O Sagrado e o Profano

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Todo mundo sabe que o carnaval remonta ao paganismo. Não por acaso ele acontece quarenta dias antes da Páscoa. Sendo a ressurreição de Cristo o marco da libertação do homem do pecado, da transmutação de sua precariedade material, é curiosamente simbólico que ocorra logo após a “festa da carne”. Que o diga o filho pródigo.

Mas será que a “festa da carne” é necessariamente uma data anti-cristã, por causa de suas raízes pagãs? É preciso fazer uma ressalva aqui, porque há um equívoco quando relacionamos o paganismo à antítese do cristianismo. O mundo pagão já existia muito antes de Cristo vir ao mundo e, sendo assim, não pode ser considerado uma reação à sua cosmovisão. O paganismo pode e deve ser interpretado como o afastamento do homem de Deus -mas não podemos nos esquecer de que esse “afastamento” implica embrutecimento, afastamento do Éden anímico e esquecimento, firmados os pés no pântano telúrico.

Me incomoda essa visão excessivamente sisuda que se tem da religião cristã. Em O Nome da Rosa, Umberto Eco insinua que a Igreja Católica representa uma tentativa de sufocamento das faculdades naturais do homem, como o riso e a inteligência. No carnaval carioca, a obstinada oposição que a Igreja faz à representação de símbolos cristãos na passarela sempre foi associada a uma suposta incompatibilidade entre a mortificação cristã e a alegria de estar vivo.

No entanto, esse é um maniqueísmo que, de fato, é incompatível com a realidade. Muita gente relaciona a palavra “profano” ao outro lado da “Força”, mas “profano” se refere tão-somente ao que não é religioso. A missa era rezada em latim devido a piedade que nos inspirava;  não quer nem queria dizer que falar em português seja se comunicar na língua do Diabo, naturalmente. Usando de raciocínio semelhante, não é difícil de entender por que o cristianismo se recusa a se vulgarizar, colocando-se no mesmo patamar que o lado profano da vida. Tudo tem hora e lugar.

Há uma distância entre a carne e a alma, mas seus caminhos não necessariamente se excluem. Retomando o que eu dizia a respeito do paganismo, posso citar inúmeras religiões politeístas que apregoavam valores compatíveis com o cristianismo. E é natural que assim seja. Porque o homem, por mais que perca o contato com seu espírito, nunca se separa completamente dele; há sempre uma marca na mãe-natureza, presente em nós mesmos, que nos induz a vislumbrar em seu projeto o aspecto harmonioso, equilibrado -alegórico de nossa condição.

Por isso o carnaval, embora “festa da carne”, recorra a enredos eruditos e a obras elaboradas para nos proporcionar deleite: porque não é a entrega aos baixos instintos o que nos fascina, mas aquilo que nos congrega em festa para celebrar nossa dignidade. E a Páscoa, necessariamente distante e convenientemente próxima, vem para nos tornar conscientes da verdadeira essência desse “paraíso perdido”.

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