Carpe Noctum

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Nunca deixo de me impressionar quando constato mais uma vez que, na vida, as coisas têm um peso absolutamente relativo. É como se ela, além de imitar a arte, procurasse insinuar o que o universo por essência deve ser: caos e congraçamento. De fato, a ordem dos fatores pode muito bem alterar o produto -e um produto induzido, reordenar os fatores.

Outro dia eu fui acusado de estar desperdiçando minha vida. Tipo de afirmação interessante de se fazer a alguém que está desempregado, tendo que cuidar de um pai depois de um derrame, observar uma mãe sofrer de câncer e ainda, para completar, tolerar o ódio incontido de 9 entre 10 pessoas. Desperdiçar minha vida… O que eu poderia estar fazendo, além de “desperdiçar” minha vida? Ou melhor: o que seria ganhar minha vida?

A gente joga com as cartas que têm, mas nunca quer perder para a banca. Não é mesmo?

De qualquer forma, mudando um pouco o foco do assunto, perceba você que “ganhar a vida” geralmente tem o significado, entre nós, de “ganhar dinheiro”. E não termina por aí. Por analogia, podemos associar o “ganhar a vida” contemporâneo ao namorar muito, ter muitas aventuras, histórias para contar e terminar como um pai de família honesto, com um emprego estável e bem remunerado. Não acho isso ruim, não -muito pelo contrário: muitos (inclusive eu) almejaram ter tudo isso aí a vida toda. É o Shangri-lá do homem-médio.

Contudo, nem todos ganharam a vida do jeito tradicional de nossos capitalizados tempos. Quando nos lembramos de um sujeito como São Francisco de Assis, por exemplo, nunca o imaginamos como um fracassado; embora ele tenha largado uma vida de boemia para se tornar um monge, o Santo Chico sempre foi sinônimo de triunfo, de ícone religioso, de nirvana -até entre os não-religiosos. Por outro lado, assim que topamos com uma notícia de jornal que relata a gandaia desenfreada de um playboy da Zona Sul do Rio, que resultou na sua expulsão da faculdade de direito e em alguns processos por danos morais, sentimos pena de seus pais e ficamos intrigados pelo porquê daquilo. Então o ganhar e o desperdiçar a vida nos parecem mais uma questão de consciência e de auto-determinação, ao invés de apenas o produto caprichoso de uma indução cultural, de um atavismo.

Por isso tudo talvez eu não me sinta satisfeito com aquilo que ganhei da vida até então, para espanto daqueles que me observam do alto de suas coberturas, morais e/ou materiais. Numa etapa inicial dessa frustração, repassamos nossa vida diante de nossos pensamentos e ficamos procurando a causa eficiente de nossa decadência. É inútil, mas inevitável. Depois, os mais desprovidos de fé culpam a Deus pela ruína de seus projetos. “Por quê?! Se eu era tão talentoso, com um futuro tão promissor?!” Mas a etapa seguinte é que é a decisiva.

Num certo momento, parece-nos inevitável que nossa vida tenha tomado a curva fatídica em direção a uma rua inóspita e sem saída, onde não há luz nem festa; parece-nos, como a um Édipo desalentado, que tudo o que fomos não poderia deixar de ter sido, uma antecipação do fator entrópico do universo que conduzirá até mesmo os mais afortunados, inevitavelmente, à morte e à perda. Se aceitamos isso, então tudo se torna mais tolerável, revestido de uma beleza nostálgica, lírica. Num momento posterior, fica claro que os tropeços nos recrudesceram, e o mapa da vida se nos torna um pouco menos obscuro.

Diante de uma luz, por frágil que seja, mesmo quem estava num buraco profundo se enche de entusiasmo. A pergunta capital que esse sujeito se faz é: se eu morresse hoje, minha vida teria sido inútil? E o sujeito percebe que, por menos que tenha feito, deixou uma marca, uma bela marca; por mais que tudo tenha sido difícil e confuso, quanto mais perseverou na trilha da vida, mais lucidez pôde abrigar em si. E isso diminui sua angústia.

Já dizia o Sábio: “Eu sou o Alfa e o Ômega”.

 

 

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