para ser o senhor de seu mundo; o homem que se depura deve estar atento à entropia, àquilo que o balança como um saco vazio ou o escraviza como um boneco de ventríloco.  Somente o homem que ama a condição “ser homem” pode ser livre, além do individualismo e de outras coisas superficiais. Você sujeita a matéria por uma convicção de espírito: essa é a conclusão incipiente da física quântica (e não pode haver convicção onde governa a conveniência).
  • O grande problema do homem moderno é ser escravo de sua angústia, como um verdadeiro Tântalo. Um homem assim não suporta o presente e vive uma morte continuada, porque sua futilidade o abandona ao tempo, o furioso Cronos. Compra uma casa… dois minutos depois ele deseja uma maior; casa-se com uma esposa… e dois anos depois deseja uma melhor. Está sempre em fuga, ignorando se há ou não necessidade de fugir. Não é de se surpreender que haja, hodiernamente,  a predominância do vício, a corrupção dos costumes e o crescimento do crime. Um homem que se acostuma a essa voracidade egocêntrica falseia a realidade: ele próprio se torna todo o universo, sem se aperceber desse sofisma. É um buraco negro humano, um agente de putrefação -um verme.
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