Nas Entrelinhas da Mídia “Imparcial”

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Por esses dias eu estava relendo uma matéria da revista Veja cujo título era A Volta dos Excomungados. Os católicos de verdade e os detratores ateus já devem saber do que falo. Em fins da primeira década deste milênio, Bento XVI revogou a excomunhão de um punhado de bispos dissidentes, oriundos da Fraternidade São Pio X. Dentre os quais, o famoso Marcel Lefebvre e o mais novo hite pareide nos círculos do fundamentalismo ateu: o bispo britânico Richard Williamson.

Para quem não se recorda, este último foi o responsável por criar uma das maiores celeumas midiáticas da história religiosa recente. Hoje ofuscada pelo escândalo da pedofilia, na época justificou uma verdadeira guerra relâmpago contra o front católico, empreendida em ataques tanto aéreos e etéreos quanto rasteiros e covardes. Williamson declarara que não acreditava na existência do holocausto e sugerira que os ataques de 11 de setembro tivessem sido um engodo estadunidense; pronto, o palco estava armado para o circo…

Um dos aspectos da reportagem que mais me deixou apreensivo, ao relê-la, foram as insinuações quanto à natureza do conservadorismo religioso. Era natural que entrasse na pauta do jornalista, uma vez que a volta da ala conservadora às fileiras do catolicismo pós-ecumênico representava mais do que uma decisão incomum. Ou mais do que um furo de reportagem relativo a uma declaração controversa. Representava uma reação insipiente do cristianismo contra a ideologia reinante, que deseja sufocar as religiões lentamente, cerceando as liberdades com as quais poderiam voltar a florescer; mantendo o catolicismo anêmico, inexpressivo, as chances de uma vida vegetativa crescem em proporção geométrica.

Uma das formas de abandonar o moribundo à míngua, na CTI, é difundir calúnias sobre ele. Para os católicos de verdade, a doutrina conhecida vai muito além do mundinho esterelizado e agridoce do Self Made God à moda de muito “cristianismo” por aí, gótico-flamejante revival. Para os católicos de verdade, austeros quando o assunto é sério, não passa de uma falácia infantil a associação entre a Igreja pré-Vaticano II e a ideologia nazista. Porque, para quem usa a massa encefálica mais do que como uma latrina, repositório do senso comum, os infames genes hereditários de uma paternidade bastarda podem ser vistos no presente, com o microscópio da razão, e não simplesmente assimilados, a título de mitos imemoriais a respeito da criação do mundo com o advento da modernidade.

Os honoráveis senhores da mídia, tão cheios de si, donos da verdade, esquecem-se, embriagados de vaidade e de sanha sacrílega como estão, do tremendo teto de vidro que encobre seu mal disfarçado progressismo tosco. Uma pedrinha que seja e a impáfia toda é pulverizada. Para que a máscara caia, basta analisarmos superficialmente as ideias por detrás de políticas públicas abortistas ou pela utilização de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas, eugenismo à moda Menghele. Imparcialidade uma vírgula.

Por onde começamos? É como contar os grãos de areia que compõem o Saara… Por anos os progressistas quiseram apelar para a ciência, no tocante à discussão sobre o aborto, a fim de esgotar, em si, os argumentos de grupos religiosos que combatem essa prática nefanda; no entanto, como nem a ciência sabia dizer ao certo quando a vida começava, o benefício da dúvida sugeria uma vitória dos últimos, antes mesmo de começar a briga. Mas os progressistas não se deram por vencidos. Munidos das armas políticas e midiáticas que lhes conferem um poder desproporcional, deslocaram seu foco argumentativo para questões mais pragmáticas; se o aborto é praticado em massa, em condições precárias, por pessoas desprovidas do discernimento e/ou das condições econômicas necessárias para levar a gravidez a cabo sem prejuízos à mãe e/ou ao filho, hoje ou amanhã, por que não tratar o assunto como um problema de saúde pública, ao invés de tapar o sol com a peneira? Chegam à audácia de afirmar que, nascendo coxos ou pobres, seria uma temeridade que esses fetos viessem à luz, por razões práticas que iam desde a seguridade social à segurança pública.

Vejam vocês, pessoas de bem, que a podridão não permanece oculta por muito tempo; logo emana o odor característico e atrai os abutres de plantão, que fazem a farra. Não por acaso o senhor Obama Bin Laden, César Augusto, viu, veio e venceu. Essa mesma criatura aprovou recentemente uma lei que permitia a realização de aborto em mães já em trabalho de parto. Meu caros, um feto, durante um trabalho de parto, é efetivamente isto: um BEBÊ! Ou seja, fica evidente que, para os progressistas, a questão da vida humana é irrelevante, fica em terceiro plano, para dizer o mínimo em se tratando de infanticídio. Em primeiro plano estão os interesses do Estado e, em segundo plano, os interesses do cidadão.

É assim que funciona a mentalidade moderna, em termos de justiça social e de moralidade. Nela são conceitos flexíveis e, não raro, ambíguos. A legitimidade deles decorre de um contrato social. Naturalmente que, sendo assim uma convenção a moralidade, nascida de uma construção social mais ou menos inconsciente e bastante manipulada em contrapartida, cabe aos seus administradores regular os critérios objetivos que guiam essa sociedade, a fim de que ela se despoje de todos os seus preconceitos atávicos em prol de um ideal oferecido pelo… Estado. Nesse ínterim, quem sabe, o Wellfare State material substitua, um dia, a eterna espera por um paraíso além, cheia de angústias.

Nesse cenário caótico de uma mentalidade antimetafísica, a Lei do Cão obriga que o Estado faça os cortes orçamentários necessários. Nesse estágio kafkiano de existência, nem a vida humana é vista mais do que como uma engrenagem, que pode ora comprometer um sistema, ora aperfeiçoá-lo. Num mundo sem uma causa precípua, a Natureza é o caos, e o Estado é o demiurgo ordenador, o técnico frio e calculista. Vive quem cabe nos números ou trabalha pela ideologia vigente.

Eis o ponto ideal para reintroduzirmos a questão do nazismo. Dizia a mídia progressista, à guisa de insinuação, que o catolicismo tradicional está intimamente relacionado ao nazismo. Vejamos. Comparemos. Os nazistas mandavam para os campos de concentração os alemães com deficiência física ou mental, no intento de preservar a pureza genética e o fomento de uma nação forte; os progressistas justificam o aborto como medida profilática contra o crescimento da pobreza e da criminalidade, transformando uma classe em câncer social e eliminando o ônus que representam os deficientes, improdutivos em tese. Os nazistas, visando o progresso na economia e na saúde, usavam o cabelo dos judeus para fazer chinelos e os seus corpos para experiências biológicas; os progressistas desejam que embriões se tornem cobaias, para que deficientes se tornem pessoas “funcionais” e as despesas com programas sociais diminuam. Um lado trabalha por ideologia, outro por razões práticas. Ambos, quer seja por fanatismo ou pela ausência de um sistema concreto de valores, convergem para o mesmo ponto, para um mesmo e “depurado” Reich. E a Igreja existe contra isso tudo.

Mas talvez eu esteja sendo injusto com os nazistas. Hitler e companhia ao menos tinham o atenuante da ignorância e da miséria, ônus de uma Alemanha derrotada, e o álibi de acreditar no que faziam -e o fazer de cara limpa. Os progressistas, pelo contrário, além de escamotear suas ideias, sibilinos, sinuosos e silenciosos, armam o maldito bote…

Por isso é que, se alguém se declara cético em relação à existência do holocausto judeu, especialmente em se tratando de uma potestade católica, os progressistas sentam a pua. Nenhum dos interesses destes é honroso, porque eles não têm senso de decência e, como consequência, não se deixam restringir pelas normas a que se submetem seus opositores. Para eles, portanto, mesmo quando não se trata de uma disputa de egos, jogar areia na cara do outro é uma artimanha tão válida quanto o próprio jogo limpo, porque sua condição “messiânica” os liberta dos labirintos do logos, o discurso rigoroso, onde estamos estagnados nós, os “reacionários”. Os progressistas, especialmente os vermelhos, em sua megalomania, se enxergam como os arautos de uma justiça torta e onipotente, oráculos de alguma espécie de profecia materialista e escatológica. Por essas e por outras é que acredito, por exemplo, que Dilma Rousseff não enxergue incongruências nas suas declarações sobre o aborto; ela se diz contra a prática por considerar uma “agressão contra a mulher”, mas se declara ao mesmo tempo a favor de sua descriminalização. Veja bem que ela não cita a vida do feto como importante, no que faz honestamente: para ela, muito mais do que qualquer direito natural, se impõe o direito supremo de uma “minoria”, especialmente se traz em seu bojo a bendita subversão dos costumes; para Dilma, a mulher é que é importante.

Perceba que, por si só, a declaração do bispo Williamson não o torna um antissemita; no máximo testemunha, a seu respeito, sobre uma postura paranóica em relação ao conhecimento e/ou em relação aos meios de comunicação/informação. Considerando-se as circunstâncias, eu diria até que é uma suspeita plausível, embora eu, particularmente, acredite no holocausto dos judeus. Mas a diferença entre mim e o bispo, assim sendo, é de uma polegada de grau; entre Williamson e os progressistas, entretanto, a diferença é de um abismo de existência… Mas não reduzo estes a cidadãos de segunda classe em razão disso; creio apenas haver, entre nós, católicos, e eles, uma diferença de desenvolvimento humano que nem por isso os torna menos dignos à experiência de viver.

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