Trending Topic: Foda-se

Padrão

Na minha época, usar Orkut era coisa de retardado; o sujeito que tinha uma conta no Orkut corria o sério risco de ser tratado como leproso, se seus conhecidos também não fossem orkutianos. Hoje em dia o panorama mudou drasticamente. Não passa um dia sequer sem que a mídia cite as “redes sociais”, e eu conheço algumas pessoas que, de opositores ferozes, passaram a seguidores fiéis desses entretenimentos virtuais.

Aliás, seguidores fiéis é uma expressão que voltou à moda. Antigamente, as “pessoas normais” eram seguidoras de Jesus; hoje, as chamadas “pessoas normais” têm conta no Twitter e são seguidoras de Obama. Tudo bem, já que cada época tem os messias e os valores que merece. Eu só acho curioso que os orkutianos, há bem pouco tempo atrás, tenham sido hostilizados e ridicularizados por causa de seus mil “amigos” virtuais: os twitters dispõem de milhões de seguidores, e ninguém fala mal disso.

Para mim, quero deixar bem claro, é indiferente que alguém tenha 70 mil seguidores ou apenas 7, de uma perspectiva valorativa. O que me espanta é desconhecer as razões pelas quais alguém se torna seguidor de uma seita que não possui corpo doutrinário. Sim, uma seita, porque, se você é “seguidor” de alguém, pressupõe-se que seu ídolo ou pastor tenha um sistema de valores ou conjunto de ideias que justifique uma adesão cuja denominação (“seguidor”) revele um apoio tão entusiástico. Ou vivemos numa era de profetas geniais, capazes de expressar pensamentos profundos em apenas 140 caracteres, ou precisamos rever nossos (cont)atos.

Esse Twitter nada mais é do que um Orkut piorado, uma versão Lite; é um Orkut só com scrapbook. Por isso eu não entendo por que, malgrado a defasagem, tantos empinem o nariz só por frequentar aquela rede social. Eu não sei que prestígio pode advir disso ou que tipo de conhecimento se possa adquirir. Ou que tipo de camaradagem possa surgir. Parece-me que, evitando se expor ao economizar caracteres, as pessoas procurem aparecer sem dar brecha para críticas. Talvez seja isso. Essa parcimônia de ser é expressa em slogans, ações publicitárias que eliminam os excessos e vendem uma imagem de auto-suficiência -a imagem do sucesso em nossa sociedade.

Deslocando o foco para o Orkut, em termos comparativos, a preferência dos anti-orkutianos pelo Twitter contradiz as críticas que eles normalmente empregam para desqualificar o Orkut. Afirmavam eles, antes do advento do Twitter, que é detestável recorrer a uma rede social para fazer amigos. Por quê? Porque seria mais proveitoso, segundo os mesmos, fazer amigos na vida “real”; porque, segundo os mesmos, fazer amigos virtuais seria indício de “carência sentimental” ou mesmo de vaidade injustificada. Concordo que “juntar” mil amigos no Orkut pode ser um sinal de vaidade injustificada, mas acrescento que a “carência sentimental”, de expressão mórbida ou sã, é inata àqueles seres que, conhecidos como seres humanos, se reúnem em sociedades e redes sociais (Twitter incluso); e, quanto ao primeiro argumento, não existe uma razão objetiva para acreditar que amigos virtuais sejam piores do que os “reais”, ou seja, não existe razão concreta para crer que o nível de percepção sensorial de alguém seja a condição sine qua non para legitimar uma amizade, para além de atributos como a lealdade, afinidade intelectual, honestidade e, naturalmente, a identificação intelectual de uma pessoa distinta da sua (de outra forma, eu não poderia, por exemplo, acreditar em Deus). Por outro lado, o Twitter parece potencializar, para pior, justamente aquilo que essas pessoas condenavam ou corroboravam, como deixei demonstrado no parágrafo anterior. Gente complicada, não?

Quando eu usava o Orkut, o cotidiano na rede era mais simples. Você não precisava ser “seguidor” de ninguém. Você podia encontrar algum amigo e adicioná-lo como “amigo”. Você podia debater em alguma comunidade e, atraído pelas ideias de alguém, adicioná-lo como “conhecido”. Você podia até mesmo dar uma espiada no álbum de alguém e, provavelmente dotado de segundas intenções, adicioná-la como “amigo”. Normal.

Era comum como a vida fazer uso do Orkut -exceto pelo fato de não podermos olhar olho-a-olho, e isso era um ensejo do qual se aproveitavam alguns orkutianos mal intencionados. Mas, pensando bem, isso também é comum como a vida; ou quantas vezes não julgamos conhecer alguém pelas aparências e somos, de repente, surpreendidos?

O que não é comum é o sujeito resumir sua existência em 140 caracteres e, ao mesmo tempo, se julgar o pica das galáxias.

Twitter? Não, obrigado: prefiro continuar entre os leprosos…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s