Dia das Crianças

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Eu sei que o dia das crianças foi anteontem, mas eu estava pensando com meus botões, retrospectivamente, a respeito da infância feliz que tive. Sim, porque a infância nossa não é só feita de brinquedos e brincadeiras; se assim o fosse, eu estaria em maus lençóis, uma vez que ganhava poucos brinquedos e, quanto aos que ganhava, tratava de destruir rapidamente. Não porque fosse uma peste ou odiasse meus bonecos e carrinhos, mas porque tinha muita verve e, desde aquela época, um espírito afeito à desconstrução. Aliás, essa é uma tendência que se consolidou com a maturidade…

Eu gostava era de ganhar brinquedos, como toda criança normal e sadia. E até que era afortunado em relação a isso, pelo menos na minha primeira infância; como primeiro neto de meus avós e primeiro sobrinho entre meus tios, fui o xodó da família por bastante tempo. Devo ter reinado soberano até os meus 7 anos de idade, quando a paparicação diminuiu, seja em razão da idade “avançada” (já não era mais o bebezinho de antes), seja porque meus tios já tinham seus primeiros filhos (sou o mais velho de minha geração familiar).

Nunca tive uma quantidade muito grande de brinquedos. Minha família sempre foi pobre, e eu cresci numa época em que o Sarney era presidente; ou seja, o tempo era de vacas magras. Não obstante, para uma criança em minhas condições, o volume de brinquedos de que eu dispunha faria crescer os olhos de uma criança da minha mesma faixa social. O grande problema eram minhas brincadeiras, que acabavam levando os G.I. Joe, os bonecos do He-Man e os carrinhos de fricção inexoravelmente rumo à destruição.

Assim que meus pais se tornaram cientes de minha relação destrutiva com os brinquedos, eles se recusaram a me municiar com um novo arsenal (inclusive de bola de futebol, que eu e meu irmaõ chutávamos dentro da sala de estar). A partir da pré-adolescência, praticamente, eu só ganhava brinquedos que não pudessem causar prejuízos financeiros aos meus pais, danos físicos a terceiros ou despesas advindas da depredação do patrimônio familiar (em especial, de vidros, vasos e objetos facilmente inflamáveis…).

Mas não para por aí. Quando atingimos a idade em que somos chamados de “rapazinhos“, a situação ganha contornos dramáticos. Eu não sabia bem o que era ser um “rapazinho, já que ainda era um fedelho hiper-ativo e nem sequer tinha pêlos pubianos no saco; quando me chamavam disso, eu me sentia honrado, o verdadeiro macho-alfa da parada. Como era tolo, como era ingênuo! Minha reação na verdade era a brecha que esperavam para propagar a mensagem subliminar entre si; “rapazinho” nada mais é do que um código secreto através do qual as pessoas querem dizer que alguém não precisa ser tratado mais com regalias!

Quando você é um “rapazinho”, os presentes que recebe são dados tão-somente para torturá-lo. São uma indireta de seus pais, que querem dizer: Rapaz, você já tem 10, 11 anos; vai trabalhar, seu vagabundo!!!


Presentes que NÃO DEVEM ser dados no dia das crianças.


Jogo de canetas: NUNCA dê um jogo de canetas de 50 centavos para uma criança! O que os desumanos seres que presenteiam uma criança com canetas esperam?! Que o guri pense consigo: Que legal, estou doido para ir para a escola e fazer uns cinquenta exercícios de matemática!!! ???? Na verdade, o estratagema é simples e consiste em matar dois coelhos com uma cajadada só; enquanto as crianças “brincam” com a caneta, param de chatear os adultos com sua presença insuportável e, ao mesmo tempo, fazem estágio antecipado de advogados e juristas -garantindo, dessa forma, um futuro próspero.

Par de meias: nenhuma criança se importa se está de meias ou não. Quando eu era pequeno, vivia descalço e pouco me importava se pisava no mármore ou no barro. Tênis, então, era coisa que eu só usava para solenidades. O fato de alguém presentear uma criança com meias deveria significar três coisas, para a mesma: 1) não querem gastar mais do que dez paus com o pimpolho; 2) estão de saco cheio de comprar AS infantil para um pentelho que vive pegando friagem; e 3) os adultos têm como se vingar pelo chão sujo de barro e merda de cachorro.

Jogo de cuecas: porra, como uma criança pode se importar com o tipo de cueca que recebe?!?! Hoje, em virtude do volume das bolas e do dito cujo, prefiro comprar cueca boxer, que também alivia o efeito bichal de reentrância do tecido no rego. Mas, na época em que eu era um moleque, não estava nem aí para essa porra… Usava aquelas cuecas escrotas mesmo, que pareciam feitas de pano fodido e que viviam entra ndo no rabo da gente; embora isto me incomodasse, eu simplesmente não sabia que existiam outros modelos e, francamente, meus instrumentos ocupavam um espaço mínimo para que eu me importasse com sua disposição no espaço dado. Sem contar que, numa época em que eu não tinha sequer que me preocupar em lavar minha própria roupa, para mim era indiferente usar uma mesma cueca por um dia ou por um ano…

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