Epopeia Capilar: de Aquiles a Justin Bieber

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Nesses tempos de super-população e densidade demográfica crescente, preocupar-se com tempo e espaço não é um privilégio apenas dos chineses e de cidadãos das grandes metrópoles. A democratização do stress e da aporrinhação estendeu suas asas de morcego aos confins do subúrbio intermunicipal. Está tudo de cabeça para baixo no mundo, até que enfim! Com efeito, se a gente já andava de cabelo em pé com as exigências cada vez mais descabeladas da vida moderna, imagine você se esse contratempo não pudesse mais ser reduzido nem à mera condição de figura de linguagem.

Pois é, meus amigos. Até sair para cortar cabelo, uma tradição milenar com laivos de entretenimento, tem se tornado um martírio, entrado no rol das obrigações cotidianas. Dias desses eu acordei decidido a debastar a juba em algum desses barbeiros baratos, mas andei quilômetros (e em círculos) para encontrar uma barbearia que não tivesse fila de espera. Nos dias de hoje, cortar cabelo aos sábados emula cada vez mais as segundas-feiras de filas de atendimento no SUS – mesmo porque os “cortes” modernosos que se multiplicam por aí, como o badalado moicano, são prognósticos efetivos de diarreia mental em níveis endêmicos.

Por falar em sábados, ainda me lembro daqueles em que eu e meu irmão íamos juntos cortar o cabelo, ainda crianças. Era um acontecimento, uma cerimônia. Para começo de conversa, trajávamos roupas muito mais confortáveis do que a famigerada “farda” escolar que, obrigados a usar no meio de semana, sempre nos incomodara -o que, por si só, já constituía um grande alívio (no fundo todas as mães sabem que escola, para criança, é uma espécie de Vietnã: uma guerra sem sentido em que os outros saem lucrando). Em segundo lugar, as barbearias predominavam; não havia esse número tão grande de coffeurs, salões, bichas e outras frescuragens se acotovelando em meio a inúmeros diplomas de doutorado em corte Channel e outras merdas similiares.

Para mim, aliás, essa onda metrossexual colabora bastante com o cenário de caos crescente. Não fossem os metrossexuais, a quantidade de gays saídos do armário continuaria em patamares muito baixos. Em minha epopeia capilar mais recente, acima aludida, passei por tantos salões e coffeurs que cheguei a cogitar a possibilidade de entrar em algum, impossibilitado como estava de recorrer ao velho e bom barbeiro. Ora, você acredita realmente que haveria tantos desses estabelecimentos se apenas mulheres os frequentassem? Uma mulher pode chegar a pagar 300, 400 reais num corte de cabelo; um homem de verdade, na minha época, não chegava nem de longe a pensar em pagar isso; mas não se esqueça que falamos de minha época…

Como fica fácil deduzir, o problema não são os maricas de tesoura. No ofício a que estão mais naturalmente inclinadas, as bibinhas até se sobressaem. E ademais nem eu estou excessivamente preocupado com o lugar onde outro macho, ainda que o seja apenas em tese, me possa pegar por trás; desde que este lugar esteja localizado acima do pescoço, sem problemas. O problema dos salões é o preço que cobram para cortar cabelo; considerado proporcionalmente, até mesmo o corte de um pentelho do saco pode custar os olhos da cara.

Por isso que os homens remanescentes continuam a procurar os barbeiros. Mesmo que eles façam caminhos-de-rato, o lance é um trabalho rápido, limpo e barato. A grande questão é que os metrossexuais, além de não ter mais dinheiro para cortar os pentelhos do saco, estão querendo espalhar moda por outras freguesias. E, como o freguês tem sempre razão, escute o que já lhe digo: nada disso não é só figura de linguagem…

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