O Manchester City comprou a Premier League?

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Sempre que algum campeonato de futebol termina, é praxe ouvirmos as ladainhas costumeiras da parte dos derrotados. Quando não se atêm nas críticas ao próprio clube de coração, os torcedores gostam de recorrer a pichações para ofuscar o brilho do rival vitorioso. Não raro a “poeira sacudida”, causadora de mal estar, vem de seus próprios e lastimáveis andrajos, de suas cicatrizes de fracassado.

No caso, a mesquinhez vem trajada de vermelho, com um providencial diabo vermelho do lado esquerdo do peito. Depois de observar o triunfo do lado azul de Manchester, que acabara de conquistar o primeiro título inglês depois de longos 66 anos, jogadores e torcedores red devils preferiram chamar a atenção para o azar que assombrou sua campanha (logo, a sorte que premiou o adversário). E alguns dentre eles optaram mesmo por questionar a honradez dos citzens.

Não é nenhuma novidade o tipo de acusação que vem recaindo sobre o Manchester City. Vezes ou outras, mas sempre quando os citzens vencem, aparece um espírito-de-porco para dizer que os citzens estão “comprando a liga”. Ora, “comprar a liga” seria fazer uso de expedientes escusos para vencer o campeonato; Juventus e Olimpique de Marselha já o fizeram, em tempos idos. Mas fazer parcerias com milionários e pagar fábulas por bons jogadores não é “comprar a liga”. Pelo contrário: faz parte do jogo.

Faz parte do jogo também o que acontece fora das quatro linhas. Nossos próprios acusadores foram os pioneiros na arte de “comprar a liga” -ainda que essa expressão pejorativa, quando usada para definir sua própria conduta, tivesse sido substituída, à época, pela elegante “gestão profissional” do futebol. Nos tempos românticos, quando o futebol e a tradição prevaleciam sobre o dinheiro, enquanto clubes nada históricos como Manchester City e Nottingham Forest comiam o pão que o diabo amassou em divisões inferiores, clubes como Arsenal e Manchester United ficavam a léguas de seus adversários, em termos de prosperidade, ao introduzirem a novidade do clube-empresa no futebol. Por que olhar para a discrepância da folha salarial dos Red Devils, em relação a outros clubes, se era muito mais bonito apelar para a “mística da camisa”?

Por isso muito me surpreende que Sir Alex Ferguson troque o esoterismo triunfante de tempos passados pela objetividade amarga da atualidade (se eles pagam 200 por semana, o escocês também vai pagar!). Ele está certo quando diz que o Manchester City inflacionou o mercado, tornando a janela de transferências um período mais complicado para se fazer negócios. Mas também estava certo quando pagou 30 milhões pelo zagueiro Rio Ferdinand, numa época em que pagar “meros” 5 milhões em um atacante era uma despesa muito complicada de arcar para grande parte dos clubes, que não tinham ações a ser valorizadas em função do patrimônio em expansão e de uma perspectiva de crescimento a curto prazo.

A verdade é que o romantismo no futebol, na atualidade, é coisa de Dom Quixote cara-de-pau. O departamento financeiro de um clube faz parte do jogo também, tanto quanto as divisões de base, a mística da camisa e os jogadores dentro de campo. Ninguém paga 200 mil libras esterlinas por semana a Wayne Rooney acreditando que a história vai fazer todo o serviço de graça. Assim como ninguém, em sã consciência, briga com moinhos-de-vento -nem quando são fantasiados de gigantes malvados (e azúis).

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