Anders Breivik e o sinal dos tempos

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Anders Behring Breivik

Como todos sabem, um sujeito chamado Anders Behring Breivik ganhou os noticiários mundo afora depois de ter perpetrado um ataque terrorista em sua terra natal. Para a surpresa geral, no entanto, Anders não é um adepto do Islã, instigado por ideias violentas de jihad, como é de praxe em muitas culturas mulçumanas. Não: segundo palavras do próprio Anders, ele seria um “cristão fundamentalista” que, revoltado com a política multiculturalista adotada por seus compatriotas, teria tomado em armas e adotado medidas extremas.

Sem dúvida, a trilha espinhosa que Anders tomou vai se tornar mais e mais recorrente. Para uma nova surpresa geral, nem todos estão satisfeitos em trilhar os caminhos que a esquerda escolheu, unilateralmente, para a sociedade ocidental. O conflito de culturas que de fato existe na europa moderna mostra, enfim, suas primeiras cicatrizes (de muitas). Sem camuflagens, sem falsos pieguismos -sem discursos hipócritas de tolerância.

Mas a guerra que se escamoteava na retórica democrática não é um conflito do ocidente iluminista com os valores do oriente. Não foi o modo de pensar o mundo da cultura chinesa o que escandalizou Anders. Não foi em razão da miscigenação brasileira que ele fez o que fez.  Não foi nem sequer o islamismo a causa de sua ira desenfreada. Não obstante seu mar de justificativas, ou de outras a ele atribuídas por alguns oportunistas de esquerda, o que provocou verdadeiramente seu ato de desumanidade extrema foi o seu próprio esfacelamento enquanto indivíduo, o esvaziamento de um eu que nada mais é do que o reflexo de uma crise muito mais profunda e abrangente.

O Ocidente está em guerra consigo mesmo. Muito antes do que os muçulmanos, a ignorada crise do relativismo tem trazido à baila o ponto X da questão: nem todas as ideias estão certas e nem todos os comportamentos são aceitáveis, ainda que sejam consensuais. Por causa de sua hipocrisia e cegueira, no entanto, e sob a égide de sua amada democracia ocidental, a sociedade liberal ignorou as evidentes contradições que existem entre a teoria e a prática, o ideal e o real. Nem todas as burcas escondem os verdadeiros bandidos, enfim.

E, com efeito, nem todos os rótulos são infalivelmente aplicáveis. Embora o caso Anders seja o ensejo que ansiavam para demonizar a direita, não é novidade alguma que nossos grupos são bastante heterogêneos. Há grupos de direita que são nazistas. Há grupos de direita que são satanistas. E há grupos de direita que são cristãos. Anders, por seu turno, era um autodenominado “cristão” que combatia a jihad islâmica se alistando em suas hordas, acreditando na mesma fé torpe que impelia seus “inimigos” a destruir as vidas de pessoas inocentes em nome de “objetivos maiores”. Em que Anders se diferencia de seus adversários, contudo?

Ao contrário do que poderiam pensar esquerdas e direitas, a culpa não é do multiculturalismo. Não são a miscigenação nem a globalização os vilões da história que acha em Anders apenas um títere, um coadjuvante de seus desdobramentos inevitáveis. O responsável pelo caos iminente é o desespero que nasce da aceitação pacífica e resoluta da falta de sentido da existência, aceitação que forçosamente alberga em si, até os limites do intolerável, falsas expectativas sobre uma vida de harmonia e tolerância em uma utópica Shangri-Lá.

De fato, a Europa tem sido assaltada por inúmeros problemas decorrentes da imigração, mas o verdadeiro problema se encontra na tenacidade com a qual grande parte dos europeus têm se empenhado em ignorar o óbvio. A imigração, meus amigos, é apenas a ponta de um iceberg. A Europa, e a sociedade ocidental como um todo, por desacreditar da verdade, permanece viciada nas próprias ilusões, sobre si mesma e sobre o mundo. De repente pode ser tarde para acordar, atingido um estágio irreversível de psicose auto-induzida por ideias narcotizantes, “fáceis”: e então nós estaremos cumprindo pena perpétua por crimes contra a humanidade.

O verdadeiro problema tem o nome de desespero.

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