A Polêmica da Pirataria

Padrão

Eu tinha uma opinião firme acerca da pirataria até o momento em que assisti ao vídeo do Desce a Letra falando sobre a PIPA. A PIPA era um projeto de lei do governo estadunidense que previa punições e censuras aos internautas que praticassem e/ou fomentassem pirataria. De certo, “pirataria” é outro nome para “roubo”, que eu sempre repudiei, mas Cauê Moura inseriu um dado na discussão do tema que eu ignorava completamente, e que mudou, a menos parcialmente, a minha perspectiva.

Roubo vs Necessidade

De fato, ter acesso ao entretenimento é um direito fundamental do ser humano. Assim, vivendo num país onde se considera luxo dispor de qualquer bem além do estritamente necessário à sobrevivência, certas práticas menos ortodoxas são, no âmbito social, bastante toleradas. Compreende-se.

Mas o que não se pode relevar, relativamente a isso, é o impacto sócio-econômico que esses “desvios”, se levianos e excessivos, podem acarretar. É certo que a pessoa dá o “seu jeitinho” para ter acesso àquele game ou àquela obra de seu artista favorito, aos quais somente os mais abastados, de outra forma, teriam direito; mas é igualmente certo que muita gente, inclusive os próprios artistas, dependem da venda legal desses produtos para sobreviver e propiciar uma vida condigna aos seus familiares. E nunca é demais lembrar que a necessidade que o outro tem de sobreviver supera muito em importância à necessidade que você tem de se divertir (momento “shame on you”…).

O dilema é simples de dirimir, ao contrário do que pensam. Não tem dinheiro para comprar o CD que você quer? Baixe na internet. Mas lembre-se de juntar uns trocados para adquirir uma cópia original, assim que possível, porque muita gente depende do dinheiro dessa venda e dos empregos que uma atividade lucrativa permite manter.

Demanda, Oferta e Evolução do Mercado

Existem, sim, outras maneiras de ter acesso a um produto original sem precisar, necessariamente, sujar as mãos. Mas são inúteis e, do ponto de vista do fornecedor legalizado, contraproducentes. Músicas, jogos e outros produtos multimídia, oferecidos na modalidade “demo”, são preparados para deixar “um gostinho de quero mais”; a estratégia até atinge o seu público-alvo, mas fica muito aquém de seu fim almejado, uma vez que a pirataria continua a pleno vapor. O erro, aqui, é o de técnica mercadológica; ao invés de procurar satisfazer o consumidor (com preço e qualidade), o vendedor prioriza a manipulação, porque se deixa mover apenas pela ganância.

Quantas vezes você não comprou aquele CD importado da banda da moda e se decepcionou? A propaganda em cima de uma ou duas músicas era massiva, mas as faixas restantes não justificavam o preço do produto… e você acabou ludibriado! Por apostar nessa dinâmica, a indústria musical praticamente cavou seu próprio túmulo. O consumidor não é bobo. Com o advento da internet, esse tipo de prática abusiva, por causa da pirataria, aumentou em progressão geométrica; e a indústria musical teve que se adaptar, como consequência. Hoje em dia, existem sites legalizados que permitem que o usuário ouça faixas musicais livremente e baixe-as por preços módicos.

O mercado não obedece à lógica dos malandros, mas àquela velha lei da oferta em função da demanda. As pessoas querem, sobretudo, ter suas vidas facilitadas. Por isso a internet, segundo penso, otimizando os desejos e as relações (pelo menos em certo sentido…), revolucionou para melhor o mercado e o entendimento de “propriedade”. O governo estadunidense, engessado, não compreende que a relativização do conceito de “propriedade” não implica, necessariamente, baderna. As pessoas não querem isso; a semi-anarquia da net é apenas um vetor que aponta para a defasagem na estrutura ultrapassada de um mercado alheio aos bits e estagnado em sua velha e fria mecânica.

O camarada Cauê Moura trouxe um exemplo importantíssimo a esse respeito. Você sabia que, antigamente, os estúdios de cinema dos EUA tinham que pagar direitos autorais pelo uso de câmeras? Como isso tornava inviável o lucro, tiveram que se mudar para Hollywood, onde não havia essa obrigação. Foi vantajoso para todos. A indústria cinematográfica pôde crescer e o governo, malgrado perdesse por um lado, ganhou incomparavelmente mais ao receber imposto de renda de um ramo da economia que se tornava multimilionário.

O segredo não está na presença de regras -ou na ausência delas. O segredo está nos agentes econômicos -e no respeito mútuo que nutrem entre si.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s